BOLETIM

LABORATÓRIO DE COMPORTAMENTO MOTOR

AGOSTO No. 2 - 1994
ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Editor: Edison de J. Manoel

Editorial

Comportamento motor: caos ou ordem ?

Vivemos numa época em que o paradigma sistêmico exerce cada vez mais influência dentro da ciência. Disciplinas de cunho trans-disciplinar com metodologias abordando a complexidade têm surgido em todas as áreas do conhecimento. Entre essas disciplinas, a Teoria do Caos tem sido alvo de considerável atenção por parte de pesquisadores. De fato, a busca da compreensão do comportamento caótico em sistemas não-lineares tem se tornado uma "moda". O apelo dessa disciplina está em demonstrar que a desordem ou o caos não é um "diabo" que deve ser expurgado da natureza. Pelo contrário, propõe-se que o caos e a desordem, desempenham um papel primordial nos processos naturais em diferentes níveis de organização, do bioquímico, fisiológico até o neural, comportamental e social. As questões relacionadas às matérias do caos e desordem são abordadas no presente boletim, tanto na Crônica Científica como no Ponto de Vista.
O fato de que sistemas complexos têm uma desordem inerente já é reconhecido há algum tempo. Vários pesquisadores têm procurado entender a natureza dessa desordem com o intuito de controlá-la. Nessa visão, caos e desordem a partir de um certo grau, podem ser negativos ao desempenho do sistema. Essa é um preocupação que pode ser inferida em Santos na sua crônica, quando ela procura avaliar o nível de variabilidade comportamental no desempenho motor de idosos.
Uma outra tendência é reconhecer que o caos é sempre benéfico, de fato, essencial para a ordem no sistema como um todo, e principalmente para que o sistema evolua. Esse é o ponto de vista adotado por Freudenheim, quando ela associa a variabilidade motora ao comportamento habilidoso e ao surgimento de novas formas de comportamento. Atualmente, encontramos investigações mostrando a importância do caos e desordem desde a percepção de odores (Skarda & Freeman, 1987) ao desenvolvimento neural e motor (Edelman, 1987; Sporns & Edelman, 1993; Zanone, Kelso & Jekka, 1993).
Assim como o caos não é um fenômeno singular, a variabilidade no comportamento motor apresenta também muitas facetas. Por isso, é necessário que procuremos abordar essas questões cuidadosamente e em profundidade para não sermos levados na "onda", sem sabermos ao certo de onde ela veio, ou para onde vai. Certamente isso pode gerar um caos que não seria nada benéfico para o pesquisador. Pode ter sido um erro a ênfase dada à invariância na compreensão do comportamento motor (cf. Marteniuk & Mackenzie, 1990), mas seria incorrer num erro igual ater-se apenas no que é variável. Bartlett (1932) diz melhor, quando ele discute os movimentos envolvidos no tênis:

"when I make the stroke I do not, as a matter of fact, produce something absolutely new, and I never merely repeat something old." (p.202)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bartlett, F.C. (1932). Remembering. Cambridge: The University Press.
Edelman,G. (1987). Neural Darwinism. New York: Basic Books.
Marteniuk, R.G. & MacKenzie, C.L. (1990). Invariance and variability in human prehension: Implications for theory development. In M.A. Goodale (Ed.). Vision and action. Norwood: Ablex Publishing Company.
Skarda, C.H. & Freeman, W. (1987). How brains make chaos in order to make sense of the world. Behavioral and Brain Sciences, 1, 161-195.
Sporns, O. & Edelman, G. (1993). Solving Bernstein’s problems: A proposal for the development of coordinated movement by selection. Child Development, 64, 4, 960-981.
Zanone, P.G; Kelso, J.A.S. & Jekka, J.J. (1993). Concepts and methods for a dynamical approach to behavioral coordination and change. In G.J.P. Savelsbergh (Ed.). The development of coordination in infancy. Amsterdam: North Holland.

Edison de J. Manoel

CRÔNICA CIENTÍFICA

VARIABILIDADE INTRA-INDIVIDUAL: um estudo da performance motora de indivíduos de 20 a 79 anos de idade.

Suely dos Santos

O desenvolvimento motor está relacionado às características das mudanças de comportamento motor através do tempo, como resultado de maturação e experiência, influenciadas por diferentes situações ambientais (HALVERSON, 1971).
Os problemas motores que surgem na interação com o ambiente, exigem do indivíduo uma variabilidade na utilização dos movimentos. Mas mesmo quando o ambiente é estável, os indivíduos parecem variar os padrões de movimento (MANOEL, 1989). As diferenças de desempenho podem refletir uma flutuação da performance do indivíduo de um momento para outro ou de uma tentativa para outra (CARRON & LEAVITT, 1972).
Este tipo de variabilidade intra-individual, bem como a variabilidade inter-indivíduos parece sofrer mudanças com a prática (SINGER, 1980). A prática de uma habilidade motora levaria a uma diminuição da quantidade de erros e também uma mudança em termos de qualidade, resultando numa variabilidade menor entre uma tentativa e outra, ou melhor, tornando as respostas mais consistentes, enquanto que as diferenças individuais (variabilidade inter-individual) aumentariam.
O comportamento motor deveria apresentar um nível ideal de variabilidade. Um grau de variabilidade máximo seria inviável por não conseguir definir um caminho para a ação e, por outro lado, um grau de variabilidade mínimo levaria a uma limitação de respostas, incompatível com as constantes variações do meio ambiente, portanto, também inviável (MANOEL, 1989).
No entanto, SANTOS (1993) verificou que indivíduos idosos submetidos a um processo de aprendizagem motora, demonstraram não modificar a variabilidade de suas respostas de tentativa para tentativa, mas apresentaram uma tendência de diminuição da consistência das respostas, contrariando as tendências observadas em crianças (FREUDENHEIM & TANI, 1993) ou mesmo em adultos (FREUDENHEIM, 1994).
O estudo da performance humana pode refletir o processo pelo qual um indivíduo se adapta às mudanças do próprio comportamento relacionado às demandas do ambiente ou diante de determinada situação. Assim, durante o envelhecimento parece ocorrer algum tipo de mudança, caracterizada pelo aumento de variabilidade intra-individual, que pode influenciar a maneira pela qual o indivíduo interage com o meio ambiente e, que talvez dificultasse o processo adaptativo.
Neste sentido, o objetivo deste estudo foi o de investigar a variabilidade de resposta intra-individual na tarefa de timing antecipatório. Foram formados 6 grupos G20, G30, G40, G50, G60 e G70, com indivíduos de 20 a 29, 30 a 39, 40 a 49, 50 a 59, 60 a 69 e 70 a 79 anos de idade, respectivamente. O desempenho foi caracterizado pela execução de 6 tentativas na tarefa experimental (Bassin Anticipation Timer).
Os resultados foram analisados em termos de erro absoluto (EA), erro constante (EC) e erro variável (EV). Tanto em EA como EC foi encontrada diferença significante entre o grupo G70 e os grupos G50, G40, G30 e G20, ou melhor, os indivíduos acima de 70 anos de idade foram menos precisos, em relação à magnitude e direção da resposta, quando comparados aos indivíduos de até 59 anos. Na medida de variância que indica a consistência das respostas, erro variável, a análise estatística encontrou uma tendência do grupo G70 ser mais inconsistente apenas em relação ao grupo G40.
Possível que o aumento da variabilidade intra-individual em idades mais avançadas seja evidenciado somente após um processo de aprendizagem e não na performance inicial de uma habilidade nova. Um outro fator a ser considerado são os altos valores encontrados na medida de dispersão da amostra, demonstrando uma grande heterogeneidade do grupo G70, explicando talvez porque a análise estatística não mostrou claramente maior variabilidade intra-individual entre sujeitos acima de 70 anos de idade.
Todavia, a variabilidade inter-individual, evidencia a importância de se considerar as diferenças individuais, particularmente quando se trata de pessoas idosas. Sabe-se que a idade exerce forte influência sobre o desenvolvimento, mas com o passar dos anos as pessoas enfrentam situações extremamente diversas, fazendo com que cada um tome caminhos diferentes, principalmente durante o envelhecimento. Assim, como já foi demonstrado em estudos de desenvolvimento motor infantil, a idade cronológica diz muito pouco sobre o estado de desenvolvimento motor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARRON, A. V. & LEAVITT, J. L. (1972). Effects of practice upon individual differences and intra-variability in a motor skill. In: R. N. Singer (Ed.), Readings in motor learning. Philadelphia: Lea & Febiger, p. 144-149.
FREUDENHEIM, A. M. (no prelo). Formação de esquema motor em adultos numa tarefa que envolve timing coincidente. Revista Paulista de Educação Física.
FREUDENHEIM, A. M. & TANI, G. (1993). Formação de esquema motor em crianças numa tarefa que envolve timing coincidente. Revista Paulista de Educação Física, 7(1):30-44.
HALVERSON, L. E. (1971). The young child ...The significance of motor development. In: G. Engstrom (Ed.), The significance of the young child's motor development. Washington: National Association for the Education of Young Children, p. 17-33.
MANOEL, E. J. (1989). Desenvolvimento do comportamento motor humano. Dissertação de Mestrado, Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo. São Paulo, 300p.
SANTOS, S. (1993). Tempo de reação, tempo de movimento e aquisição de timing antecipatório em idosos. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 137p.
SINGER, R. N. (1980). Motor learning and human performance (3rd. ed.). New York: MacMillan, 549p.

Ponto de Vista

Variabilidade: acaso ou necessidade no comportamento motor?

Andrea Michele Freudenheim

A variabilidade sempre foi vista como um fator negativo na performance, devendo portanto ser eliminada. Um dos indicadores de performance utilizados para inferir a aprendizagem é o aumento da consistência motora. Entretanto, sabe-se que a presença de variabilidade em parâmetros do movimento é essencial para a performance habilidosa. Uma pessoa habilidosa é capaz de variar sua estratégia conforme as necessidades do ambiente, enquanto que, uma pessoa menos habilidosa, apresenta comportamentos mais rígidos. Mesmo assim, houve pouco interesse na variabilidade da dinâmica que acompanha o resultado da resposta em vários paradigmas experimentais (Newell & Corcos, 1993) e, em particular, no seu papel na aquisição e reorganização de habilidades motoras (Manoel, 1993; Tani, 1982, 1989).
Utilizando a abordagem sistêmica (Von Bertalanffy, 1977) como instrumento para enxergar os mecanismos responsáveis pelo surgimento de comportamentos novos, um problema que surge é de como ocorre a aquisição de regras fixas e estratégias flexíveis no comportamento motor. Visto que as estratégias flexíveis desempenham um papel crucial na quebra de estabilidade e reorganização do sistema, é necessário abordar o papel da variabilidade do comportamento no processo de aquisição de habilidades. No entanto, apresentaremos a seguir diferentes classificações de variabilidade demostrando o quão complexo é o tema.
A variabilidade se apresenta de várias maneiras, possuindo diferentes origens e funções, podendo assim ser classificada conforme diversos critérios. Manoel e Connolly (no prelo), com base na origem da variabilidade, propõem uma distinção entre variabilidade de erro e variabilidade funcional. Segundo estes autores:

"...a variabilidade de erro se refere a processos ou aos níveis de atividade sobre ou baixo o qual o indivíduo não tem controle. A variabilidade de erro ocorre devido aos estados entrópicos do desenvolvimento neuromuscular e devido as limitações de operação do sistema."

"...a variabilidade funcional, é a variabilidade sobre a qual o indivíduo tem controle, ou pode adquiri-lo, e que é essencial para o desenvolvimento normal." (p.7)

Por sua vez, Tani (1989) diferencia a variabilidade conforme sua extensão. A variabilidade macroscópica se refere a mudança do padrão de movimento, de sua estrutura, enquanto que a variabilidade microscópica se refere a pequenos ajustes no próprio padrão de movimento. Schmidt et al. (1979), diferencia os vários tipos de variabilidade segundo sua origem: a) a variabilidade resultante da seleção de um plano de ação, b) a variabilidade originária da seleção dos parâmetros de um dado programa motor e, c) a variabilidade resultante do ruído do sistema nervoso. Já Newell e Corcos (1993) chamam a atenção para a diferença entre a variabilidade na resposta e a variabilidade que se origina da dinâmica do sistema efetor e dos graus de liberdade biomecânicos no controle do movimento.
Então, para podermos explicar com clareza o problema visualizado vamos considerar alguns tipos de variabilidade: 1) a variabilidade inerente ao próprio sistema, que tem como origem as características operacionais do sistema, por exemplo, o grau de liberdade que este possui ou o nível de ruído do sistema; 2) a variabilidade de erro, que tem como origem a escolha de um plano de ação inadequado para as necessidades, ou a não compreensão da tarefa; 3) a variabilidade do estado estacionário, que compreende um conjunto de respostas possíveis dentro de um mesmo padrão de comportamento, que se refere a pequenos ajustes do comportamento e à flexibilidade de estratégias para responder às necessidades do sistema e, 4) a variabilidade da fase de transição, que ocorre à medida que um estado estacionário se rompe frente a um estímulo incompatível com suas possibilidades de resposta e que portanto é característica da inconsistência do comportamento motor (erros grosseiros) frente a um processo de desorganização e conseguinte tentativa de reorganização do sistema.
Segundo a visão sistêmica, a variabilidade do estado estacionário (variabilidade do comportamento já adquirido), ao contrário da variabilidade de erro, é um tipo de variabilidade importante para a inversão do sinal de entropia do sistema. Em outras palavras, ela é importante tanto para a manutenção do padrão de comportamento já adquirido, como para a mudança em direção a um estado estacionário mais complexo, em termos da tensão entre estratégias flexíveis e regras fixas.
Diante disto, são questões básicas para serem estudadas: qual o papel da variabilidade do comportamento motor no processo de aquisição de uma habilidade? Em outras palavras, como a variável variabilidade do comportamento influencia na emergência de um novo comportamento no domínio motor?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MANOEL, E.J. (1993). Adaptive control and variability in the development of skilled actions. Dissertação (PhD) - Universidade de Sheffield, Sheffield, Inglaterra.
MANOEL, E.J. & CONNOLLY, K.J. (no prelo). Variability and the development of skilled actions. International Journal of Psychophysiology.
NEWELL, K.M. & CORCOS, D.M. (1993) Issues in variability and motor control. In NEWELL, K.M. & CORCOS, D.M. Variability and motor control. Champaign: Human Kinetics, . Cap.1, p.1-12.
SCHMIDT, R.A., ZELAZNIK, H., HAWKINS, B., FRANKS, J.S. & QUINN, J.T. (1979) Motor output variability: a theory for the accurancy of rapid motor acts. Psychological Review, v.86, p.415-51.
TANI, G. (1982) Adaptive process in the perceptual-motor skills learning. Dissertação (PhD) - Universidade de Hiroshima, Hiroshima, Japão.
TANI, G. (1989) Variabilidade de resposta e processo adaptativo em aprendizagem motora. 78p. Dissertação (Livre-docência) -
Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo, São Paulo.
VON BERTALANFFY, L. (1977). Teoria geral de sistemas. Petrópolis, Vozes.

Notícias

1. Andrea Michele Freudenheim apresentou o tema livre "Um teste à Teoria de Esquema: Efeito da variabilidade e da quantidade de prática na produção de movimentos novos em adultos" em sessão de comunicação oral da 46a Reunião da SBPC, Vitória, de 17 a 22 de julho de 1994.

2. Luis Augusto Teixeira e Tânia Cristina Santos Matos apresentaram o tema livre "Extração de informação visual em tarefas motoras sincronizatórias" em sessão de comunicação oral da 46a Reunião da SBPC, Vitória, de 17 a 22 de julho de 1994.

3. O LACOM conta atualmente com três pós-graduandos e duas graduandas desenvolvendo pesquisas na área de comportamento motor:

- Valquíria dos Santos (mestrado) cuja preocupação é comparar na atividade motora, mais particularmente no jogo, os esquemas de resolução (estratégias) de crianças de faixas etárias distintas.

- Tânia Cristina Santos Matos (mestrado) cuja preocupação é investigar a aquisição de habilidades motoras.

- Jorge Alberto Oliveira (mestrado) cujo projeto de qualificação é centrado na análise de padrões fundamentais de movimento em situações variadas. Esse trabalho tem sido realizado com o apoio do Laboratório de Biomecânica.

- Isabel C. N. Sacco (6o semestre) cuja preocupação é o processamento de informações na memória e controle de movimentos em crianças.

- Valquíria P. Silva ( 6o semestre) cuja preocupação é investigar o papel da ansiedade na aprendizagem de habilidades motoras.

Equipe de edição

Editor: Edison de Jesus Manoel

Colaboradores:
Deise Leonovich Costa
Andrea Michele Freudenheim
Isabel C. N. Sacco

Endereço:
Laboratório de Comportamento Motor
Escola de Educação Física
Universidade de São Paulo
Av. Prof. Mello de Moraes, 65
CEP 05508-900
São Paulo - SP

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Página disponibilizada em 28 de Maio de 1999
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