BOLETIM
LABORATÓRIO
DE COMPORTAMENTO MOTOR
ABRIL
No 1 1994
ESCOLA
DE EDUCAÇÃO FÍSICA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
EDITOR: Edison de Jesus Manoel
EDITORIAL
Passos para o futuro
O Laboratório do Comportamento
Motor (LACOM) da Escola de Educação Física da Universidade
de São Paulo encontra-se em seu sexto ano de existência. Neste
momento é importante avaliar não só o que foi feito mas
também discutir os passos para o futuro. Com o propósito de estabelecer
formalmente essa discussão e de tornar o laboratório mais transparente,
decidiu-se criar um veículo informativo de suas atividades e principalmente
de suas idéias. Foi assim que surgiu o BOLETIM DO LACOM, cujo primeiro
número temos o prazer de aqui apresentar.
O Boletim será editado a cada quatro meses, mas em contraste a muitos
outros informativos dessa natureza, o Boletim não será um mero
balanço do número de pesquisas realizadas ou de artigos publicados
pelo laboratório. A nossa intenção é veicular idéias
que possam contribuir para uma discussão mais ampla do comportamento
motor humano. Em outras palavras, o Boletim buscará sempre falar sobre
o "que poderia ser" ao invés de falar sobre o "que já foi". Para
esse fim o boletim trará sempre uma secção de Crônica
Científica discutindo pesquisas em andamento no laboratório e
sua relevância para o conhecimento estabelecido na área de de comportamento
motor, e uma secção de Ponto de Vista apresentando posicionamentos
teóricos na área, apontando na direção de questões
e problemas negligenciados pelas correntes principais de investigação.
Entendemos que essa abordagem é essencial para um informativo, principalmente
considerando o momento que a Educação Física passa nos
mundos acadêmico e universitário. Hoje há muitas dúvidas
sobre o que é educação física, sobre seu objeto
de estudo, sobre os serviços que ela pode prestar a sociedade. Esse é
um problema complexo que exige abordagens complexas na sua solução.
Uma alternativa é investir com determinação na produção
de conhecimentos. Entretanto isso deve ser feito de uma forma ponderada onde
questões como "o que fazer", "por que fazer" e "como fazer" devem ser
constantemente discutidas e interligadas, devendo inclusive preceder e até
evitar o ato de fazer a pesquisa pela pesquisa por mais honesta que ela seja.
Não é raro isso ocorrer na ausência de um quadro teórico
mais integrado cobrindo os vários níveis da produção
de conhecimentos, da pesquisa básica até a pesquisa sobre a aplicação
de conhecimentos.
Neste sentido os laboratórios que hoje estão em funcionamento
nas escolas de Educação Física são unidades essenciais,
senão as mais essenciais, no momento atual de evolução
da área enquanto ciência e profissão. Embora os laboratórios
tenham a tendência a se tornarem autônomos, não se pode negligenciar
as interfaces com outras unidades dentro do sistema de produção
de conhecimentos. Muito menos negligenciar sua função do laboratório
como parte de um todo maior constituído pela educação física.
Dentro desse quadro o LACOM tem um característica muito importante. Em
sua gênese houve a preocupação de estruturar unidades de
pesquisa nas várias etapas de produção de conhecimentos
do básico ao aplicado, do acadêmico ao profissional, dos conceitos
de mecanismo às propostas de programas de atividade motora. Buscou-se
assim acabar com a dicotomia entre as atividades de pesquisa e profissional,
e até mesmo com o falso conceito de que um tipo de pesquisa (a básica)
é mais importante do que um outro (a aplicada), ou de que a pesquisa
aplicada é a prima pobre da pesquisa de ponta que só seria realizada
ao nível básico.
Desta forma, o BOLETIM do LACOM pretende ser um veículo de apresentação
e discussão de idéias sobre problemas da ciência do comportamento
motor. Em conjunto com a produção científica do laboratório
o boletim servirá para dar um quadro mais integrado do processo de produção
de conhecimentos sobre o comportamento motor e suas implicações
e aplicações. Procurando contribuir para os passos futuros da
Educação Física.
Edison de J. Manoel
CRÔNICA CIENTÍFICA
INFORMAÇÃO VISUAL E CONTROLE MOTOR
Luis Augusto Teixeira
Uma imagem vale mais do que mil palavras.
Este é um ditado bem conhecido que procura expressar a dimensão
da superioridade de potencial informativo da visão em relação
à audição, a qual podemos estender para as outras fontes
de informação sensorial. Afinal a visão é o sentido
que tem a capacidade de dar-nos conhecimento sobre certos aspectos do mundo
exterior com plena exclusividade, tais como cor e brilho das coisas, e sobre
outros tantos aspectos com o maior nível de precisão, como forma,
distância e velocidade de deslocamento.
Como se já não bastasse ser exteroceptor da maior relevância,
a visão tem-se mostrado como uma importante fonte de informação
sobre o próprio corpo. Apesar de possuirmos receptores sensoriais específicos
para estiramento das fibras musculares (fusos musculares), tensão muscular
(órgãos tendinosos de Golgi), deslocamento articular (terminais
de Ruffini), aceleração e verticalidade da cabeça (aparelho
vestibular), em conjunto chamados proprioceptores, a visão tem mostrado
ser a fonte sensorial predominante em situação de conflito sensorial
no desempenho de tarefas de controle postural (cf. LEE & ARONSON, 1974;
LISHMAN & LEE, 1973), revelando seu papel destacado na organização
do sistema sensorial.
Alguns resultados de pesquisa, entretanto, têm sugerido que a dominância
da visão sobre as outras fontes sensoriais diminui com a aprendizagem
(p.e., FLEISHMAN & RICH, 1963), conduzindo à idéia de que
a diminuição da quantidade de erros e a calibração
do sistema tátil-proprioceptivo liberam a visão para a extração
de informação sobre aspectos relevantes para a execução
da tarefa presentes no ambiente circundante. O datilógrafo, por exemplo,
que no início do aprendizado acompanhava visualmente o toque em cada
tecla, torna-se capaz de datilografar um texto sem olhar para o teclado. O driblar
uma bola, exigindo controle visual no estágio cognitivo de aprendizagem,
passa progressivamente a ser controlado via informação tátil-proprioceptiva.
Até mesmo tarefas de contactação/interceptação
de objetos móveis, que aparentemente requerem monitorização
visual ininterrupta, como a rebatida no tênis-de-mesa, são efetuadas
sem que haja perseguição visual contínua quando se trata
de executantes habilidosos (c.f. RIPOLL & FLEURANCE, 1988). Enfim, a redundância
dos sinais sensoriais permite que o foco visual seja orientado para as demais
fontes de informação que somente a visão pode explorar,
aumentando a probabilidade do executante ser bem sucedido na realização
da tarefa.
Apesar de possuirmos um foco único de visão, o executante de habilidades
motoras tem grande capacidade de utilizar sinais originários do campo
visual periférico. Essa capacidade tem-se manifestado no controle das
mais diversas tarefas, tais como manutenção do equilíbrio
(BERTENTHAL & BAI, 1989), estimativa do tempo para colisão (CAVALLO
& LAURENT, 1988), e interceptação de uma bola (SMYTH &
MARRIOTT, 1982), indicando ser uma fonte de informação das mais
importantes para a execução de atos motores habilidosos.
No campo de investigação do controle motor visual, entretanto,
um fenômeno que tem atraído bastante interesse é a capacidade
de realizar ajustes finos no movimento, de forma involuntária, com base
em informação visual. O ser humano tem mostrado ser capaz de alterar
as características cinemáticas do movimento de agarrar uma bola
em função da alteração do tamanho dessa bola durante
sua trajetória (cf. SAVELSBERGH, WHITING & BOOTSMA, 1991), ou de
corrigir a direção de um movimento balístico de contactação
de um alvo, quando o alvo muda de local durante a execução (cf.
PÉLISSON, PRABLANC, GOODALE & JEANNEROD, 1986), mesmo sem percepção
consciente das modificações.
Em conjunto, esses e diversos outros achados mostram a complexidade da integração
visomotora, e algumas das inúmeras interações com o sistema
efetor, com a disponibilidade de informação, com o estágio
de aprendizagem, e com as restrições impostas pela própria
tarefa. A compreensão de tais mecanismos de controle apresenta-se como
um passo importante para uma melhor compreensão das leis que regulam
o comportamento motor, devendo ocupar um espaço considerável da
investigação científica nos próximos anos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BERTENTHAL, B.I. & BAI, D.L.
(1989). Infant's sensitivity to optical flow for controlling posture. Developmental
Psychology, 25(6): 936-945.
CAVALLO, V. & LAURENT, M. (1988). Visual information and skill level in
time-to-collision estimation. Perception, 17: 623-632.
FLEISHMAN, E.A. & RICH, S. (1963). Role of kinesthetic and spatial-visual
abilities in perceptual-motor learning. Journal of Experimental Psychology,
66(1): 6-11.
LEE, D.N. & ARONSON, E. (1974). Visual proprioceptive control of standing
in human infants. Perception and Psychophysics, 15(3): 529-532.
LISHMAN, D.N. & LEE, D.N. (1973). The autonomy of visual kinesthesis. Perception,
2: 287-294.
PÉLISSON, D.; PRABLANC, C.; GOODALE, M.A. & JEANNEROD, M. (1986).
Visual control of reaching movements without vision
f the limb. II. Evidence of fast unconscious processes correcting the trajectory
of the hand to the final position of duble-step stimulus.
Experimental Brain Research, 62: 303-311.
RIPOLL, H. & FLEURANCE, P. (1988). What does keeping one's eye on the ball
mean? Ergonomics, 31(11): 1647-1654.
SAVELSBERGH, G.P.J., WHITING, H.T.A. & BOOTSMA, R.J. (1991). Grasping tau.
Journal of Experimental Psychology: Human
erception and Performance, 17(2): 315-322.
SMYTH, M.M. & MARRIOTT, A.M. (1982). Vision and proprioception in simple
catching. Journal of Motor Behavior, 14(2): 143-152.
PONTO DE VISTA
O jogo e a educação física: tema fértil de pesquisa ?
Osvaldo L. Ferraz
Considerando o pressuposto de que
a Educação Física Escolar é um componente curricular
com a função básica de transmitir ao aluno conhecimentos
teóricos e práticos a respeito da motricidade humana para o desenvolvimento
das suas potencialidades, poderemos verificar claramente que, neste contexto,
o seu compromisso é o de proporcionar um fazer que não esteja
desvinculado do compreender. Em outras palavras, seus objetivos não abrangem
meramente o domínio motor, mas também o afetivo-social e o cognitivo.
Isto posto, dentre uma série de possíveis estratégias de
ensino que podem ser utilizadas nas aulas de educação física,
está presente o jogo. Mas seria esta a melhor estratégia para
a obtenção dos objetivos educacionais? Provavelmente não.
Pelo menos não o seria em todos os momentos, para todos os grupos e em
todas as situações. Entretanto, o jogo de regras, por exemplo,
pode ser uma boa estratégia. Pelos componentes motores que pode envolver,
não há dúvidas de que se trata de um meio que merece atenção
dos professores. Quando selecionado de acordo com os objetivos adotados, pode
proporcionar às crianças as mais diversas situações,
onde tenham a oportunidade de variar e enriquecer seu repertório de experiências
motoras (seus esquemas motores).
Além disso, do ponto de vista cognitivo e social o jogo de regras, por
implicar em interação social e confrontação de pontos
de vista, é um espaço onde a criança tem a possibilidade
de, em jogando com o outro, praticar um certo grau de descentração
(pensar ou agir segundo outras perspectivas além das suas), de socialização
(considerar códigos ou normas comuns) e de cooperação (coordenar
diferentes aspectos).
Contudo, ainda há muito a se investigar a respeito do que é realmente
este fenômeno denominado "jogo", sua natureza e significado. Os diferentes
tipos de jogos e diferentes formas de implementação precisam estar
relacionados com conhecimentos científicos sobre os processos de desenvolvimento
humano. Qual é o papel do jogo simbólico na construção
do conhecimento pela criança? Que mecanismos estão regulando a
mudança do interesse da criança do jogo simbólico para
o jogo de regras? Como se dá esta passagem? Como esses tipos de jogos
podem contribuir para os objetivos da educação em geral e especificamente
para a educação física escolar?
Se uma das características da espécie humana é a complexidade
de suas estruturas intelectuais, motoras e afetivo-sociais, não há
dúvidas que o jogo, assim como a linguagem, constitui um dos elementos
imprescindíveis para o processo de escolarização e como
conseqüência deve ser tema de investigação acadêmica.
NOTÍCIAS
1) Informamos a estrutura atual do LACOM:
Coordenador: Prof.Dr. Edison de Jesus Manoel
Membros: Prof.Dr. Go Tani, Profa. Andrea Michele Freudenheim, Prof. Osvaldo Luiz Ferraz, Prof. Luis Augusto Teixeira, Prof. Luzimar Raimundo Teixeira e Profa. Suely dos Santos.
Técnica de laboratório: Deise Leonovich Costa.
2) Edison de Jesus Manoel retornou ao LACOM após um período de quase quatro anos e meio no Departamento de Psicologia da Universidade de Sheffield, Grã-Bretanha. Neste período, ele cumpriu programa de doutoramento sobre a orientação do Professor Kevin Connoly e investigou o papel da variabilidade na aquisição de controle adaptativo de habilidades motoras em crianças pré-escolares e escolares de Sheffield.
2> Go Tani encontra-se atualmente em Sheffield desenvolvendo programa de pós-doutoramento em colaboração com o Professor Connoly. No período de um ano Go Tani já elaborou e executou vários experimentos com crianças escolares de Sheffield investigando o processo de desenvolvimento hierárquico de controle motor, da estabilização funcional ao controle auto-organizacional. A pesquisa de Go Tani é extremamente atraente por várias razões: ela aborda um problema complexo com paradigma complexo. Ao invés dele utilizar medidas de respostas simples, ele se utiliza de várias medidas de performance e ainda, da complementaridade entre elas. Em termos mais aplicados, a pesquisa aproxima-se da situação real de aprendizagem de habilidades motoras. Não fixa o objetivo do aprendiz, pelo contrário, oferece a possibilidade do aprendiz progredir na hierarquia, do controle do feedback negativo para o controle adaptativo e deste para o controle auto-organizacional.
3) Luis Augusto Teixeira submeteu-se ao exame de Qualificação a nível de Doutorado defendendo a pesquisa entitulada "Processamento de informação visual no controle de tarefas motoras sincronizatórias", na EEFUSP, no dia 08/09/ do corrente ano.
4) Suely dos Santos participou da Conferência Internacional "Atividade Física e Saúde na Terceira Idade", apresentando a pesquisa "Tempo de movimento e aprendizagem de uma tarefa de timing antecipatório em idosos", em Portugal, Lisboa, de 26 a 30 de outubro de 1993.
EQUIPE DE EDIÇÃO
Editor: Edison de J. Manoel
Colaboradores: Deise Leonovich Costa
Jane Amaro Maciel
Andrea M. Freudenheim
Endereço:
Laboratório de Comportamento Motor
Escola de Educação Física
Universidade de São Paulo
Av. Prof. Mello Morais, 65
CEP: 05508-900
São Paulo, S.P.

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28 de Maio de 1999
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