BOLETIM
LABORATÓRIO DE COMPORTAMENTO MOTOR
DEZEMBRO No 3 1994
ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Editor: Edison de J. Manoel
Editorial
Neste número
do BOLETIM a crônica científica apresenta uma pesquisa que buscou
estudar a influência da interferência contextual levando em conta
aspectos desconsiderados nas pesquisas realizadas neste âmbito nas últimas
duas décadas. O interessante é que a variável manipulada,
ou seja, aspectos invariantes do programa motor, traz consigo a possibilidade
de se estudar uma variável identificável nos mais diversos níveis
de análise. Em outras palavras, se presume que aspectos invariantes co-existem
com aspectos variantes a nível neurofisiológico, a nível
sociológico ou mesmo a nível bioquímico do comportamento
motor (VON BERTALANFFY, 1977). Assim, a crônica trata de um aspecto que,
por ser comum a vários níveis de análise poderia apontar
uma forma de produzir conhecimento passível de ser integrado a conhecimentos
gerados a partir de níveis de análise diferentes - questão
esta apontada como merecedora de maior atenção no PONTO DE VISTA.
No entanto, apesar de permitir este tipo de interpretação, os
autores da crônica não explicitam intencionalidade neste sentido.
Por seu lado, no PONTO DE VISTA publicado neste boletim, é apresentada
a necessidade de se encontrar um "elo de ligação entre os
níveis de análise", no entanto, não são apresentadas
sugestões de como fazê-lo.
Talvez, caiba aos leitores ousarem fazer a relação entre a pesquisa
apresentada na crônica científica e as idéias discutidas
no ponto de vista. Desta forma é possível perceber que podem haver
dificuldades para traduzir as discussões do campo das idéias para
o campo da pesquisa experimental e vice versa. Visto de outra maneira: para
que se possa construir elos de ligação é preciso primeiro
haver consistência nos conhecimentos produzidos nos diferentes níveis
de análise. Todavia, esta consistência não é facilmente
alcançável, como mostrado nos "resultados inesperados"
da pesquisa desenvolvida.
Portanto, por onde começar a traçar elos? Investindo nas discussões
conceituais dos mesmos ou na consistência nos níveis de análise?
Talvez, como neste BOLETIM, deva-se começar por ambos.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
VON BERTALANFFY, L. (1977). Teoria geral de sistemas. Petrópolis, Vozes.
Andrea M. Freudenheim
CRÔNICA CIENTÍFICA
Interferência contextual e formação do programa motor - I) Aspectos invariáveis.
Herbert Ugrinowitsch
Edison de J. Manoel
A importância
da interferência do contexto na aprendizagem foi indicada por Battig (
1979). Na aprendizagem motora, a influência deste fator só passou
a ser reconhecida a partir dos estudos realizados por Shea e Morgan (1979).
Na década de 80, o interesse cresceu com investigações
utilizando tarefas simples em laboratório e complexas em situações
de ensino de habilidades esportivas (Del Rey et al,1982; Gabriele et al,1987;
Goode e Magill,1986; Lee e Magill,1983; Magill,1983 entre outros). Alguns fatores
em comum foram encontrados: 1) a melhor performance na fase de aquisição
do grupo que praticava em blocos (baixa interferência contextual); 2)
a melhor performance de retenção do grupo randomizado (alta interferência
contextual) e 3) a melhor performance na transferência para o grupo randomizado.
Para tentar explicar tais resultados, foram propostas duas teorias: 1) Hipótese
dos níveis de processamento e 2) Hipótese do esquecimento
(Blandin et al,1994; Magill,1989 e Schmidt,1988). A primeira está baseada
na hipótese de que diferentes movimentos a serem aprendidos são
armazenados na memória de curto prazo e que, em cada tentativa, os sujeitos
devem identificar quais das representações de movimentos armazenados
precisam ser executadas em cada tentativa. A segunda está baseada em
que a interferência contextual leva os sujeitos a esquecerem uma solução
para uma dada tarefa motora; então a solução deve ser gerada
quando a tarefa é apresentada novamente, melhorando a retenção.
Um dos fatores nem sempre considerados nas investigações diz respeito
aos diferentes aspectos de organização do programa motor. O programa
motor pode ser visto como sendo organizado em: 1) Aspectos invariáveis,
que dão identidade a um programa motor, tais como a sequência de
eventos, timing relativo e a força relativa. 2) Aspectos variáveis,
referindo-se aos parâmetros do programa motor que são específicos
a cada resposta e de acordo com o ambiente, tais como o tempo absoluto, seleção
do grupo muscular e amplitude do movimento etc (SCHMIDT, 1988).
Com o propósito de investigar estes fatores foi construído um
aparelho (figura 1) no qual pudéssemos manipular parâmetros da
tarefa, referente a cada aspecto do programa motor de uma forma diferenciada.
( Figura 1)
A tarefa a ser executada
neste aparelho envolve pressionar a chave 1, ao sinal soltá-la, coletar
cada bola e colocá-la no recipiente indicado e retornar à chave
2, quando o tempo total será registrado. A tarefa apresenta uma sequência
definida de eventos que pode ser manipulada. Embora a mensuração
temporal necessite ser ampliada, seria viável registrar os tempos de
cada componente da sequência em relação ao tempo total de
execução, o que permitiria o cálculo do timing relativo.
Em relação aos aspectos variáveis do programa motor, a
tarefa pode ser realizada com ambos os membros superiores (seleção
de grupo muscular). Além disto, parâmetros do movimento tais como
amplitude do movimento de preensão e a precisão na "homing
phase" podem também ser manipulados através da alteração
do tamanho da bola e do diâmetro do recipiente.
Um estudo piloto foi realizado para verificar a viabilidade do aparelho e posteriormente
o estudo foi replicado com um grupo de vinte (20) indivíduos. O aspecto
do programa motor manipulado foi a sequência de eventos (ordem das bolas
a serem coletadas).
No experimento houve uma diferença em relação aos estudos
realizados até então. O grupo randomizado teve uma melhor performance
em alguns blocos de prática durante a fase de aquisição.
Porém, os resultados obtidos nas fases de retenção e transferência
confirmaram os experimentos anteriores, ou seja, o grupo randomizado obteve
melhor desempenho. Este resultado foi inesperado, pois prevíamos que
a alta interferência contextual a nível de sequência de eventos
(fator invariável) seria prejudicial à formação
do programa motor, levando a uma pior performance nas fases de retenção
e transferência. A prática randomizada com base na sequência
de eventos poderia dificultar o nível de estabilidade do programa motor.
Em consequência, ocorreriam dificuldades para a sua recuperação
(retenção) e para sua flexibilidade diante de uma nova situação
(transferência). Os resultados encontrados levaram-nos a repensar tal
hipótese, entretanto para que possamos ter um quadro mais claro sobre
as possibilidades da metodologia estabelecida, faz-se necessário que
outros estudos sejam realizados, onde aspectos variáveis do programa
motor sejam manipulados, tais como seleção de grupo muscular e
amplitude de preensão nos diferentes componentes da ação
motora. Além disto, estudaremos algumas modificações na
tarefa experimental.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Battig, N.F. (1979).
The flexibility of human memory. IN: L.S. CERMAK & F.J.M. CRAIK (Eds.).
Levels of processing in human memory. Hillsdale.
Blandin, Y.; Proteau, L. & Alain, C. (1994).On the cognitive processes
underlying contextual interference and observational learning. Journal
of Motor Behavior, 26, 18-26.
Del Rey, P.; Wughalter, E.H. & Whitehurst, M. (1982).The effects of contextual
interference in open sport skill. Research Quarterly for Exercise and Sport,
53, 108-15.
Gabriele, T.E.; Hall, C.R. & Buckolz, E.E. (1987).Practice schedule effects
on the acquisition and retention of a motor skill. Human Movement Science,
6, 01-16.
Goode, S. & Magill, R.A. (1986).Contextual interference in learning three
badminton serves. Research Quarterly for Exercise and Sport, 57,
308-14.
Magill, R.A. (1983).Memory and control of action. Amsterdam: North
Holland.(1989). Motor learning: Concepts and applications. Dubuque,Iowa.
Schmidt, R.A. (1988). Motor control and learning. Champaign, Illions.
Shea, J.B. & Morgan, R.L. (1979). Contextual interference effectson the
acquisition, retention and transfer of a motor skill. Journal of Experimental
Pshycology: Human Learning and Memory, 5, 179-87.
ponto de vista
Comportamento motor e os níveis de compreensão
Edison de J. Manoel
Na Ciência
do Movimento Humano, a nossa meta é, em última instância,
compreender a atividade motora humana. Rarick (1967) apontou vários problemas
que necessitam ser respondidos para atingir tal compreensão. Eles vão
desde a biologia do exercício físico até a aspectos sócio-culturais
da prática da atividade motora. Dessa concepção surgiu
uma estrutura de ciência composta por várias sub-disciplinas.
Uma pergunta que surge é a seguinte: como podemos entender a atividade
motora a partir da investigação de suas partes (a partir das subdisciplinas)?
É lógico que cada subdisciplina tem seus problemas específicos
a resolver, entretanto, deveria haver algum elo de ligação entre
elas, além do objeto de estudo. A integração do conhecimento
das diferentes sub-disciplinas levaria em última análise à
compreensão da atividade motora.
Seria importante pensar nessa questão para não incorrermos nos
mesmos erros de disciplinas mais tradicionais que seguiram um curso de crescente
compartimentalização. Como resultado final elas acabaram por perder
de vista a globalidade do fenômeno que pretendiam esclarecer.
Na Ciência do Movimento Humano, a influência das disciplinas-mãe
tem sido às vezes tão marcante que a sub-disciplina passa a ser
uma filial para conduzir pesquisa de acordo com a agenda ditada pela disciplina-mãe.
Uma evolução do tradicional modelo trans-disciplinar ou cross-disciplinar
seria deixar a sub-disciplina de lado e centrar-se nos níveis de análise
para compreender a atividade motora. Entretanto, há a necessidade de
precaver-se quanto ao foco de estudo. Por exemplo, estudar a dimensão
sócio-cultural do movimento não poderia redundar numa pesquisa
de Sociologia. Entendemos que essa distinção nem sempre é
fácil de ser feita mas é preciso perguntar, por exemplo: (a) se
nós estamos usando a atividade motora como um contexto para responder
questões da Sociologia ou (b) se queremos entender fatores sócio-culturais
da atividade motora. No segundo caso, o foco é a atividade motora e o
sócio-cultural constitui-se num nível de análise. O tipo
de pesquisa realizada é básica no sentido de promover a compreensão
da atividade motora sem a preocupação de solução
de problemas imediatos. Por outro lado, em relação à Sociologia,
o conhecimento pode ser visto como sendo aplicado à atividade motora.
Vale ressaltar que atualmente a busca de níveis de análise cada
vez mais microscópicos tem sido vista como essencial por vários
pesquisadores. Uma vez que haja disponibilidade de técnicas de mensuração
mais apuradas, a busca desses níveis de análise é vista
como a chave para a compreensão das observações feitas
a nível macroscópico. Isto tem acontecido na Fisiologia do Exercício
que hoje torna-se cada vez mais Bioquímica da Atividade Motora, não
estando longe o momento em que ela tenderá a tornar-se Biologia Molecular
da Atividade Motora.
A idéia de nível de análise reconhece que o fenômeno
em estudo é complexo. Neste sentido é importante fazermos ainda
outra distinção para evitar confusões. É preciso
diferenciar entre nível de análise e nível de organização.
MILLER (1978) propõe um modelo no qual a natureza viva apresenta-se organizada
em vários níveis: célula, órgão, organismo,
grupo, organização, sociedade e sistema supra-nacional. Esses
níveis de organização são resultantes de um processo
de desenvolvimento hierárquico com escalas temporais variadas. A complexidade
está presente em cada nível de organização. Nível
de análise constitui-se então numa estratégia que o pesquisador
adota num dado instante de sua carreira (cf. SNYDER JR & ABERNETHY, 1992)
para compreender a complexidade. Nos níveis de organização
do modelo de MILLER, é possível promover investigações
em diferentes níveis de análise. O importante é o elo de
ligação entre esses níveis. Em relação à
organização há aspectos que diferem de um nível
para outro, mas há principalmente aspectos que são comuns a todos
os níveis. MILLER demonstra que cada nível de organização
possui o mesmo conjunto de sub-sistemas que ele divide em: Processamento de
Informação, Produção de Energia e de Transdução.
Considerando a organização do Comportamento Motor em diferentes
níveis de organização, um problema crucial é encontrar
um denominador comum para os conhecimentos do hardware e do software (cf. CONNOLLY,
1970; CONNOLLY & DOYLE, 1987). Há a necessidade de esforços
integrados nos níveis de análise comportamental e neurofisiológico.
ARBIB (1989) e PAILLARD (1982, 1990) são alguns dos pesquisadores que
manifestam essa preocupação na área de Comportamento Motor.
Meta-Ciências, como a Teoria Geral dos Sistemas, Cibernética e,
mais recentemente, a Teoria da Termodinâmica do Não-Equilíbrio,
entre outras, têm desenvolvido conceitos que permitem a unificação
da ciência. Elas permitem a compreensão de fenômenos tão
diversos como clima, formação de cidades e mente (cf. YATES, 1987).
A estrutura conceitual que elas oferecem é fundamental para quem deseja
atuar em um nível de análise sem fechar os olhos para os níveis
de organização (cf. HINDE, 1990).
Alguns cuidados devem ser tomados. Em particular, as possibilidades de formalizar
e modelar oferecidas por teorias recentes (Sinergética, por exemplo)
têm levado a um "frenesi" de aplicação de conceitos
sem o devido cuidado. VARELA (1989) aponta para o perigo de utilizarmos conceitos
formais desenvolvidos para um tipo de sistema e aplicá-lo a outro tipo
sem perguntar se a natureza diferente dos sistemas não invalida a utilização
do conceito.
O desenvolvimento motor foi durante muito tempo abordado num nível de
análise comportamental. Recentemente, encontramos modelos teóricos
orientados a um nível de análise neurofisiológico, onde
é investigado o papel de processos de crescimento e seleção
natural na formação do repertório motor (EDELMAN, 1987;
SPORNS & EDELMAN, 1993). Por outro lado, o papel do contexto social na emergência
e organização do comportamento motor tem sido argumentado por
vários pesquisadores (cf. VALSINER, 1986). O desenvolvimento motor é
um fenômeno que exige um esforço de investigação
em múltiplos níveis.
Nível de análise não pode ser entendido com olhar o mundo
somente de um buraco de fechadura. Pelo contrário, níveis de análise
referem-se a escolhas estratégicas que o pesquisador adota num dado momento
de acordo com questões teóricas, metodologias e técnicas
disponíveis. Na medida em que esse aspecto é apreciado, a compreensão
do comportamento motor será sempre ampliada.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARBIB, M.A. (1989).
The metaphorical brain. New York: John Wiley & Sons.
CONNOLLY, K.J. (1970). Skill development : Problems and plans. In: K.J. CONNOLLY
(Ed.). Mechanisms of motor skill development. London: Academic Press.
CONNOLLY, K.J.& DOYLE, A.J.R. (1987). The neglected interface. Cahiers
of Psychologie Cognitive, 7, 147- 155.
EDELMAN, G. (1987). Neural Darwinism. New York: Basic Books.
HINDE, R.A. (1990). The interdependence of the behavioral sciences. Phil.
Trans. Royal Society of London, B329, 217-227.
MILLER, J. (1978). Living systems, New York: McGraw-Hill.
PAILLARD, J. (1982). Apraxia and the neuropsychology of motor control. Phil.
Trans. Royal Society of London, B 298, p.111-134.
_________ (1990). Neurophysiological structures of eye-hand coordination.
IN: C. BARD, C.; M. FLEURY & L. HAY (Eds), Development of eye-hand
coordination across the life span. Columbia, South California: University
of South California Press.
RARICK, L. (1967). The domain of physical education as a discipline. Quest,
9, 42-48.
SPORNS, O. & EDELMAN, G. (1993). Solving Bernstein’s problems: A proposal
for the development of coordinated movement by selection. Child Development,
64, 4, 960-981.
SNYDER JR, C.W. & ABERNETHY, B. (Eds.) (1992). The creative side of
experimentation. Champaign: Human Kinetics.
VALSINER, J. (1987). Culture and development of children's action.
Chichester: John Wiley & Sons.
VARELA, F. (1989). Reflections on the circulation of concepts between a biology
of cognition and systemic family therapy. Family Process, 28, 15-24.
YATES, F.E. (Ed.) (1987). Self-organizing systems: The emergence of order.
New York: Plenum Press.
Notícias
Vários membros do LACOM estiveram apresentando seus trabalhos durante o XX Simpósio Internacional de Ciências do Esporte, realizado nos dias 6 a 9 de outubro:FREUDENHEIM, A.M.; GAMA, R.I.;
MOISÉS, M.P.; NICOLETTI, L.P. & CHEDID, R.S. A tarefa nadar revisitada.
MANOEL, E.J. Seqüência de desenvolvimento motor: Modelos e questões.
OLIVEIRA, J.A. Evolução do arremessar: Uma crítica aos
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SANTOS, S. Variabilidade intra-individual: Um estudo da performance motora
de 20 a 79 anos de idade.
Durante a realização do I Congresso Interno de Iniciação Científica foram apresentados três trabalhos que contaram com orientação de membros do LACOM:
MOCHIZUKI, L. Contribuição
para os estudos sobre o desenvolvimento de padrões neuronais da médula
cerebral aplicados à aprendizagem motora.
SACCO, I.C.N. Mudanças no comportamento motor de crianças: Estrutural
ou funcional.
SILVA, V..P. A influência da ansiedade na aprendizagem motora.
No dia 21 de novembro de 1994, Jorge Alberto de Oliveira foi aprovado no exame final de qualificação - Mestrado da EEFUSP, quando apresentou projeto na área do Comportamento Motor intitulado: "Estágios de desenvolvimento motor de uma habilidade motora".
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