BOLETIM
LABORATÓRIO DE COMPORTAMENTO MOTOR
AGOSTO V. 2 No 2 1995
ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Editor: Edison de J. Manoel
ÍNDICE
Sobre especificidade e generalidade.
Luis Augusto Teixeira.....................................................................................................................
1
Interação objetivo-padrão
de movimento no desenvolvimento de movimentos fundamentais.
Jorge A. de Oliveira, Edison de J. Manoel & Alberto C. Amadio..............................................
2
Função,
"affordances" e desenvolvimento.
Edison de J. Manoel ......................................................................................................................
6
EDITORIAL
SOBRE ESPECIFICIDADE E GENERALIDADE
Observando-se o comportamento
motor humano, como por exemplo uma pessoa durante uma corrida, pode-se notar
dois aspectos marcantes de sua motricidade. O primeiro é que apesar das
variações de velocidade, inclinação do terreno e
mesmo da própria superfície sobre a qual se pratica a corrida,
é perfeitamente possível identificar aquele padrão de movimento
como sendo correspondente à corrida. Isso só é factível
pelo motivo de que existem características invariantes de controle motor
que fazem com que alguns aspectos do movimento permaneçam constantes,
dentro de uma diversidade de respostas a situações específicas,
como por exemplo a estrutura temporal no caso da corrida (cf. SHAPIRO, ZERNICKE,
GREGOR & DIESTEL, 1981). Tal capacidade é importante à medida
que possibilita a manutenção de uma estrutura de controle, a partir
da qual os ajustes específicos são feitos,
produzindo um ganho em termos de consistência macroscópica de resposta.
O segundo aspecto marcante da capacidade de movimento humana está relacionada
ao outro lado da moeda, isto é, se existem características que
não se alteram dentro de um padrão de movimento, é necessário
que algumas outras características sejam alteradas para que o executante
lide de forma habilidosa com a diversidade de tarefas motoras específicas
dentro do que se chama de uma ação motora. Colocando em outros
termos, a ação de arremessar um objeto pode ser executada de diversas
maneiras (p.e., por cima do ombro, por baixo, de frente, de lado, com a mão
direita ou esquerda, etc.), pode-se visar acertar alvos grandes ou pequenos,
móveis ou imóveis, com obstáculo ou sem à frente,
e assim por diante, de forma que a combinação dessas variáveis
produz um número relativamente elevado de tarefas motoras específicas
a partir da intenção de se impulsionar um implemento manualmente.
Assim, a especificidade de uma tarefa pode ser entendida como determinante das
restrições que o sistema sensório-motor necessita atender
a fim de que a resposta seja compatível com o objetivo desencadeador
do movimento, de forma que uma das principais tarefas do sistema é selecionar
os modos de controle mais efetivos para atender à essas restrições.
Neste BOLETIM, tanto na crônica científica quanto no ponto
de vista, as questões de invariância e adaptabilidade são
abordadas. No ponto de vista é discutido o conceito de "affordance",
central dentro da abordagem ecológica em comportamento motor, o qual
lida justamente com a questão da invariância-adaptação
de ações motoras em função das possibilidades-restrições
de movimento fornecidas pelo ambiente. Inserido na mesma preocupação
está a crônica científica, que apresenta alguns resultados
e preocupações relacionadas à investigação
das variações de resposta, a partir do padrão motor fundamental
de arremessar, quando se passa de um arremesso à distância para
um arremesso de precisão. Se por um lado ainda não temos respostas
muito precisas às diversas questões relacionadas a esse tema,
certamente trazemos neste BOLETIM contribuições para a clara colocação
do problema, o que se constitui num passo fundamental para a seleção
de perguntas relevantes à investigação científica.
Luis Augusto Teixeira
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
SHAPIRO, D.C., ZERNICKE, R.F., GREGOR, R.J. & DIESTEL, J.D. (1981). Evidence for generalized motor programs using gait patterns analysis. Journal of Motor Behavior, 13(1): 33-47.
INTERAÇÃO OBJETIVO-PADRÃO DE MOVIMENTO NO DESENVOLVIMENTO DE MOVIMENTOS FUNDAMENTAIS1
Jorge A. de Oliveira; Edison de J. Manoel; Alberto C. Amadio
O desenvolvimento motor
pode ser interpretado como um processo onde há um progresso de movimentos
simples e não organizados para realização de habilidades
altamente complexas (HAYWOOD, 1986). As mudanças são contínuas
iniciando-se na concepção e indo até a morte. As observações
e registros desse processo indicam que há uma ordem e coerência
no conjunto de mudanças, o que permite identificar uma seqüência
de desenvolvimento motor. A seqüência tende a ser variável
em sua progressão, mas invariável na sua ordem.
Com a preocupação
de entender o processo de desenvolvimento, alguns autores consideram que esta
seqüência resulta de mudanças na capacidade de controlar movimentos
(KEOGH, 1977). Um tópico de interesse de vários pesquisadores
é o desenvolvimento dos padrões fundamentais de movimento. O desenvolvimento
do andar, correr, saltar, arremessar, etc., segue uma seqüência de
estágios, representando níveis graduais de proficiência,
isto é, de controle motor. Esses padrões constituem a primeira
forma de ação voluntária sobre o controle de movimentos,
podendo ser definidos como um conjunto de características básicas
na seqüência e organização de movimentos dentro de
uma relação espaço-temporal (WICKSTROM, 1983).
A forma madura de um padrão
fundamental corresponderia ao padrão de execução característico
de um indivíduo habilidoso. Existiria, nesse caso, uma progressão
na aquisição dos componentes que formam os programas de ação
(cf. CONNOLLY, 1977) responsáveis pela organização espaço-temporal
desses movimentos. Entretanto, a elaboração de modelos teóricos
não tem sido a maior preocupação de pesquisadores da área,
levando a um conjunto de dados apenas descritivos. Uma das abordagens que fogem
a essa regra é a teoria de estágio motor (ROBERTON, 1982). Nessa
concepção, a seqüência é vista como sendo resultante
de um processo epigenético e de natureza probabilística.
ROBERTON (1977) propôs
que os movimentos fundamentais sejam analisados a partir de componente de ação,
por exemplo, ação dos braços, tronco, pernas, etc.. Através
da descrição independente de cada componente observou-se que no
arremesso eles mudavam em taxas diferentes. ROBERTON & LANGENDORFER (1980)
testaram essas idéias utilizando dados de crianças que tinham
tido suas performances no arremesso filmadas durante quase uma década.
O aspecto importante desse estudo foi a constatação de que ocorreram
inúmeras flutuações no comportamento das crianças
ao longo desse período. Por exemplo, uma criança permaneceu num
nível rudimentar de um componente do arremesso durante vários
anos e repentinamente saltou para o nível maduro. Outras mostravam estabilização
no nível maduro seguida de regressão para o nível intermediário
e retorno posterior ao nível maduro. As crianças acabavam chegando
ao mesmo ponto no final da década de observações, ou seja,
o nível maduro, entretanto, o curso das mudanças no comportamento
motor foi bastante variado. Isto pode ser considerado como uma evidência
do que CONNOLLY (1981, 1986) denominou de eqüifinalidade no desenvolvimento
motor, ou seja, o mesmo fim (nível maduro) pode ser alcançado
através de diferentes caminhos e com pontos de partidas variados. Essas
observações ressaltam a necessidade de se considerar a interação
do ser humano com o meio ambiente, devido ao seu papel nas mudanças no
comportamento motor ao longo do eixo temporal de vida (SMOLL, 1982). Ações
habilidosas são criadas a partir de uma relação dinâmica
entre organismo, ambiente e a tarefa, mudanças em qualquer um desses
elementos trarão conseqüências para a ação (MANOEL
& CONNOLLY, 1995). Portanto, para que o desenvolvimento motor seja compreendido
é necessário que uma interação entre esses fatores
seja considerada. KEOGH & SUGDEN (1985), por exemplo, apresentam um modelo
de descrição do comportamento que leva em consideração
as relações entre o indivíduo e o ambiente. Numa mesma
ação, o padrão de movimento pode ser modificado, se: (a)
o indivíduo estiver estático ou em movimento e (b) se o ambiente
for estável ou instável. As várias combinações
entre as condições do indivíduo e do ambiente irão
impor diferentes demandas espaciais e temporais sobre o executante. A maneira
em que indivíduos respondem a tais demandas indicará de forma
mais válida e fidedigna o nível de suas habilidades, e conseqüentemente
permitindo um quadro mais real de seus estados de desenvolvimento. Tradicionalmente
os estados de desenvolvimento motor são descritos a partir de situações
onde há pouca consideração sobre os efeitos da interação
entre o indivíduo e o ambiente ( por exemplo, WICKSTROM, 1983). Num certo
sentido isto é reflexo da influência do modelo maturacional, que
pouca importância dava aos efeitos da experiência e do ambiente
no comportamento apresentado. Entretanto, a relação padrão
de movimento e condições ambientais não é unívoca.
Isto é exemplificado por HIGGENS & SPAETH (1972) num estudo onde
crianças praticavam o arremesso com uma mão por cima do ombro
a um alvo e em diferentes condições ambientais. Nessas circunstâncias,
o padrão de movimento resultante era particular à estabilidade
do ambiente. Os movimentos sempre apresentavam variações de uma
tentativa a outra, entretanto, quanto mais instável o ambiente, mais
variado era o padrão, quanto mais estável menos variação
no padrão. Posteriormente, HIGGENS (1978) propôs que não
haveria um padrão fundamental típico à cada ação,
como preconizado por pesquisadores do desenvolvimento motor. De acordo com Higgens
cada padrão de movimento refere-se a uma solução particular,
única, para um dado problema motor, onde as peculiaridades da interação
indivíduo-ambiente tem grande influência.
Nos últimos dez anos, uma série de estudos têm sido realizados
onde as relações entre ambiente, objetivo da tarefa, padrão
de movimento e estados de desenvolvimento foram consideradas (LANGENDORFER,
1990; MANOEL & PELLEGRINI, 1985; NABEIRO, DUARTE & MANOEL, 1995; ROBERTON,
1987). Esses estudos demonstram que, em geral, as classificações
tradicionais do comportamento motor em termos de estágios ou níveis
de desenvolvimento dependem do objetivo da tarefa (p.e.: arremessar à
distância ou arremessar a um alvo) e das condições do ambiente
(p.e.: ambiente estável ou instável). Devido à relevância
das relações indivíduo-ambiente para o desenvolvimento
motor é necessário que novos estudos sejam conduzidos. Uma das
preocupações de nossos trabalhos tem sido como descrever o comportamento
de crianças de diferentes faixas etárias em várias situações
(OLIVEIRA, 1990). Basicamente temos buscado aliar a descrição
qualitativa à descrição quantitativa. Para obter uma descrição
mais precisa e formal, a área de Biomecânica abre novas perspectivas
para a condução de estudos sobre o desenvolvimento motor. Não
apenas por oferecer meios para análises cinéticas e cinemáticas
do movimento, mas por levantar questões sobre o processo de organização
motora do ponto de vista biofísico (cf. ZERNICKE & SCHNEIDER, 1993).
A seguir relatamos alguns dados obtidos na tentativa de obter dados quantitativos
(cinemáticos) do arremesso por cima. Serão apresentados dados
referentes a uma das condições experimentais, o arremesso ao alvo,
que fazem parte do projeto de pesquisa (cf. OLIVEIRA; AMADIO & MANOEL, 1995).
Para a determinação quantitativa da velocidade de movimento utilizou-se
de medição direta desta variável cinemática através
do processamento e gerenciamento por conversor analógico-digital do sinal
de um emissor de ultra-som calibrado e ajustado para o movimento estudado. HENNING
& NICOL (1976) argumentam sobre o potencial desse instrumento de medição
para análise de movimentos. A cinematografia associada a este instrumento
de medida, pode constituir-se numa forma efetiva para a análise do movimento
humano, possibilitando aliar análises qualitativas às quantitativas,
como foi descrito por HINRICHS et al. (1994). A análise qualitativa foi
feita utilizando o modelo de ROBERTON (referências citadas acima). Em
relação à análise quantitativa, o ultra-som permite
registrar dados referentes às variáveis velocidade e aceleração.
Uma das metas em termos metodológicos e conseguir combinar a descrição
qualitativa do comportamento com a utilização de indicadores cinemáticos,
como a velocidade, aceleração, deslocamento linear e ângulos
dos diversos segmentos corporais (cf. HINRICHS et al., 1994). Essas análises
seriam feitas em diversas tarefas executadas pelo mesmo indivíduo. A
utilização de indicadores cinemáticos seria interessante
para caracterizar objetivamente os diferentes níveis de desenvolvimento,
definidos segundo categorias de comportamento definidas pelo modelo.
O presente estudo piloto envolveu a participação voluntária
de 03 escolares do sexo masculino na faixa etária de sete a nove anos
de idade. A tarefa consistia em arremessos ao alvo. A distância entre
a área de arremesso e o alvo correspondia a 50% da maior distância
obtida após cinco arremessos prévios. No arremesso ao alvo, as
crianças foram instruídas e motivadas a acertarem o centro do
alvo. O alvo foi dividido em zonas com pontuações, onde 50 equivalia
a acertar o centro do alvo. Foram utilizadas duas filmadoras de vídeo
e o aparelho de ultra-som. Através de alguns dispositivos foi possível
sincronizar o funcionamento de todos eles.
A análise dos arremessos levou à conclusão de que as crianças
se encontravam no estágio maduro (M) (avançado) de desenvolvimento
do arremesso em todos os componentes de acordo com a categorizarão por
componentes.
Para a análise da variável velocidade do punho no arremesso consideramos
como início do movimento o momento em que houve mudança no comportamento
da velocidade quando a curva tocava a o ponto 0 (zero) da linha "y" do gráfico.
Para a finalização do arremesso foi considerado o momento de soltura,
ou seja, quando a bola deixava a mão da criança, obtido através
da análise do vídeo. A velocidade do punho foi obtida devido à
fixação do emissor de som no punho da criança. No gráfico
1 temos o resultado da criança n. 3 num arremesso cujo tempo total (Tt)
de movimento foi 240 milisegundos e velocidade (v) foi de 1,29 m/s.

GRÁFICO 1: Segundo arremesso da criança (3)
Devido a um problema técnico os dados cinemáticos referentes a criança 1 (7 anos) não puderam ser processados, mas ela obteve a média de 26 pontos referentes ao acerto no alvo. A criança 2 (8 anos) teve o Tt médio de 290 ms, v média de 1,38 m/s e média de 32 pontos. A criança 3 (9 anos) teve Tt médio de 330 ms, v média de 1,09 m/s e média de 26 pontos.
Ao analisar as curvas
de cada arremesso, observamos uma característica comum entre elas. No
período correspondente à soltura da bola, houve uma tendência
de estabilização na velocidade do arremesso. Essa é um
característica que necessita ser considerada principalmente quando estivermos
de posse dos resultados referentes ao arremesso à distância. Numa
tentativa de explicação poderíamos dizer que a estabilização
ocorreu em virtude da exigência de precisão visto tratar-se de
um arremesso ao alvo. A criança neste momento pode estar preocupada em
fazer os ajustes finais em função de obter um maior precisão
na tarefa. Caso essa explicação possa ser considerada adequada
estaríamos observando nesse caso um dos fenômenos mais estudados
em controle motor, conhecido como "speed-accuracy trade-off" (WELFORD, 1968).
Poderíamos ainda especular que as demandas de precisão da tarefa
resultariam numa diminuição da velocidade, ou seja, altas velocidades
resultariam em baixos escores. Entretanto isso não aconteceu visto que
a criança 2 obteve a melhor pontuação sendo também
a mais rápida. No sentido de ter um quadro mais claro será preciso
complementar o presente estudo piloto com a análise dos dados referentes
ao arremesso à distância.
A presente crônica científica relatou sucintamente o posicionamento
teórico adotado para a análise de padrões fundamentais
de movimento, bem como os primeiros resultados obtidos na tentativa de combinar
análise qualitativas e quantitativas. Há ainda alguns problemas
técnicos a serem solucionados bem como a ausência de um critério
para estabelecer a relação entre medidas que caracterizam o estágio
de desenvolvimento motor e as variáveis cinemáticas. Esse e outros
aspectos (otimização de procedimentos, redução dos
fatores de erro, sincronização do sistema de medida, etc.) são
objeto de nossa atenção no momento.
NOTA
1. O presente trabalho conta também com o apoio do Laboratório de Biomecânica da EEF-USP.
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Ponto de Vista
Função, "affordances" e desenvolvimento
Edison de J. Manoel
O estudo do desenvolvimento motor teve um novo impulso com a aplicação de conceitos e princípios da Teoria da Ação originária da psicologia ecológica (cf. Turvey, 1977). Um dos aspectos mais interessantes dessa abordagem foi mostrar que bebês e crianças não são sistemas caracterizados apenas por imaturidade. Estudos demonstraram que bebês possuem um amplo repertório de ações, funcionalmente orientadas às características particulares do ambiente. Estas ações são vistas como realizações de fordances por agentes (Reed, 1988). O conceito de affordance é central para a psicologia ecológica do desenvolvimento (cf. Gibson, 1982). Ele se refere a aspectos do ambiente que ao serem percebidos restringem e modulam as escolhas de ação do organismo. Affordances são específicas ao animal e são definidas de acordo com as propriedades do objeto e do animal. Assim, o animal deve perceber uma affordance no ambiente, orientar-se a ela e engajar-se em ações tentando realizá-la. Uma affordance resulta do processo evolutivo de uma dada espécie. Desta forma, para agir no ambiente, indivíduos de uma dada espécie não necessitariam construir programas ou algoritmos especiais. Num certo sentido affordance caracteriza um tipo de conhecimento inato. O processamento inferencial de informação só aconteceria em situações artificiais segundo os teóricos da ação. Por exemplo, um dos achados clássicos na área de Percepção-Ação foi de Trevarthen (1968) mostrando que a visão atuaria na base de dois sistemas: o focal e o ambiental. O sistema focal é mediado por estágios de processamento a nível consciente, e por isso mais lento. O sistema ambiental seria inconsciente e orientado espacialmente, apresentando um tempo de processamento mais rápido. Enquanto experimentos clássicos mostravam que o processamento de informação visual levava de 190 a 260 mseg. (por ex. Keele & Posner, 1968), observações de ações habilidosas em situação real sugerem que essa estimativa era muito alta. De fato, alguns experimentos encontraram valores de tempo de reação visual bem mais curto do que resultados anteriores, em torno de 150 a 100 mseg. (Carlton, 1981; Zelaznik, Hawkins & Kisselbergh, 1983). Esses experimentos, em contraste com os demais realizados, indicam a possibilidade de que o sujeito possa usar informação mais continuamente. Com base na hipótese de Trevarthen, os longos tempos de reação visual seriam devidos a situações artificiais em que o estímulo apresentado teria que ser inesperadamente processado pelo sistema focal (Schmidt, 1988). Nas situações em que o indivíduo pode processar os estímulos continuamente, o sistema ambiental é utilizado e, conseqüentemente, os tempos de reação seriam mais curtos. Essas situações seriam mais próximas da vida real de forma que o sistema ambiental de visão estaria diretamente sintonizado à percepção de affordances no meio ambiente. A realização de uma affordance é considerada como o elemento que dá função ao comportamento (cf. Reed, 1988). Vale ressaltar que o conceito de função é complexo (cf. Hinde, 1975). Função pode estar relacionada aos efeitos que o comportamento tem na interação do animal com o ambiente. Ela pode também ser considerada como a realização de ações de alto valor seletivo para a espécie. Em ambos os casos, uma affordance é importante para a realização de um comportamento ecologicamente válido. A descrição e análise do comportamento de bebês ilustram o papel de affordance no desenvolvimento. Rochat (1989) relata uma série de experimentos demonstrando a competência com que bebês exploram e manipulam objetos. Uma vez que as propriedades físicas dos objetos são percebidas como affordances, bebês irão demonstrar comportamentos apropriados na manipulação de objetos. Entretanto, no período de 3 a 6 meses de idade Rochat encontrou mudanças nas estratégias, ou seja, enquanto elas são modificadas para realizar uma affordance, a função sendo exercida permaneceu a mesma. Isto é importante porque para abordar o desenvolvimento o problema consiste em utilizar um instrumental teórico capaz de explicar a mudança, a transição e a novidade. Outros exemplos são encontrados nos experimentos conduzidos por von Hofsten (1990) que estudou as habilidades de receber em bebês. von Hofsten demonstrou que uma vez que certas condições sejam criadas (controle postural artificial), bebês irão demonstrar um comportamento competente para guiar sua mão em direção a objetos em movimento evidenciando a capacidade de ajuste a variações de velocidade. von Hofsten argumenta inclusive que bebês demonstram ter conhecimento de quais velocidades permitem a recepção e quais não. Em que pese o nível de proficiência demonstrado por bebês, a habilidade de recepção passa por inúmeras mudanças na primeira década de vida até que a criança seja capaz de realizá-la com razoável sucesso (Kay, 1970). O problema no estudo do desenvolvimento é o de explicar como emerge uma função, como ela é modificada ao longo do tempo, o que conseqüentemente é acompanhado de mudanças na forma em que o comportamento é organizado e produzido para cumprir novas funções. Um dos pontos cruciais para entendermos o desenvolvimento é o seu caráter hierárquico, ou seja, os comportamentos tornam-se mais específicos e complexos. Crianças, em geral, têm que combinar vários componentes de ação. De acordo com os teóricos da ação o ato habilidoso é determinado por uma dada função, a qual é estabelecida uma vez que affordances são percebidas. Entretanto, a criança permanece com o problema de como combinar os vários elementos disponíveis para alcançar esse fim. Uma cadeira, diria um teórico da ação, permite (afford) o sentar. Embora isso seja importante para o indivíduo identificar o comportamento apropriado diante da cadeira, resta o problema de como sentar. Além do que, o sentar pode ser efetuado de várias formas, mas a affordance não especificaria esta escolha. A idéia de affordance é relevante na análise do estabelecimento de funções no comportamento da criança. Ela pressupõe formas de organização motora já existentes no repertório de comportamentos da criança. Entretanto, o nosso problema enquanto teóricos do desenvolvimento, é entender como essa organização muda. Pode-se dizer que a percepção de affordances é importante para o desenvolvimento mas não seria o único fator determinante desse processo. Tomemos como exemplo o desenvolvimento do comportamento motor manual. Elliott & Connolly (1974) distinguiram dois tipos de sub-rotinas em habilidade manipulativas. As "sub-rotinas" anatômicas consistem comportamentos definidos em termos anatômicos, como a pronação da mão. Na verdade, elas poderiam ser melhor caracterizadas como componentes do hardware do sistema que exercem influências na produção de respostas motoras. Por exemplo, a preensão de uma caneta usando as falanges distais dos dedos indicador e polegar mais o suporte da superfície lateral do dedo médio permite movimentos diferentes daqueles permitidos quando a caneta é apreendida entre as superfícies ventrais dos dedos e da palma da mão. Segundo, temos as sub-rotinas operacionais que são definidas em relação a um efeito particular no ambiente, como por exemplo, girar uma manivela. Há uma relação dinâmica entre as sub-rotinas anatômicas e operacionais. O efeito primário de uma sub-rotina anatômica esta diretamente ligado à morfologia de um dada preensão. Essas características juntamente com características do ambiente e da tarefa irão permitir o emprego de diferentes sub-rotinas. Ou seja, novas sub-rotinas operacionais serão estabelecidas. Podemos nos perguntar se esse processo seria resultante apenas da percepção de affordances. A resposta a essa questão não é simples, mas alguns experimentos por nós realizados(Manoel & Connolly, 1994, no prelo) podem ajudar a caracterizar melhor a natureza do problema. Nesses experimentos habilidades manipulativas de crianças pré-escolares foram observadas e analisadas. A tarefa experimental consistia em apreender um objeto cilíndrico (aproximadamente, 1 cm de diâmetro por 9 cm de comprimento), transportá-lo até uma caixa e inseri-lo num orifício na parte superior da caixa. A forma do objeto correspondia à forma do orifício cujas dimensões eram um pouco maiores do que o diâmetro do objeto. Uma das formas utilizadas foi a de um semi-círculo. Isto exige que para a inserção ocorrer o objeto tem que estar na mesma orientação do orifício. Crianças pré-escolares não antecipam essa orientação e realizam uma série de ajustes na posição do objeto até encontrarem a orientação apropriada. O tipo de preensão que essas crianças adotam é, em geral, a preensão palmar (Connolly, 1973; Connolly & Elliott, 1972). Essa preensão, denominada de força, caracteriza-se pelo objeto posicionado transversalmente à mão e em contato com a palma da mão com todos os dedos fechando-se sobre o objeto e a palma. Outra denominação para esse tipo de preensão é a de preensão rígida (Connolly & Dalgleish, 1989). Embora esse tipo de preensão seja adequado para exercer força, ele é inadequado para realizar ajustes na posição do objeto, pois não permite a execução de movimentos intrínsecos, isto é, movimentos do dígitos. As crianças efetuaram ajustes na orientação do objeto usando movimentos do braço e tronco (movimentos extrínsecos), o que implica grande dispêndio de tempo e energia. Caso a idéia de que affordance é um elemento crucial no desenvolvimento, podemos supor que modificações nas restrições da tarefa levariam à percepção de novas affordances o que por sua vez levaria a novos comportamentos por parte da criança. Para testar essa hipótese, o acesso ao objeto foi restrito de forma que a criança só poderia apreendê-lo utilizando uma preensão digital (adulta), e portanto flexível por permitir movimentos intrínsecos. Realmente, foi constatado um aumento na freqüência de uso de preensões flexíveis bem como de movimentos intrínsecos. Entretanto em comparação com a condição onde não havia restrição no acesso ao cilindro houve uma tendência de aumento na troca de preensão nas fases de transporte e inserção. A restrição ao acesso do cilindro exerceu influência na adoção de um dado tipo de preensão. A preensão adotada, digital, implicou num aumento dos graus de liberdade de movimento no sentido de que o objeto pode ser manipulado de diferentes formas graças à possibilidade de uso de movimentos intrínsecos. Entretanto, o aumento nas trocas de preensão pode ser um indicativo de instabilidade. O aumento dos graus de liberdade nos movimentos manuais, devido a mudança na restrição da tarefa, não correspondeu a um aumento similar nos graus de liberdade do controle. Esse e outros estudos sugerem que as restrições da tarefa devem ser consideradas em relação à maneira como a intenção e, conseqüentemente, a elaboração de um programa de ação restringe a resposta motora (Bruner, 1970, 1973; Connolly, 1973; Manoel, 1993; Tani, 1994). Programas de ação passam por mudanças ao longo do eixo temporal de vida da criança. Crianças que apresentam um padrão de movimentos rudimentar numa dada ação motora estariam utilizando programas de ação igualmente rudimentares. Evidentemente que affordances irão exercer influências no comportamento durante o processo de desenvolvimento, mas elas seriam correlacionadas e administradas pela emergência de um programa de ação.
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Página disponibilizada em
28 de Maio de 1999
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