BOLETIM
LABORATÓRIO DE COMPORTAMENTO MOTOR
DEZEMBRO V. 2 No 3 1995
ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Editor: Edison de J. Manoel
ÍNDICE
Edison de J. Manoel..................................................................................................................... 1
Interferência contextual
e formação do plano motor: II) Aspectos variáveis
Herbert Ugrinowitsch & Edison de J. Manoel............................................................................
2
Análise
desenvolvimentista da tarefa motora: Uma direção para a integração
das pesquisas
básica e aplicada em desenvolvimento motor
Edison de J. Manoel & Jorge A. de Oliveira ............................................................................ 4
O timing visual na ação interceptativa Guedan barai: Um teste à Estratégia Tau (t )
Sérgio Tosi Rodrigues................................................................................................................ 7
EDITORIAL
Ao final do segundo ano de publicação do Boletim do LACOM podemos constatar que o Laboratório está prestes a entrar numa nova fase. Houve um momento para a elaboração e proposição de linhas de pesquisa. O desenvolvimento dessas linhas foi tanto um resultado dos debates acontecidos no grupo como da trajetória acadêmica de cada membro até hoje. A partir de 1996 iniciamos um período em que deverá haver a consolidação das linhas de pesquisa propostas. Duas características referentes ao conjunto de linhas de pesquisa merecem ser mencionadas. Primeiro, a concepção teórica assumida pelo grupo é mais integrativa em relação às concepções predominantes na área de comportamento motor. Como foi manifestado neste Boletim em várias ocasiões, o conceito de hierarquia desempenha um papel fundamental nas nossas idéias sobre controle, aprendizagem e desenvolvimento motor. Segundo, a integração teoria-prática não é só uma preocupação do laboratório, há a proposição de uma linha de pesquisa (em ensino-aprendizagem de habilidades motoras) que viabiliza essa interação. A preocupação com esses dois aspectos é exemplificada pela Crônica Científica e Ponto de Vista do presente número do Boletim. A Crônica Científica traz o relato de um experimento onde a questão da interferência contextual foi apreciada em relação a uma concepção de programa motor hierárquico, caracterizado por aspectos invariantes e variáveis. O Ponto de Vista faz considerações sobre uma possível integração entre pesquisa básica e aplicada no estudo do desenvolvimento motor. A condução de pesquisas sobre a análise desenvolvimentista da tarefa motora pode trazer conhecimentos relevantes tanto para uma melhor compreensão do desenvolvimento motor, como para a solução de problemas práticos em educação física. Temos recebido ocasionalmente a visita de pesquisadores de outras unidades e instituições que apresentam e discutem suas pesquisas. Nossa intenção será, na medida do possível, publicar o resumo dessas apresentações no Boletim. Assim, o presente número do Boletim traz a seção Suplemento com um texto apresentado e discutido no Laboratório pelo Prof. Rodrigues, da UNESP-Bauru. Esse trabalho procura testar a hipótese do Tau numa situação complexa de timing coincidente.
Edison de J. Manoel
CRÔNICA CIENTÍFICA
Interferência contextual e formação do plano motor: II) Aspectos variáveis
Herbert Ugrinowitsch &
Edison de J. Manoel
A variabilidade da estruturação da prática de habilidades motoras é um tópico que desperta grande interesse por parte dos pesquisadores da aprendizagem motora. As vantagens desta variabilidade podem ser explicadas a partir do papel da interferência contextual nos processos de memória durante a aprendizagem (Shea & Morgan, 1979). Os efeitos positivos da alta interferência contextual tem sido explicados por duas hipóteses, a do nível de processamento e a de esquecimento (Blandin et alii, 1994; Magill, 1989; Schmidt, 1988). Uma das questões nem sempre consideradas nestas hipóteses é referente à natureza e estrutura do programa motor a ser adquirido. Não houve, até recentemente, uma preocupação em se definir experimentalmente qual aspecto do programa motor seria manipulado em cada tentativa. Considerando-se que um programa motor tenha dois aspectos: 1) Aspectos invariáveis, que dão identidade ao programa motor, como o tempo relativo, força relativa e seqüência de eventos, sendo estes considerados os mais fortes candidatos nesta categoria; e 2) Aspectos variáveis, que são alterados de tentativa à tentativa para acomodar alterações do ambiente, sendo o tempo absoluto, força total, seleção do grupo muscular e precisão na homing fase os aspectos considerados nesta categoria. Com a preocupação de investigar os efeitos da interferência contextual na formação do programa motor, foi realizado um experimento onde a seqüência de eventos do programa motor foi a variável manipulada para criar a alta interferência contextual durante a prática (Ugrinowitsch & Manoel, 1994). Os resultados indicaram que a prática com alta interferência contextual produziu melhor performance tanto na fase de aquisição como nos testes de retenção e transferência. As expectativas em relação a este estudo indicam que a constante mudança do aspecto invariável do programa motor levaria a uma maior dificuldade de aprendizagem para o grupo de alta interferência contextual. A constante alteração da seqüência de eventos dificultaria a formação do programa motor, visto tratar-se de uma variação de um aspecto definidor deste programa. Esta expectativa, entretanto, não foi confirmada. O resultado encontrado já era previsto por Magill & Hall (1990), quando após realizarem uma revisão da literatura existente sobre interferência contextual, concluíram que na maioria dos experimentos não era especificado qual dos aspectos do programa motor estavam sendo manipulados. Entretanto eles afirmam que a manipulação do aspecto invariável do programa estaria mais de acordo com as explicações sobre a interferência contextual. Ao ter que selecionar um programa motor diferente a cada tentativa, o executante estaria melhorando o nível de representação de uma dada tarefa motora na memória. Wulf & Schmidt (1988) realizaram um experimento no qual foram manipulados o tempo total e o tempo relativo, ou seja, aspectos variável e invariável do programa motor, respectivamente. O experimento teve dois grupos: um grupo cuja fase de aquisição foi na forma esquema (variando apenas o parâmetro do programa motor) e um grupo na forma contexto (variando sempre o programa motor). Observou-se que no teste de transferência, quando era requerido o mesmo programa motor, o grupo que praticou na fase de aquisição sob a forma esquema obteve menor erro constante. Entretanto, quando o teste de transferência era realizado com outro tempo relativo, ou seja, outro programa motor, o grupo que praticou na forma contexto (onde era manipulado um fator invariável do programa motor) obteve menor erro constante. Wulf & Schmidt (1994) realizaram outro experimento no qual o feedback com relação ao tipo de prática foi manipulado, que podia ser aleatória (randomizada) ou em blocos, buscando analisar qual dos aspectos do programa motor produziam melhor teste de retenção e transferência. O resultado observado foi o de que a prática com alta interferência contextual produz melhor performance nos testes de retenção e transferência quando o aspecto invariável do programa motor é manipulado na estrutura da prática. Com o propósito de verificar os resultados de Wulf & Schmidt (1988) com tarefas um pouco mais complexas, foi realizado um novo experimento onde manipulou-se um aspecto variável do programa motor, tomando parte no experimento 20 sujeitos na faixa etária de 12 e 13 anos de idade. A tarefa e as condições experimentais foram as mesmas já citadas no experimento anterior (Ugrinowitsch & Manoel, 1994), sendo que desta vez a seqüência de eventos permaneceu a mesma durante toda a fase de aquisição. A seleção do grupo muscular, ou mais especificamente dos membros superiores, foi alterada. Ou seja, o indivíduo no grupo randomizado efetuava a tarefa com a mão direita ou esquerda aleatoriamente. O grupo blocos praticou a seqüência estabelecida somente com o braço direito durante metade da fase de aquisição. Na outra metade os sujeitos realizaram a tarefa com o braço esquerdo. Na fase de retenção, ambos os grupos realizaram a mesma tarefa após 10 (dez) minutos de intervalo e, em seguida, o teste de transferência em uma nova seqüência não praticada anteriormente (a mesma tarefa de transferência do experimento anterior). A ANOVA TWO WAY com medidas repetidas foi aplicada nos três blocos da fase de aquisição, e também no último bloco de prática, retenção e transferência. Não foram encontradas diferenças significantes entre os grupos e nem entre as fases durante todo o experimento. O tempo total de execução foi praticamente igual entre todos os grupos, como mostra o Gráfico I.

Gráfico I - Manipulação de um aspecto variável (seleção de grupo muscular) e
os três
blocos de aquisição, os testes de retenção e transferência.
Neste segundo experimento os dois grupos tiveram performance similar nos testes
de retenção e transferência. Este resultado não seria
esperado para a transferência, pois segundo Wulf & Schmidt (1988),
quando na tarefa de transferência o aspecto invariável é
alterado, supôs-se que só o grupo com alta interferência
no programa motor teria boa performance. Wood & Ging (1991) também
encontraram que variações de uma mesma tarefa para criar alta
interferência contextual (manipulando os parâmetros do programa
motor), traria resultados inferiores à variação de tarefas
dissimilares (variando o programa motor) quando da tarefa de transferência.
Neste experimento, como o único fator manipulado foi o aspecto variável
do programa, os dois grupos deveriam ter um desempenho pior na transferência,
o que não aconteceu.
No primeiro experimento (Ugrinowitsch & Manoel, 1994), um resultado de certa
forma inesperado foi a melhor performance do grupo randomizado durante a fase
de aquisição, ao contrário do que a literatura nos indicava
(Del Rey et alii, 1982; Gabriele et alii, 1987; Goode & Magill, 1986; Lee
& Magill, 1983; Magill, 1983, 1989; Schmidt, 1988, 1991; Shea & Morgan,
1979; entre outros). Este resultado poderia ser visto sob o ponto de vista de
Del Rey et alii (1982) e Magill (1989). Segundo estes autores, os efeitos da
interferência contextual poderiam ser melhor observados em sujeitos que
tinham experiências motoras anteriores em habilidades abertas, e os sujeitos
eram praticantes da modalidade esportiva Voleibol a nível de federação.
Já no teste de transferência, podemos concluir que com a manipulação
dos aspectos invariáveis do programa motor, o grupo que praticou na forma
randomizada mostrou performance superior ao grupo que praticou na forma de blocos.
Este resultado está de acordo com a literatura (Magill & Hall, 1990;
Wulf & Schmidt, 1988, 1994). O segundo experimento, onde foi manipulado
um aspecto variável do mesmo programa motor, mostrou que no teste de
transferência os dois grupos tiveram performance similar e com pequena
piora (não significante). Este fato não era esperado, pois a tarefa
de transferência exigia a execução de um programa motor
diferente. Já através do teste de transferência, podemos
concluir que com a manipulação dos aspectos invariáveis
do programa motor, o grupo que praticou na forma randomizada e com alteração
do aspecto invariável mostrou performance superior ao grupo que praticou
na forma blocos. Este resultado está de acordo com a literatura (Magill
& Hall, 1990; Wulf & Schmidt, 1988 e 1994). Entretanto, quando aspectos
variáveis do programa motor foram manipulados, não observou-se
uma piora na performance de uma tarefa de transferência que exigia um
novo programa motor. Há muitos pontos ainda em aberto, tais como: se
a manipulação dos outros elementos do programa motor na fase de
aquisição também surtirão os mesmos efeitos, tais
como timing relativo, velocidade de execução, força e grau
de precisão nas sub-tarefas, entre outros; se os resultados obtidos na
situação de laboratório são replicáveis em
situações mais complexas de ensino-aprendizagem. Outro ponto de
natureza mais fundamental refere-se à questão da estabilização
do programa. Em nossos experimentos, assim como na maioria dos citados na literatura,
não há condições de dizer se o programa adquirido
atingiu ou não a estabilização. Há a necessidade
de verificar se os efeitos da alta interferência contextual serão
manifestos quando for permitido aos indivíduos atingirem a estabilização.
Estas perguntas sugerem a necessidade de darmos continuidade aos estudos sobre
o papel da interferência contextual na aquisição de habilidades
motoras.
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PONTO DE VISTA
Análise desenvolvimentista da tarefa motora: Uma direção para a integração das pesquisas básica e aplicada em desenvolvimento motor
Edison de J. Manoel &
Jorge A. Oliveira
O estudo do desenvolvimento motor teve sua história associada ao interesse que biólogos e psicólogos tinham em desvendar as origens da mente. Em geral, o comportamento motor era visto como uma porta de acesso ao desenvolvimento neurológico e cognitivo. Raras são as exceções de pesquisadores que nessas áreas estudaram o desenvolvimento motor com o fim de entender a organização motora em si (veja por exemplo, Connolly, 1975; Thelen, 1989). Esses autores reconhecem que a capacidade para movimento é essencial para o organismo interagir apropriadamente com o meio em que vive. A importância que a capacidade para movimento tem para a interação e adaptação dos indivíduos ao ambiente faz com que vários profissionais tenham se interessado pelo desenvolvimento motor, entre esses profissionais encontramos pediatras, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, pedagogos e cinesiólogos, mais comumente denominados, professores de educação física. Várias razões tem levado a um interesse profissional pelos conhecimentos básicos de desenvolvimento motor, entre elas podemos citar: (a) os paralelos existentes entre o desenvolvimento motor e o desenvolvimento neurológico com implicações para o diagnóstico do crescimento e desenvolvimento da criança; (b) o papel de padrões motores desenvolvimentistas no curso de desenvolvimento humano com implicações para a educação geral da criança bem como para reabilitação de indivíduos com atrasos ou desvios do desenvolvimento; (c) adequação e estruturação de ambientes e tarefas motoras de acordo com padrões motores desenvolvimentistas. Esse último é de particular interesse para os profissionais de educação física. Nos anos 60, Halverson (1966) procurou mostrar a importância dos conhecimentos de desenvolvimento motor para a educação física. Sua preocupação residia em mostrar a relevância do trabalho voltado para as chamadas habilidades básicas, também denominadas de padrões fundamentais de movimento. Considerando que a educação física esteve historicamente atrelada ao ensino de movimentos ginásticos e de habilidades esportivas, Halverson trouxe evidências de que as habilidades básicas também necessitavam ser trabalhadas, sendo essa uma função do professor de educação física. Vale ressaltar que nessa época predominava a visão maturacional, segundo a qual o ambiente tinha uma influência negligenciável na aquisição de habilidades básicas. Halverson argumentou em favor da necessidade de experiências sistematizadas para promover formas maduras de correr, saltar. arremessar, receber, chutar, entre outras. Embora esse período tenha sido marcado pela idéia de que a promoção das habilidades básicas iria desenvolver o sistema sensório-perceptivo e desempenho acadêmico de crianças devido ao trabalho de Newell Kephart, Halverson (1971) fez uma importante distinção entre a aprendizagem através do movimento e do movimento. O trabalho com ênfase na aprendizagem do movimento levaria a uma base sólida de unidades básicas constituintes de todas as habilidades específicas, como do esporte, da dança, da indústria e da arte (cf., Tani, Manoel, Kokubun & Proença, 1988). Nos anos 50, 60 e 70 várias pesquisas foram conduzidas procurando descrever a aquisição de habilidades básicas resultando na identificação de uma seqüência de estágios ou fases para a grande maioria delas (cf. Wickstrom, 1983). Com base nesse conjunto de conhecimentos poderíamos perguntar qual foi seu impacto na educação física. Livros como o de Gallahue (1982) serviram para popularizar a idéia de que a educação física na primeira e segunda infâncias deveria promover a aquisição das habilidades básicas. Para atingir tal objetivo o profissional deveria basear seu trabalho na seqüência de desenvolvimento de cada uma das habilidades básicas. Talvez o maior impacto que os estudos de desenvolvimento motor vem tendo refere-se à seleção de tarefas apropriadas à cada estágio de desenvolvimento motor. A identificação das idades apropriadas para o início da prática esportiva, ou seja a prontidão, é outra preocupação profissional ( cf. Seefeldt, 1988). Atualmente a visão de desenvolvimento predominante é a de um processo complexo onde os padrões resultam do histórico de interações entre organismo e ambiente (cf. Connolly, 1986: Gottlieb, 1992). Enquanto essa visão é predominante num plano teórico verifica-se, num plano mais prático, a persistência da idéia de que o desenvolvimento é um processo natural sem influência importante do ambiente. Esse problema a nível prático não seria resolvido apenas com a atualização dos conhecimentos veiculados para profissionais. Existe uma carência de estudos que investiguem em situações mais complexas qual é o papel da interação organismo-ambiente no curso do desenvolvimento. Há evidências de que fatores ambientais e da tarefa interferem na forma em que a seqüência de desenvolvimento motor irá se apresentar, em particular nas seqüências referentes às habilidades básicas. Por exemplo, a mudança de objetivo e a estabilidade do ambiente são aspectos que interagem na caracterização do estado de desenvolvimento motor da criança (Higgens & Spaeth, 1972; Langendorfer, 1987; 1990; Manoel & Pellegrini, 1984; 1985; Marques, 1995; Nabeiro, Duarte & Manoel, 1995; Newell, 1986; Roberton, 1987), assim como fatores morfológicos do próprio organismo (Newell & van Emmerik, 1990; Newell, Sculy, McDonald & Baillargeon, 1989). De maneira a obter-se uma avaliação ecologicamente mais válida do nível de desenvolvimento motor seria importante considerar como a criança se move e principalmente como ela se ajusta numa variedade de situações. Keogh & Sugden (1985) sugerem que devemos considerar dois fatores: o estado do executante - estático ou em movimento; o estado do ambiente - pouca previsibilidade ou grande previsibilidade - e - com ou sem manipulação do objeto. A combinação desses fatores proporciona uma grande variedade de situações onde podemos avaliar a consistência do comportamento (capacidade de repetir o mesmo resultado várias vezes) e a constância do comportamento (capacidade de manter o mesmo resultado em face de perturbações ambientais). Dentro dessa concepção parte-se do pressuposto que a maturidade de habilidades básicas não se refere a uma forma específica de execução, mas à capacidade de elaborar um programa de ação para atingir um objetivo de forma competente (Manoel, 1994). A noção de que o curso de desenvolvimento motor sofre influências importantes de fatores ou restrições ambientais, da tarefa e do próprio organismo (cf. Newell, 1986; veja Manoel, 1995 para uma discussão) traz implicações para a atuação profissional. Entretanto, não se sabe exatamente como essas variáveis interagem tanto no processo de desenvolvimento como também em relação a problemas mais práticos como aqueles referentes à estruturação do ambiente e da tarefa e definição da prontidão da criança. Para estruturar o ambiente e desenvolver um instrumento para uma avaliação mais válida do comportamento motor um conceito que merece atenção é o de análise desenvolvimentista da tarefa motora. Proposta inicialmente por Herkowitz (1978) essa análise considera que a criança ao realizar uma ação não executa apenas uma seqüência específica de movimentos. A criança está envolvida com inúmeras variáveis que atuam em conjunto, essas variáveis são da tarefa e do ambiente. A análise desenvolvimentista da tarefa motora pode ser considerada de duas formas: (1) como um instrumento de avaliação do status do desenvolvimento motor; (2) como uma abordagem instrucional com o delineamento de experiências motoras seqüencialmente orientadas e a identificação de variáveis que limitam a aquisição de habilidades. O processo de análise envolve dois componentes: (1) Análise Geral da Tarefa (AGT) e; (2) Análise Específica da Tarefa (AET). A AGT envolve a definição de fatores da tarefa e do ambiente que influenciam sozinhos ou em combinação, o comportamento motor da criança numa categoria geral motora como correr, arremessar, rebater, saltar, etc. Esses fatores são organizados de acordo com graus de complexidade. A AET envolve a elaboração de tarefas que incorporam certos fatores levantados pela AGT. Assim é possível estruturar tarefas e ambientes em níveis, do simples para o complexo. Ulrich (1988) vai além ao propor que essa avaliação seja feita não só numa situação formal de teste, mas em situações informais de jogo (dois a dois) e em situações estruturadas de jogo (várias pessoas participando). Assim seria possível analisar aspectos da constância em relação ao nível de desenvolvimento motor. As variações sistemáticas nos fatores ou restrições da tarefa, ambiente e organismo em diferentes situações servem ao propósito de investigar o processo de diversificação do comportamento motor. Alguns pesquisadores da área do desenvolvimento motor tem se preocupado com a questão pesquisa básica versus pesquisa aplicada. De acordo com algumas visões recentes a esse respeito pode-se dizer que a necessidade maior é a de integração entre esses dois tipos de pesquisa. Haveria um fluxo constante entre três tipos de pesquisa: a) condução de pesquisa básica sem necessidade de aplicação prática, com preocupação exclusiva de desenvolvimento teórico; b) condução de pesquisa sobre a aplicação de conhecimentos básicos em situações reais de prática, os quais serviriam tanto para o desenvolvimento teórico como indicaria os caminhos para investigações mais aplicadas; c) condução de pesquisa aplicada propriamente dita, isto é, delineada especificamente para responder questões práticas (cf. Christina, 1989; Tani, 1992). Essa concepção de pesquisa facilitaria a integração teoria-prática. Em relação a análise desenvolvimentista da tarefa motora a necessidade de integração de pesquisa básica e aplicada é bem exemplificada por Roberton (1989). Segundo ela o problema crucial do ponto de vista da pesquisa aplicada, é que atualmente os professores não possuem critérios para identificar os fatores ambientais a serem incluídos nas análises geral e específica da tarefa bem como para estabelecer o grau de dificuldade dos níveis para cada fator. Ao mesmo tempo a análise desenvolvimentista da tarefa parte de uma concepção onde o desenvolvimento é um processo que resulta de interações entre organismo, seus subsistemas e o ambiente. Não é nada claro como essas interações ocorrem. Desta forma, temos questões básicas e aplicadas que estão intimamente conectadas. Com a preocupação de buscar-se uma maior integração entre a pesquisa básica e a aplicada há necessidade de se conduzir pesquisas em várias frentes, (1) na descrição mais realista da seqüência de desenvolvimento testando-a em relação as restrições ambientais, da tarefa, do organismo; (2) verificação dos efeitos das diferentes combinações de restrições ambientais, da tarefa e organísmicas no desenvolvimento motor; (3) identificação das combinações de restrições mais efetivas para promover o desenvolvimento de habilidades básicas em crianças normais e portadoras de deficiência. Com um esforço integrado nessas três frentes será possível ampliar nossa compreensão do processo de desenvolvimento bem como solucionar alguns problemas presentes na estruturação da educação física escolar e não escolar.
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SUPLEMENTO
O Timing Visual na Ação Interceptiva Guedan barai:
Um Teste à Estratégia Tau (t )1
Sérgio Tosi Rodrigues2
1. Introdução
O tema central do presente estudo foi o controle visual de ações. Mais particularmente, foi sobre um grupo limitado de interações animal-ambiente, freqüentemente chamadas de ações interceptivas. Agarrar uma bola, executar um salto em distância, rebater no tênis de mesa ou atravessar uma rua movimentada são interessantes à investigação porque são ações acentuadas na necessidade de timing entre aquele que age e o ambiente. A explicação ecológica do timing habilidoso é baseada na percepção direta do tempo para contato (TC), informação obtida através da variável óptica tau (t - o inverso da quantidade de dilatação da imagem na retina). A hipótese da estratégia t assume que, no controle do timing, as ações são geradas para o t . Os resultados de estudos sobre mergulhões e muitas ações humanas com bolas têm suportado esta hipótese em situações de aceleração constante. Entretanto existem algumas limitações relativas às adaptações da pesquisa à complexidade das ações.
Neste contexto surgiu a seguinte questão:
Pode a estratégia t explicar o timing visual de ações interceptivas em situação de aceleração variada?
2. Pressupostos
A estrutura do campo de fluência óptica muda quando a relação entre percebedor e ambiente é alterada (Lee, 1980). A figura 1 mostra como TC é opticamente especificado.

Figura 1 - O movimento do ambiente gerando um campo de fluência óptica em um olho esquemático.
O elemento de textura ambiental P está avançando em direção ao olho com velocidade V. Devido ao movimento de P, o elemento de textura óptica P’ está se movendo radialmente a partir de O com velocidade v. Assim TC, se V permanece constante, é especificado pelo inverso da quantidade de dilatação da imagem na retina, chamada t , como a seguinte equação mostra:
Z(t)/V = r(t)/v(t) = t (t)
A hipótese da estratégia t (Lee, Young, Reddish, Lough & Clayton, 1983), estabelece que, no tempo t, o valor de uma variável de ação (um ângulo articular, por exemplo) será gerado para e assim uma função de t (t-D t), o último valor disponível de t . Assim A(t)=¦ [(t-D t)]. O parâmetro D t é o atraso viso-motor hipotetizado para este sistema, que é considerado constante para um específico executante em uma específica ação em um específico nível de aprendizagem. Lee, Young, Reddish, Lough e Clayton (1983) estudaram o timing na batida de bolas em queda para três diferentes alturas. Eles identificaram importantes aspectos na relação entre t e TC:
1) t sempre
sobrestima TC uma vez que a velocidade da bola esta aumentando;
2) t proporciona uma boa estimativa de TC para valores de TC menores que
0,3 s;
3) Qualquer valor particular de t terá seu correspondente valor
de TC maior quanto mais longo for o tempo de queda.
Eles observaram uma menor expansão vertical máxima das curvas
dos ângulos articulares em função de t do que das curvas
dos mesmos ângulos em função de TC. Este resultado suportou
a hipótese que as ações dos sujeitos foram geradas para
o t .
3. Método
Dois habilidosos
praticantes de Karatê-dô (25 e 29 anos de idade) foram filmados
com seus eixos articulares marcados, executando 10 chutes Mae Gueri e
suas respectivas defesas Guedan Barai.
Duas câmeras cinematográficas Locam, ajustadas para velocidade
de 200 quadros por segundos e filmes de 16 mm (Kodak, preto e branco, 4X Reversível,
320 ASA) foram utilizados. Após a revelação os filmes foram
analisados pelo Vanguard Motion Analiser e as coordenadas bidimensionais de
todos os eixos articulares, de todos os fotogramas, das duas câmeras foram
obtidos. A reconstrução tridimensional foi feita pelo Método
de Transformação Linear Direta.
Com base nos dados tridimensionais dos ângulos do joelho do atacante e
do cotovelo do defensor, a velocidade e aceleração angulares foram
calculadas. O D t foi estimado a partir do momento de valor mínimo
da expansão vertical das curvas do ângulo do cotovelo do defensor
até o contato. A variável óptica t foi obtida pela
composição do t relativo a aproximação do quadril,
joelho e tornozelo, usando uma parte de cada curva na ordem citada.
4. Resultados e Discussão
Na busca de verificar
se a estratégia t pode explicar o timing de ações
interceptivas em situação de aproximação em aceleração
variada, o presente estudo investigou como foram ajustadas as defesas Guedan
Barai para os chutes Mae Gueri no Karatê-dô. O teste
da hipótese da estratégia t se deu através de uma
medida da variação das ações do sujeito defensor
em função de diferentes informações relativas a
aproximação do sujeito atacante, que poderiam ser utilizadas para
o sucesso da defesa.
O parâmetro adotado, relativo à ação, foi a posição
angular da articulação do cotovelo na defesa Guedan Barai.
As possíveis fontes de informação da aproximação
do chute em relação ao defensor comparadas foram TC (o tempo real
para o contato entre perna e braço) e t (a variável óptica
que fornece informação sobre TC). Sendo assim, esta medida da
variação das ações (EV), frente a estas diferentes
informações, foi utilizada como indicativo de qual estratégia
estaria sendo privilegiada no controle do timing antecipatório.
Uma baixa variação refletiria a utilização da referida
informação.
A hipótese de Lee, Young, Reddish, Lough e Clayton (1983) que a variação
das curvas dos ângulos normalizados do cotovelo em função
da variável óptica t , em um tempo anterior equivalente ao
retardo viso-motor [t (t-D t)], ao longo das tentativas, seria maior
que a variação das curvas dos mesmos valores dos ângulos
em função de TC não foi confirmada. A análise dos
dados mostrou uma variação mais acentuada das curvas dos ângulos
do cotovelo em função de t do que em função
de TC (Veja figuras 2 e 3).

|
Figura 2 - |
Expansão vertical das curvas do ângulo (normalizado de 0 a 100) do cotovelo do sujeito defensor durante o guedan barai, nas 10 tomadas, em função do Tau (s) |
Figura 3 - |
Expansão vertical das curvas do ângulo (normalizado de zero a 100) do cotovelo do sujeito defensor durante o guedan barai, nas 10 tomadas, em função do TC (s). |
Outro aspecto
interessante da variável óptica t , presente nas Figuras
2 e 3, se manifesta na diferença entre as escalas dos valores de t
e TC. Os valores de t são sempre maiores que os de TC, pois a variável
óptica t foi estabelecida, em princípio, para uma situação
de aproximação em velocidade constante. Isto não significa
que os seres humanos possam perceber e agir apenas neste caso, mas sim que os
valores de t seriam exatamente os mesmos de TC, a cada instante, se a aproximação
de um objeto ou plano ocorresse em velocidade constante.
Fazendo um paralelo com as afirmações de Lee, Young, Reddish,
Lough e Clayton (1983), algumas observações podem ser feitas:
1) os valores de t também sobrestimaram os valores de TC; 2) as
curvas de t X TC também tendem a convergir nas proximidades do contato,
porém percebe-se que os valores de t estão muito próximos
dos valores de TC apenas para, aproximadamente, valores menores que 0.15 s,
devido às grandes alterações na aceleração
do chute; e 3) neste caso, se qualquer valor particular de t fosse considerado,
não se poderia afirmar que o valor correspondente de TC seria maior quanto
maior fosse, por exemplo, a duração do chute. Isto ocorreu porque
o movimento de aproximação não estava sujeito a regularidade
do padrão de aceleração. Em síntese, como mostra
a Figura 4, estas afirmativas sugerem que apesar da aceleração
estar variando, t forneceu uma boa estimativa do TC para valores menores
que 0.15 s.

Figura 4 - A variável óptica t (s) em função do TC (s), nas 10 tomadas.
Os valores da
variável óptica t apresentados nas figuras 2, 3, 4 e 6 não
se referem unicamente à razão da distância do objeto em
aproximação ao plano do olho pela sua velocidade de aproximação,
mas sim a este valor em um intervalo de tempo anterior. Este intervalo hipotetizado
é um parâmetro de retardo viso-motor (D t), que é considerado
constante para um indivíduo executando uma ação particular
em um certo nível de habilidade. D t pode ser entendido como o intervalo
de tempo necessário para que o sistema possa utilizar t no controle.
Sendo assim, as figuras referem-se a t (t-D t).
Lee, Young, Reddish, Lough e Clayton (1983) obtiveram de seus dados uma estimativa
de D t entre 0.05 e 0.135 s. Outros estudos têm apresentado resultados
semelhantes referentes a este retardo. Nos estudos de Becker e Fuchs (1969)
sobre os movimentos sacádicos dos olhos, Carlton (1981) sobre ações
de pegada visualmente guiadas e Bootsma e van Wieringen (1990) sobre a batida
de ataque no tênis de mesa obtiveram, respectivamente, estimativas de
D t de 0.13, 0.135 e entre 0.105 e 0.156 s. Todos estes resultados de retardos
viso-motores, entretanto, parecem contrariar os estudos que, tradicionalmente,
apontam que o tempo de reação visual dura, ao menos, 0.2 s. Discutindo
esta questão, Lee, Young, Reddish, Lough e Clayton (1983) argumentaram
que a explicação para estes valores pode residir na natureza distinta
das tarefas envolvidas, supondo que o tempo gasto para reagir a um estímulo
discreto é maior que o tempo necessário para corrigir uma ação
em progresso, em resposta a uma informação visual continuamente
disponível. Concluindo, eles afirmaram que se o modelo por eles utilizado
foi apropriado para um determinado tipo de ação, diferentes valores
do parâmetro de retardo poderiam ser encontrados para tarefas que requerem
diferentes modos de usar a informação.
A estimativa de D t no presente estudo foi obtida pela computação
dos ângulos normalizados do cotovelo do sujeito defensor durante o Guedan
Barai contra os valores de t de zero a 0.2 s, em intervalos de 0.005
s, para as 10 tomadas. Então, EV foi calculada para este período
e determinado o ponto no qual EV foi mínima. Este intervalo da EV mínima
até o contato representou D t, cujo valor neste estudo foi de 0.165
s (Veja Figura 5).
Bootsma e van Wieringen (1990) argüíram que este ponto de mínima
variação de t (ou, a quantidade relativa de dilatação
- o inverso de t , como usaram) constitui uma evidência do último
momento de controle possível. Desta forma o tempo entre o ponto no qual
EV é mínimo e o ponto de contato refletiria o referido retardo
na utilização da informação visual no controle da
ação.

Figura 5 - Expansão vertical das curvas do ângulo (normalizado de zero a 100) do cotovelo do sujeito defensor durante o guedan barai, nas 10 tomadas, em função do t (s).
Os valores da variável óptica t obtidos para este estudo merecem, ainda, uma consideração especial. Os estudos que envolvem t têm trabalhado, principalmente, com a aproximação de objetos como bolas de diferentes tipos (Bootsma & van Wieringen, 1990; Lee, Young, Reddish, Lough & Clayton, 1983; Sardinha & Bootsma, 1993), ou mesmo com a aproximação do plano da água (Lee & Reddish, 1981), entre outros. Em todos eles a fonte de referência para a determinação experimental de t é um único ponto ou plano, pois a fonte de informação de TC é única.
No presente estudo ocorre uma situação de multiplicidade de fontes de TC, com diversos pontos de referência para a determinação de t . Após uma cuidadosa análise do chute Mae Gueri ter mostrado que diferentes pontos de preponderância no fornecimento da informação de TC se alternavam durante a ação, optou-se por uma composição de t , partindo destes pontos de referência.

Figura 6 - A variável óptica t (s), gerada com base na aproximação dos pontos do quadril, joelho e tornozelo do sujeito atacante ao plano do olho do sujeito defensor, em função do TC (s).
O chute Mae
Gueri, inicialmente, mostrou uma aproximação do tronco do
atacante, com a transferência do centro de gravidade a frente, antes mesmo
que o pé do chute deixasse o solo. Neste período a referência
foi o ponto da articulação do quadril, representando esta aproximação
do tronco. A seguir, a informação de TC preponderante foi a do
joelho que estava se elevando rapidamente. A referência para o cálculo
de t , então, passou a ser o ponto do joelho, representando a aproximação
do segmento da coxa. Finalmente, após o joelho atingir seu ponto de maior
elevação, a referência passou a ser o ponto do tornozelo,
representando a aproximação do segmento da canela.
Desta forma, as curvas de t apresentadas anteriormente foram compostas
por este método. A Figura 6 exemplifica uma tomada com as curvas do t
calculado a partir dos pontos de referência do quadril, joelho e tornozelo,
em função de TC. A curva final de t utilizou partes das curvas
de cada ponto de referência .
CONCLUSÕES
Os resultados
mostraram uma maior expansão vertical máxima das 10 curvas do
ângulo do cotovelo plotadas em função de t comparadas
as curvas dos mesmos ângulos plotados em função de TC. Isto
não suportou o uso da estratégia t no timing da ação
interceptiva Guedan Barai.
Mas é importante lembrar alguns pontos para reflexão. Primeiro,
a confirmação absoluta da hipótese da estratégia
t na literatura. Segundo, o modelo de controle proposto por Lee, Young,
Reddish, Lough e Clayton (1983) foi usado no presente estudo, mas houve as seguintes
diferenças:
1) Aceleração
variada no Mae Gueri;
2) A duração total da ação foi de 0,3 s;
3) A multiplicidade de fontes de informação de TC.
Estas diferenças citadas refletem um aumento da complexidade do problema
de pesquisa, se comparado com a literatura. Entretanto, é conveniente
enfatizar que a análise pode ter sido inapropriada ao nível de
complexidade do presente estudo.
NOTAS
1. Este artigo, baseado na Dissertação de Mestrado de mesmo título (Rodrigues, 1994), foi apresentado em forma de seminário ao LACOM/USP no dia 06/10/95.
2. professor do Departamento de Educação Física, UNESP - Campus de Bauru.
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