BOLETIM

LABORATÓRIO DE COMPORTAMENTO MOTOR

SETEMBRO V. 3 No 2 1996

ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Editor: Edison de J. Manoel

ÍNDICE

O geral e o específico no comportamento motor

Edison de J. Manoel .....................................................................................................1

Especificidade na aquisição de habilidades motoras

Luis A. Teixeira .............................................................................................................2

Conhecimento e habilidade motora

Luis Eduardo P.B.T. Dantas ......................................................................................6

EDITORIAL

O geral e o específico no comportamento motor

Uma das discussões mais calorosas no estudo do comportamento motor diz respeito à natureza geral ou específica de ações motoras habilidosas. Henry (1968) após a condução de uma série de experimentos argumentou em favor da hipótese de especificidade das habilidades motoras. Segundo Henry a correlação entre duas habilidades será sempre zero ou próxima desse valor, ainda que essas habilidades apresentem grandes similaridades entre si. A conseqüência dessa concepção é a de que a transferência entre habilidades deve ser sempre nula. Sabemos, no entanto, que a prática de uma dada habilidade acontece sobre algo que já existe (Connolly, 1970), aspecto essencial para explicarmos a evidente adaptabilidade demonstrada por indivíduos na realização de novas ações motoras habilidosas. Até que ponto essa adaptabilidade não se suporta em algum grau de generalização de experiências específicas é uma questão à espera de uma resposta.
Nos anos 70, Schmidt (1975) popularizou a visão de que pode haver um alto grau de generalização entre habilidades caso elas pertençam a uma mesma classe de movimentos. Através da formação e fortalecimento de um esquema motor para a avaliação e produção de programas motores seria possível realizar com sucesso várias tarefas motoras em diferentes circunstâncias. A natureza da classe de movimentos e, principalmente, o seus limites (quando um movimento deixa de fazer parte de um classe) são pontos de grande controvérsia entre pesquisadores.
O presente Boletim traz relatos que vão de encontro ao debate geral vs. específico nas habilidades motoras. Na Crônica Científica, Teixeira procura demonstrar que embora nós nos utilizemos de experiências prévias para realizar novos movimentos, há um alto grau de especificidade no comportamento motor em relação às condições de prática desse comportamento. As condições de utilização de informações sensoriais durante a prática vão influenciar de forma decisiva o desempenho motor em novas tarefas. No Ponto de Vista, Dantas reporta-se a um crescente número de evidências que ressaltam a influência decisiva na aprendizagem e desenvolvimento motor que pode ter o conhecimento específico de um dado contexto e habilidade. Capacidades tidas como gerais seja na percepção ou na efetuação motora parecem ser grandemente condicionadas pelo conhecimento específico que o indivíduo possui sobre uma dada tarefa motora. Com base nessas referências, Dantas propõe que devemos buscar um novo tipo de relacionamento entre os domínios cognitivo e motor do comportamento. De fato, há aspectos da cognição (conhecimento eclarativo, processual, base de conhecimento) que necessitam ser considerados na análise de habilidades motoras e de seu desenvolvimento.

Edison de J. Manoel

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CONNOLLY, K. J. (1970). Skill development: Problems and plans. In K. J. CONNOLLY (Ed.), Mechanisms of motor skill development. London: Academic Press.
HENRY, F. M. (1968). Specificity vs. generality in learning motor skill. In R. C. BROWN & G. S. KENYON (Eds.), Classical studies on physical activity. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall.
SCHMIDT, R. A. (1975). A schema theory of discrete motor skill learning. Psychological Review, 82, 225-260.

CRÔNICA CIENTÍFICA

ESPECIFICIDADE NA AQUISIÇÃO DE HABILIDADES MOTORAS

Luis Augusto Teixeira

A capacidade de tirar proveito de experiências prévias na produção de novos movimentos é uma propriedade notável em se tratando de controle motor, visto que a proficiência alcançada na aprendizagem de uma habilidade motora pode ser transferida, ao menos em parte, para outros segmentos corporais não utilizados durante a aquisição da habilidade, para diferentes condições de execução em relação à condição particular de prática, e até mesmo para habilidades motoras além daquelas praticadas. O outro lado da moeda, entretanto, é revelado quando se observa o prejuízo do desempenho habilidoso quando as condições específicas de aquisição de uma habilidade motora são modificadas. Tal perturbação do sistema de controle pode ser observada mesmo quando se passa de uma posição mais instável (em pé) para outra mais estável (sentado) em uma tarefa de tiro ao alvo, fazendo com que vários indicadores de proficiência de executantes habilidosos retornem aos patamares de iniciantes (cf. ARUTYUNYAN, GURFINKEL & MIRSKII, 1968).
O estudo de ARUTYUNYAN et al. (1968) indica que um dos principais elementos de controle perturbado é a coordenação entre os diferentes segmentos corporais responsáveis pelo posicionamento da arma, o que possibilita ao executante proficiente a compensação de oscilações em um segmento pela oscilação de outro(s) segmento(s) no sentido oposto, mantendo um baixo nível de dispersão da linha de tiro em relação ao alvo. Esse achado mostra que o sinergismo entre os vários segmentos corporais, desenvolvido ao longo de um extenso período de prática, pode ser quebrado com a modificação das condições de execução em que a tarefa foi aprendida. Evidência empírica mais recente tem mostrado que outro elemento de controle motor também se torna bastante específico conforme se adquire proficiência em uma tarefa motora, ou seja, a integração sensório-motora.
PROTEAU, MARTENIUK, GIROUARD & DUGAS (1987) investigaram a integração visomotora durante a aquisição de uma tarefa de contatar um alvo fixo com o dedo indicador, manipulando a disponibilidade de informação visual ao longo das tentativas de prática, isto é, visibilidade completa ou visibilidade apenas do alvo. Depois de uma quantidade moderada de tentativas, a condição praticando com visibilidade completa obteve os melhores resultados, tanto quando testada na mesma condição visual de prática como quando o teste foi feito na condição visual oposta. Após duas mil tentativas o grupo praticando com visibilidade plena conseguiu atingir um melhor índice de precisão na sua condição específica de prática, porém quando transferido para a condição de visibilidade restrita ao alvo seu desempenho foi significativamente inferior ao grupo praticando nestas condições. O mesmo efeito é observado quando se altera o teste de transferência para a condição de visibilidade completa, ou seja, o grupo que pratica a tarefa com informação visual reduzida passa por um acentuado declínio de desempenho quando testado com visibilidade completa, mesmo tendo mais sinais sensoriais potencialmente úteis ao controle disponíveis (PROTEAU, MARTENIUK & LEVESQUE, 1992).
Achados como os de ARUTYUNYAN et al. (1968) e PROTEAU et al. (1987, 1992) demonstram que, apesar da conhecida capacidade humana de se utilizar experiência prévia para a realização de novos movimentos, o comportamento motor habilidoso possui um alto grau de especificidade em relação as condições de prática em que foi adquirido (ver também ELLIOTT & JAEGER, 1988; FAYT, MINET & SEHEPENS, 1993; PROTEAU & COURNOYER, 1990; SMYTH, 1977, 1978). Tais achados se ajustam bem ao conceito de que aprendizagem motora consiste da busca de uma solução ótima para um problema que emerge da confluência de diferentes fontes de restrições, originárias do próprio aprendiz, do ambiente, e da tarefa específica (NEWELL, KUGLER, van EMMERIK & McDONALD, 1989). Colocando em outros termos, a aprendizagem de habilidades motoras representa o estabelecimento de estratégias preferenciais de controle, de forma que cada tentativa em uma tarefa motora particular contribui para o processo de seleção de unidades de controle e o modo de integração entre elas. Através da prática vários grupos neurais são integrados de diferentes maneiras, produzindo resultados de maior ou menor efetividade e eficiência. Como resultado, um mapa neural inicialmente genérico torna-se progressivamente especializado em sua função, recrutando e estabilizando aqueles grupos neurais revelando-se mais adaptados e econômicos para realizar determinada tarefa, incluindo aqui módulos neurais bastante especializados tais como reflexos (ver EVARTS, 1973) e geradores centrais de padrão (ver GRILLNER, 1975). Um importante papel da prática, assim, consiste em fortalecer aquelas estratégias de controle (configurações de grupos neurais) mais apropriadas, responsáveis pela integração intra e interníveis hierárquicos do sistema sensório-motor, e inibir aquelas estratégias que demonstrarem ser as menos úteis para a aquisição do objetivo. Tal proposição tem encontrado um suporte teórico mais robusto em abordagens conexionistas/selecionistas (ver EDELMAN, 1987; RUMELHART & McCLELLAND, 1986). EDELMAN (1987), em particular, tem proposto alguns princípios que podem estar por trás da integração entre populações neurais bastante dispersas, dando origem a mapas sensório-motores globais. Inicialmente, é proposta a estruturação do repertório secundário de redes neurais, a partir do repertório primário determinado principalmente por processos desenvolvimentistas, através da modificação da força das conexões sinápticas, intra e intergrupos neurais. Grupos neurais competem uns contra os outros para serem selecionados e tornarem-se parte daquela rede neural, tendo como principal critério de seleção seu valor adaptativo (SPORNS & EDELMAN, 1993). Isto é, restringido principalmente pela intenção ou plano de ação, o qual irá estabelecer os parâmetros para se avaliar o valor adaptativo de um grupo neural. Diferentes unidades de controle interagem dinamicamente com os sinais sensoriais de forma exploratória, de tal maneira que o organismo descobre as melhores soluções que satisfaçam as restrições impostas pela tarefa. Preferência é dada para a integração sensório-motora que mostra-se mais adaptada, passando esta a ter uma maior probabilidade de ser usada nas tentativas seguintes. O uso subseqüente fortalece as conexões da configuração neural mais adaptada, dando origem a um atrator do modo de controle em tarefas semelhantes. Em segundo lugar, embora o repertório secundário seja elaborado através de modificações estruturais nas conexões interneurais, favorecendo uma ação automática e cooperativa entre os membros de uma dada rede neural, isso não significa que o padrão de interconexões seja rigidamente estabelecido. A configuração do mapa sensório-motor pode variar dinamicamente como resultado de modificações dos sinais de entrada, assim como das exigências de resposta, o que implica um sistema capaz de cooptar flexivelmente as unidades de controle necessárias para a realização de uma tarefa específica. A mudança de algum componente da tarefa, gerando novas restrições, produz desestabilização do arranjo neural previamente selecionado, levando a um novo processo de seleção. A partir do referencial teórico acima exposto, a hipótese de especificidade de integração sensório-motora durante a aprendizagem foi testada em um delineamento experimental mais elaborado do que aqueles empregados por PROTEAU et al. (1987, 1992), ao comparar o desempenho de 3 grupos antes e após prática prolongada em uma tarefa envolvendo a sincronização de um movimento com o término do deslocamento linear de um estímulo luminoso: grupo LVC - simulação da rebatida de uma bola de tênis, com visibilidade completa do deslocamento do estímulo; grupo CVC - acionamento de um interruptor manual nas mesmas condições visuais; e grupo LOC - executando o mesmo movimento do grupo LVC, mas com oclusão dos últimos 302 ms do deslocamento do estímulo luminoso. Esses grupos foram submetidos a testes de transferência que constaram de diferentes condições visuais: (1) visibilidade completa, (2) oclusão de 101 ms, (3) oclusão de 202 ms, e (4) oclusão de 302 ms da porção final do deslocamento do estímulo. A Tabela 1 mostra os resultados relativos à precisão de resposta antes (Pré-teste) e após (Pós-teste) a prática da tarefa sincronizatória. O primeiro ponto importante a ser notado é que antes da aquisição de proficiência na tarefa a disponibilidade de informação visual foi de pouca utilidade para os sujeitos, visto que a comparação entre as 4 condições visuais não indicou diferenças significativas de desempenho em nenhum dos grupos. Após prática extensiva cada grupo mostrou ter desenvolvido uma integração visomotora específica para lidar com as restrições de informação visual que foram impostas. Os grupos praticando com visibilidade plena (LVC e CVC) passaram por um progressivo declínio de desempenho conforme o período de oclusão foi aumentado. O inverso ocorreu com o grupo LOC, em que o melhor desempenho foi observado nas condições de maior oclusão (repare que o nível de desempenho e o mesmo dos grupos com visibilidade completa), enquanto um prejuízo de desempenho equivalente ao dos outros grupos na condição de menor visibilidade ocorreu na condição de máxima visibilidade.

TABELA 1 - Precisão da resposta antes e após a prática

ERRO ABSOLUTO
PRE-TESTE SD
VC OC-101 OC-201 OC-302 VC OC-101 OC-201 OC-302
71,5 67,4 78,8 84,7 CVC 30,3 32,4 40,5 50,1
57,6 68,8 45,7 85,3 LVC 30,4 39,2 17,3 57,6
76,4 80,2 70,9 91,3 LOC 30,9 42,6 38,4 56,

PÓS-TESTE 1

VC OC-101 OC-201 OC-302 VC OC-101 OC-201 OC-302
34,3 38,8 48 96,3 CVC 11,1 7,9 24,2 39,9
46,2 67,6 76,4 89,9 LVC 22,1 27,5 31,5 29,1
61,3 77,6 51,2 50,4 LOC 22,9 38,6 21,9 16,2

PÓS-TESTE 2

VC OC-101 OC-201 OC-302 VC OC-101 OC-201 OC-302
28,7 50,3 41,5 72,2 CVC 12,8 16,2 11 18,3
33,5 49,7 57,6 70,5 LVC 11,6 23,2 29,3 36,3
64,6 66,9 33,9 29,4 LOC 21 25 12,1 11,4

Esses achados indicam que a integração visomotora promovida durante o processo de aprendizagem é especifica às condições presentes durante a aquisição. Os grupos praticando com visibilidade plena parecem ter se tornado "dependentes" de informação visual, uma vez que na ausência dessa fonte sensorial, num momento crítico da resposta, o nível de desempenho voltou aos patamares anteriores a prática. Por sua vez, os sujeitos praticando com visibilidade parcial parecem ter desenvolvido um mapa global conectando não apenas as unidades de entrada as unidades de saída, mas integrando também grupos neurais responsáveis por processos mais abstratos, tal como a simulação do deslocamento do estímulo luminoso a partir da observação de parte da trajetória. O nível de performance atingido nesta condição ao final da prática mostra que a representação do deslocamento do estímulo foi tão efetiva quando o próprio sinal visual para aquisição do objetivo.
Outro ponto importante a ser destacado e que antes da prática a redução de 302 ms da disponibilidade de informação visual não produziu alteração de desempenho em relação à visibilidade completa, ao passo que oclusão de 101 ms levou a um declínio significativo de desempenho dos grupos praticando com visibilidade completa no pós-teste. Esse resultado sugere que a latência para produção de ajustes da resposta ao final da etapa de aquisição tornou-se inferior a 101 ms, o que representa um aumento considerável da capacidade de integração visomotora em relação ao início da prática. Desde que este é um valor que está bem abaixo do tempo de reação visual para este tipo de tarefa (cf. TEIXEIRA, 1995), esse achado indica que um aspecto importante da constituição de um mapa sensório-motor efetivo é selecionar os grupos neurais mais apropriados, de forma que a função possa ser desempenhada com a precisão requerida e mínima sobrecarga do sistema. O passo seguinte corresponde ao aumento da força da sinalização reentrante entre as unidades selecionadas, através do uso repetido daquele mapa global, gerando um repertório secundário bem-definido que progressivamente assume o caráter de uma unidade funcional. Assim, depois de uma grande quantidade de tentativas o resultado final esperado é um mapa fortemente conectado, capaz de trabalhar com um maior volume de processamento paralelo e de gerar uma alta coerência entre sinais sensoriais e respostas motoras, que em linguagem comportamental significa um aumento da capacidade de utilizar refinadamente informação sensorial em um curto intervalo de tempo. Adicionalmente, como tem sido mostrado que, dependendo de sua natureza, informação visual pode ser processada em diferentes locos neurais (GOODALE & MILNER, 1992), pode-se conceber uma transferência do loco principal de controle de um centro superior para outro inferior na hierarquia de controle, resultando em um modo de controle predominantemente paralelo e mais rápido e, consequentemente, uma redução significativa da latência para se utilizar informação visual de forma adaptativa (ver HOUK & BARTO, 1992).
Em conclusão, nossos resultados estão de acordo com o referencial teórico preliminarmente exposto ao demonstrar uma especificidade de aprendizagem após várias tentativas de prática em condições visuais inalteradas, e uma redução no período de latência para utilização de informação visual no controle de ações sincronizatórias. Diversas questões, entretanto, permanecem abertas a investigação: Quão capaz é o sistema visomotor de detectar modificações no padrão de deslocamento de um estímulo em curtos intervalos de tempo, tais como este aqui observado para uso de informação visual, e ajustar a resposta em conformidade? Quais os efeitos da manipulação de diferentes tipos de restrição (ver MacKENZIE, 1992) sobre a integração visomotora? Qual a persistência do efeito de especificidade? Em que extensão a integração entre mapas sensoriais e motores pode ser transferida para tarefas motoras envolvendo componentes sensoriais ou motores semelhantes? A resposta a essas questões, e outras relacionadas, pode representar um importante passo para esclarecer princípios básicos que regulam a aprendizagem e controle de habilidades motoras.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARUTYUNYAN, G.A., GURFINKEL, V.S., & MIRSKII, M.L. (1968). Investigation of aiming at a target. Biofizika, 13(3), 536-538.
EDELMAN, G.M. (1987). Neural darwinism: The theory of neural group selection. New York: Basic.
ELLIOTT, D. & JAEGER, M. (1988). Practice and the visual control of manual aiming movements. Journal of Human Movement Studies, 14, 279-291.
EVARTS, E.V. (1973). Motor cortex reflexes associated with learned movements. Science, 179, 501-503.
FAYT, C., MINET, M. & SEHEPENS, N. (1993). Children's and adult's learning of a visuomanual coordination: Role of ongoing visual feedback and of spatial errors as a function of age. Perceptual and Motor Skills, 77, 659-669.
GOODALE, M.A, MILNER, A.D. (1992). Separate visual pathways for perception and action. Trends in Neurosciences, 15(1), 20-25.
GRILLNER, S. (1975). Locomotion in vertebrates: Central mechanisms and reflex interaction. Physiological Reviews, 55(2), 247-304.
HOUK, J.C. & BARTO, A.G. (1992). Distributed sensorimotor learning. In G.E. Stelmach & J. Requin (Eds.), Tutorials in motor behavior II (pp. 71-100). Amsterdam: North-Holland.
MacKENZIE, C.L. (1992). Constraints, phases and sensorimotor processing in prehension. In G.E. Stelmach & J. Requin (Eds.), Tutorials in motor behavior II (pp. 371-398). Amsterdam: North-Holland.
NEWELL, K.M., KUGLER, P.N., van EMMERIK, R.E.A. & McDONALD, P.V. (1989). Search strategies and the acquisition of coordination. In: S.A.Wallace (Ed.), Perspectives on the coordination of movement. Amsterdam: North-Holland.
PROTEAU, L & COURNOYER, J. (1990). Vision of the stylus in a manual aiming task: The effects of practice. Journal of Experimental Psychology, 42B(4), 811-828.
PROTEAU, L., MARTENIUK, R.G., GIROUARD, Y. & DUGAS, C. (1987). On the type of information used to control and learn an aiming movement after moderate and extensive training. Human Movement Science, 6, 181-199.
PROTEAU, L., MARTENIUK, R.G. & LÉVESQUE, L. (1992). A sensorimotor basis for motor learning: Evidence indicating specificity of practice. The Quarterly Journal of Experimental Psychology, 44A(3), 557-575.
RUMELHART, D.E. & McCLELLAND, J.L. (1986). Parallel distributed processing: Explorations in the microstructure of cognition: Vol. 1. Cambridge, Massachusets: MIT Press.
SMYTH, M.M. (1977). The effect of visual guidance on the acquisition of a simple motor task. Journal of Motor Behavior, 9(4), 275-284.
SMYTH, M.M. (1978). Attention to visual feedback in motor learning. Journal of Motor Behavior, 10(3), 185-190.
SPORNS, O. & EDELMAN, G.M. (1993). Solving Bernstein’s problem: A proposal for the development of coordinated movement by selection. Child Development, 64, 960-981.
TEIXEIRA, L.A. (1995). Períodos de latência para utilização de informação visual em condições de baixa e alta incerteza temporal. Revista Paulista de Educação Física, 9(2), 99-110.

 

PONTO DE VISTA

CONHECIMENTO E HABILIDADE MOTORA

Luiz Eduardo P.B.T. Dantas

A relação entre cognição e desempenho motor foi sempre tratada no sentido de identificar e demonstrar as possíveis contribuições do desenvolvimento motor na formação da inteligência da criança. Porém, a relação inversa nem sempre é explicada e, em conseqüência, sabemos muito pouco sobre a influência da cognição no desenvolvimento motor e mais particularmente sobre a performance de habilidades motoras.
Recentemente estudos voltados para a compreensão do alto rendimento esportivo tem levantado as seguintes questões: O que diferencia um atleta excepcional de outro comum? O que caracteriza um atleta de alto nível em esportes coletivos? É só uma questão de capacidades físicas e motoras? Ou haveriam outros fatores envolvidos, como aspectos cognitivos (percepção, atenção, tomada de decisão, conhecimento de base e etc) e motores (seleção de reposta, parametrização, execução de resposta e etc) e sua capacidade de utilizá-los na solução de problemas? Estudos atuais indicam que o conhecimento e sua utilização na solução de problemas são aspectos que diferenciam indivíduos extremamente habilidosos de indivíduos iniciantes em muitos domínios e particularmente no campo das habilidades esportivas. Estes resultados levam a uma série de questões. Por exemplo, como a formação do conhecimento é associada à aquisição da habilidade motora? Qual a natureza da relação entre o conhecimento sobre uma habilidade e o desempenho de uma tarefa que reflete a mesma habilidade? E de que forma esta relação se apresenta ao longo do desenvolvimento? Como podemos definir o conceito de conhecimento no âmbito do movimento? No campo da ciência cognitiva o conhecimento tem sido visto como o conteúdo representado nas estruturas de memória, estrutura esta vista como um interprocessamento entre a memória de curto prazo e memória de longo prazo. A memória de curto prazo ou memória de trabalho é vista atualmente como uma estrutura ativa, de capacidade limitada, em constante troca com a com a memória de longo prazo, ou base de conhecimento, de capacidade ilimitada.
A relação entre conhecimento e a performance foi inicialmente estudada por pesquisadores preocupados com o funcionamento da memória. Wall (1990) revisou alguns destes trabalhos. Dentre eles, Wall destaca a investigação de Groot publicada em 1965, que procurava entender porque mestres de xadrez jogavam melhor do que praticantes menos experientes. Os resultados sugerem que a diferença residia na capacidade da memória de trabalho. Os mestres relembravam com grande precisão as posições das peças, após uma exposição de 05 segundos. A seguir Wall aponta para, talvez o mais influente trabalho desta abordagem, o de Chase e Simon publicado em 1973. Neste trabalho eles replicaram o estudo de Groot, acrescentando uma outra tarefa: relembrar o posicionamento de posições aleatórias, ou seja, descontextualizadas do jogo. O resultado foi o mesmo obtido pôr Groot, quanto ao relembrar as posições das peças em uma situação de jogo. Entretanto não houve diferença significativa entre os mestres, intermediários e novatos na tarefa de memória em que o posicionamento das peças foi aleatório. Esse resultado mostrou que a capacidade de processar informações depende não só do número de itens a serem processados num dado intervalo de tempo, mas também do conhecimento sobre esses itens armazenados na memória. O delineamento utilizado por Chase e Simon passou a ser amplamente utilizado nas investigações sobre diferenças de processamento de informações entre crianças e adultos Seguindo esta abordagem, Chi (1978) apresentou a crianças de 10 anos de idade (especialistas em xadrez) e a estudantes universitários, alguns dígitos e posicionamentos de peças de xadrez para serem lembrados. Os resultados mostraram que os adultos lembravam mais dígitos que as crianças. Entretanto as crianças eram superiores na tarefa do posicionamento de peças, quando comparadas com adultos inexperientes em xadrez.
Em um outro estudo Chi e Koeske (1983) investigaram o efeito do conhecimento sobre o desempenho da memória em uma criança, em um domínio específico, na qual a criança fosse especialista. Neste trabalho os autores, geraram representações detalhadas do conhecimento sobre dinossauros de uma única criança de 05 anos de idade, e relacionaram estas estruturas (redes semânticas) com o desempenho do sujeito em tarefa de retenção. Apesar desta criança ser especialista neste domínio, foi possível distinguir e investigar subgrupos de dinossauros (mais conhecidos e menos conhecidos), e então construir representações semânticas para os dois grupos de dinossauros, incluindo os conceitos (nome do dinossauro e suas características) e suas inter-relações (características comuns). O grupo de dinossauros mais conhecido ou estruturado, isto é, conceitos mais bem definidos e mais inter-relações entre os conceitos, foi mais facilmente lembrado e retido após um período de um ano. Este trabalho sugere uma clara relação entre os detalhes de uma informação dentro da base de conhecimento e o desempenho da memória (Naus & Ornstein 1985), em oposição a visão tradicional de desenvolvimento cognitivo. Estes estudos foram importantes por dois motivos: Em primeiro lugar porque colocam o conhecimento (como conteúdo da memória de longo prazo, isto é base de conhecimento) como uma variável importante para explicar a natureza do comportamento proficiente. Em segundo lugar contribuíram para criação de modelos experimentais (estudos comparativos entre especialistas e iniciantes em um determinado domínio) e uma melhor categorização da natureza do conhecimento, inclusive no domínio motor.
Chi (1981) dividiu o conhecimento, segundo sua função na ação, em três tipos: Conhecimento DECLARATIVO, definido como conhecimento da informação factual; Conhecimento PROCESSUAL, definido como o "saber fazer uma determinada ação". Ambos são representações específicas de um determinado domínio. Temos também o conhecimento ESTRATÉGICO responsável pelo controle dos processos atuantes na ação. Chi (1981), Chi e Rees (1983), e Anderson (1982) citados pôr French, Thomas, Thomas & Gallagher (1988) sugerem que o conhecimento DECLARATIVO precisa ser desenvolvido primeiro, para fornecer um arcabouço para o desenvolvimento do conhecimento PROCESSUAL dentro de um determinado domínio. O conhecimento PROCESSUAL é desenvolvido como um conhecimento específico de como desempenhar determinadas tarefas dentro de um campo de Conhecimento. O conhecimento DECLARATIVO no estudo de habilidades esportivas refere-se ao conhecimento fatual armazenado na memória, representando o movimento, o indivíduo, o ambiente e suas inter-relações. Regras, definições e outros fatos do esporte são caracterizados com conhecimento declarativo, assim como dimensões corporais, culturais, psicológicas e físicas do movimento. Wall (1986) define o conhecimento DECLARATIVO como a informação factual armazenada na memória que pode influenciar o desenvolvimento e execução de ações habilidosas. Um exemplo pode ser a contribuição dos conhecimento sobre metabolismo ou ciclo energético (aeróbico, ATP-CP e anaeróbico) que contribuem para a determinação do desempenho de corredores. Como foi discutido acima, o conhecimento DECLARATIVO refere-se ao armazenamento e manipulação de informações sobre alguma ação, enquanto que o conhecimento PROCESSUAL refere-se a como fazer esta ação ou habilidade. O conhecimento PROCESSUAL está relacionado especificamente a solução de problema e tomada de decisão com relação ao movimento a ser desempenhado, mas está suportado pelo conhecimento declarativo (Gallagher, J; French, K; Thomas, K & Thomas, J; 1996). Na perspectiva da abordagem de base de conhecimento, o conhecimento PROCESSUAL do movimento é visto como algo que está por trás de todos os mecanismos envolvidos na organização do movimento, isto é, o perceptivo, o cognitivo (processamento de informações), iniciação de resposta e execução (Wall, 1986). Podemos dizer que o conhecimento PROCESSUAL manifesta-se na forma da própria ação motora. Isto é, conhecer processualmente a habilidade de andar de bicicleta significa ser capaz de andar de bicicleta. Já o conhecimento ESTRATÉGICO refere-se ao uso de regras gerais ou processos de controle para facilitar o processamento cognitivo (Gallagher et al, 1996). Podemos dizer que o conhecimento estratégico é a síntese do que sabemos fazer e do que conhecemos sobre este fazer. Os conhecimentos processual e declarativo são específicos a uma tarefa ou habilidade dentro de um domínio específico de conhecimento. O conhecimento estratégico refere-se a regras gerais que podem ser generalizadas para todos os domínios (Gallagher et al, 1996). Esta abordagem tem sido usada no estudo da performance habilidosa, principalmente em habilidades esportivas, na busca de subsídios que expliquem a natureza ou base da performance motora habilidosa. Um dos primeiros estudos que atacaram o papel do conhecimento de base no desempenho de habilidades motoras foi French & Thomas (1987). Eles hipotetizaram que, assim como em outros domínios, uma sólida base de conhecimento DECLARATIVO relativo ao esporte específico (basquete) é necessária para que o indivíduo tome decisões apropriadas dentro do contexto do jogo (conhecimento processual, ou como executar as ações dentro do contexto do jogo). Mas também é necessário um nível proficiente de habilidades motoras para executar as habilidades durante os jogo. Outros estudos também levantaram a relação entre conhecimento e o desempenho no domínio motor. Gallagher et al (1996), revisou uma série de experimentos que buscavam levantar as diferenças de processamento cognitivo entre os expertos esportivos e os indivíduos comuns. Nestes trabalhos os adultos expertos exibiram um desempenho perceptivo superior na antecipação do vôo de objetos (Abernethy,1988; Abernethy & Russel, 1987; badminton; Bard & Fleury, 1981, hóquei no gelo; Jones & Miles, 1978, tênis), no uso de estratégias de busca visual (Abernethy,1988; Abernethy & Russel, 1987, badminton; Bard & Fleury, 1976, basquete; Helsen & Bard, 1989, futebol) na detecção de estímulos relacionados com o jogo (Allard & Starkes, 1980, vôlei) e no reconhecimento de seqüências de movimento (Vickers, 1986, ginástica olímpica). Também foram detectadas várias diferenças cognitivas, como pôr exemplo, expertos relembram mais informações estruturadas com relação ao jogo (Allard & Burnett, 1985; Allard, Graham & Paarsula, 1980; Garland, 1989; Starkes, 1987), tomam decisões de jogo com maior rapidez e precisão (Bard & Fleury, 1973, basquete; Helsen & Bard, 1989, futebol; Starkes, 1987, hóquei na grama) e empregam diferentes processos cognitivos e representações de problema para monitorar situações de jogo em tempo real, prevendo possíveis desdobramentos do jogo e planejar ações antecipadamente (McPherson, 1993). A importância desta abordagem é que ela nos abre a perspectiva de investigar em um outro nível a natureza das habilidades motoras, modificando a visão clássica dos componentes cognitivos de uma habilidade motora . O papel da cognição, mais particularmente a base de conhecimento, atualmente restringe-se a fase inicial de aquisição ou fase cognitiva de aquisição da habilidade. Porém os estudos revisados nesta comunicação, principalmente Gallagher (1996), sugerem que a base de conhecimento tem um papel muito mais abrangente no desempenho proficiente de uma habilidade motora . E levantam que a natureza de um desempenho esperto em uma habilidade motora, está suportado em aspectos cognitivos ainda não incorporados no próprio conceito de habilidade, o que justifica novas pesquisas nesta área. Os resultados da aplicação deste referencial teórico, oriundo da psicologia cognitiva, no domínio das habilidades esportivas, demonstram a utilidade de tal instrumental. Porém precisamos entender inicialmente a história e limitações deste conceitos quando os generalizamos para o domínio motor. Isto é fundamental para avançarmos na investigação da natureza das relações do domínio cognitivo e motor.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Página disponibilizada em 28 de Maio de 1999
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