BOLETIM
LABORATÓRIO DE COMPORTAMENTO MOTOR
SETEMBRO V. 3 No 2 1996
ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Editor: Edison de J. Manoel
ÍNDICE
O geral e o específico no comportamento motor
Edison de J. Manoel .....................................................................................................1
Especificidade na aquisição de habilidades motoras
Luis A. Teixeira .............................................................................................................2
Conhecimento e habilidade motora
Luis Eduardo P.B.T. Dantas ......................................................................................6
EDITORIAL
O geral e o específico no comportamento motor
Uma das discussões mais calorosas no estudo do comportamento
motor diz respeito à natureza geral ou específica de ações
motoras habilidosas. Henry (1968) após a condução de uma
série de experimentos argumentou em favor da hipótese de especificidade
das habilidades motoras. Segundo Henry a correlação entre duas
habilidades será sempre zero ou próxima desse valor, ainda que
essas habilidades apresentem grandes similaridades entre si. A conseqüência
dessa concepção é a de que a transferência entre
habilidades deve ser sempre nula. Sabemos, no entanto, que a prática
de uma dada habilidade acontece sobre algo que já existe (Connolly, 1970),
aspecto essencial para explicarmos a evidente adaptabilidade demonstrada por
indivíduos na realização de novas ações motoras
habilidosas. Até que ponto essa adaptabilidade não se suporta
em algum grau de generalização de experiências específicas
é uma questão à espera de uma resposta.
Nos anos 70, Schmidt (1975) popularizou a visão de que pode haver um
alto grau de generalização entre habilidades caso elas pertençam
a uma mesma classe de movimentos. Através da formação e
fortalecimento de um esquema motor para a avaliação e produção
de programas motores seria possível realizar com sucesso várias
tarefas motoras em diferentes circunstâncias. A natureza da classe de
movimentos e, principalmente, o seus limites (quando um movimento deixa de fazer
parte de um classe) são pontos de grande controvérsia entre pesquisadores.
O presente Boletim traz relatos que vão de encontro ao debate geral vs.
específico nas habilidades motoras. Na Crônica Científica,
Teixeira procura demonstrar que embora nós nos utilizemos de experiências
prévias para realizar novos movimentos, há um alto grau de especificidade
no comportamento motor em relação às condições
de prática desse comportamento. As condições de utilização
de informações sensoriais durante a prática vão
influenciar de forma decisiva o desempenho motor em novas tarefas. No Ponto
de Vista, Dantas reporta-se a um crescente número de evidências
que ressaltam a influência decisiva na aprendizagem e desenvolvimento
motor que pode ter o conhecimento específico de um dado contexto e habilidade.
Capacidades tidas como gerais seja na percepção ou na efetuação
motora parecem ser grandemente condicionadas pelo conhecimento específico
que o indivíduo possui sobre uma dada tarefa motora. Com base nessas
referências, Dantas propõe que devemos buscar um novo tipo de relacionamento
entre os domínios cognitivo e motor do comportamento. De fato, há
aspectos da cognição (conhecimento eclarativo, processual, base
de conhecimento) que necessitam ser considerados na análise de habilidades
motoras e de seu desenvolvimento.
Edison de J. Manoel
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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SCHMIDT, R. A. (1975). A schema theory of discrete motor skill learning. Psychological
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CRÔNICA CIENTÍFICA
ESPECIFICIDADE NA AQUISIÇÃO DE HABILIDADES MOTORAS
Luis Augusto Teixeira
A capacidade de tirar proveito de experiências prévias
na produção de novos movimentos é uma propriedade notável
em se tratando de controle motor, visto que a proficiência alcançada
na aprendizagem de uma habilidade motora pode ser transferida, ao menos em parte,
para outros segmentos corporais não utilizados durante a aquisição
da habilidade, para diferentes condições de execução
em relação à condição particular de prática,
e até mesmo para habilidades motoras além daquelas praticadas.
O outro lado da moeda, entretanto, é revelado quando se observa o prejuízo
do desempenho habilidoso quando as condições específicas
de aquisição de uma habilidade motora são modificadas.
Tal perturbação do sistema de controle pode ser observada mesmo
quando se passa de uma posição mais instável (em pé)
para outra mais estável (sentado) em uma tarefa de tiro ao alvo, fazendo
com que vários indicadores de proficiência de executantes habilidosos
retornem aos patamares de iniciantes (cf. ARUTYUNYAN, GURFINKEL & MIRSKII,
1968).
O estudo de ARUTYUNYAN et al. (1968) indica que um dos principais elementos
de controle perturbado é a coordenação entre os diferentes
segmentos corporais responsáveis pelo posicionamento da arma, o que possibilita
ao executante proficiente a compensação de oscilações
em um segmento pela oscilação de outro(s) segmento(s) no sentido
oposto, mantendo um baixo nível de dispersão da linha de tiro
em relação ao alvo. Esse achado mostra que o sinergismo entre
os vários segmentos corporais, desenvolvido ao longo de um extenso período
de prática, pode ser quebrado com a modificação das condições
de execução em que a tarefa foi aprendida. Evidência empírica
mais recente tem mostrado que outro elemento de controle motor também
se torna bastante específico conforme se adquire proficiência em
uma tarefa motora, ou seja, a integração sensório-motora.
PROTEAU, MARTENIUK, GIROUARD & DUGAS (1987) investigaram a integração
visomotora durante a aquisição de uma tarefa de contatar um alvo
fixo com o dedo indicador, manipulando a disponibilidade de informação
visual ao longo das tentativas de prática, isto é, visibilidade
completa ou visibilidade apenas do alvo. Depois de uma quantidade moderada de
tentativas, a condição praticando com visibilidade completa obteve
os melhores resultados, tanto quando testada na mesma condição
visual de prática como quando o teste foi feito na condição
visual oposta. Após duas mil tentativas o grupo praticando com visibilidade
plena conseguiu atingir um melhor índice de precisão na sua condição
específica de prática, porém quando transferido para a
condição de visibilidade restrita ao alvo seu desempenho foi significativamente
inferior ao grupo praticando nestas condições. O mesmo efeito
é observado quando se altera o teste de transferência para a condição
de visibilidade completa, ou seja, o grupo que pratica a tarefa com informação
visual reduzida passa por um acentuado declínio de desempenho quando
testado com visibilidade completa, mesmo tendo mais sinais sensoriais potencialmente
úteis ao controle disponíveis (PROTEAU, MARTENIUK & LEVESQUE,
1992).
Achados como os de ARUTYUNYAN et al. (1968) e PROTEAU et al. (1987, 1992) demonstram
que, apesar da conhecida capacidade humana de se utilizar experiência
prévia para a realização de novos movimentos, o comportamento
motor habilidoso possui um alto grau de especificidade em relação
as condições de prática em que foi adquirido (ver também
ELLIOTT & JAEGER, 1988; FAYT, MINET & SEHEPENS, 1993; PROTEAU &
COURNOYER, 1990; SMYTH, 1977, 1978). Tais achados se ajustam bem ao conceito
de que aprendizagem motora consiste da busca de uma solução ótima
para um problema que emerge da confluência de diferentes fontes de restrições,
originárias do próprio aprendiz, do ambiente, e da tarefa específica
(NEWELL, KUGLER, van EMMERIK & McDONALD, 1989). Colocando em outros termos,
a aprendizagem de habilidades motoras representa o estabelecimento de estratégias
preferenciais de controle, de forma que cada tentativa em uma tarefa motora
particular contribui para o processo de seleção de unidades de
controle e o modo de integração entre elas. Através da
prática vários grupos neurais são integrados de diferentes
maneiras, produzindo resultados de maior ou menor efetividade e eficiência.
Como resultado, um mapa neural inicialmente genérico torna-se progressivamente
especializado em sua função, recrutando e estabilizando aqueles
grupos neurais revelando-se mais adaptados e econômicos para realizar
determinada tarefa, incluindo aqui módulos neurais bastante especializados
tais como reflexos (ver EVARTS, 1973) e geradores centrais de padrão
(ver GRILLNER, 1975). Um importante papel da prática, assim, consiste
em fortalecer aquelas estratégias de controle (configurações
de grupos neurais) mais apropriadas, responsáveis pela integração
intra e interníveis hierárquicos do sistema sensório-motor,
e inibir aquelas estratégias que demonstrarem ser as menos úteis
para a aquisição do objetivo. Tal proposição tem
encontrado um suporte teórico mais robusto em abordagens conexionistas/selecionistas
(ver EDELMAN, 1987; RUMELHART & McCLELLAND, 1986). EDELMAN (1987), em particular,
tem proposto alguns princípios que podem estar por trás da integração
entre populações neurais bastante dispersas, dando origem a mapas
sensório-motores globais. Inicialmente, é proposta a estruturação
do repertório secundário de redes neurais, a partir do repertório
primário determinado principalmente por processos desenvolvimentistas,
através da modificação da força das conexões
sinápticas, intra e intergrupos neurais. Grupos neurais competem uns
contra os outros para serem selecionados e tornarem-se parte daquela rede neural,
tendo como principal critério de seleção seu valor adaptativo
(SPORNS & EDELMAN, 1993). Isto é, restringido principalmente pela
intenção ou plano de ação, o qual irá estabelecer
os parâmetros para se avaliar o valor adaptativo de um grupo neural. Diferentes
unidades de controle interagem dinamicamente com os sinais sensoriais de forma
exploratória, de tal maneira que o organismo descobre as melhores soluções
que satisfaçam as restrições impostas pela tarefa. Preferência
é dada para a integração sensório-motora que mostra-se
mais adaptada, passando esta a ter uma maior probabilidade de ser usada nas
tentativas seguintes. O uso subseqüente fortalece as conexões da
configuração neural mais adaptada, dando origem a um atrator do
modo de controle em tarefas semelhantes. Em segundo lugar, embora o repertório
secundário seja elaborado através de modificações
estruturais nas conexões interneurais, favorecendo uma ação
automática e cooperativa entre os membros de uma dada rede neural, isso
não significa que o padrão de interconexões seja rigidamente
estabelecido. A configuração do mapa sensório-motor pode
variar dinamicamente como resultado de modificações dos sinais
de entrada, assim como das exigências de resposta, o que implica um sistema
capaz de cooptar flexivelmente as unidades de controle necessárias para
a realização de uma tarefa específica. A mudança
de algum componente da tarefa, gerando novas restrições, produz
desestabilização do arranjo neural previamente selecionado, levando
a um novo processo de seleção. A partir do referencial teórico
acima exposto, a hipótese de especificidade de integração
sensório-motora durante a aprendizagem foi testada em um delineamento
experimental mais elaborado do que aqueles empregados por PROTEAU et al. (1987,
1992), ao comparar o desempenho de 3 grupos antes e após prática
prolongada em uma tarefa envolvendo a sincronização de um movimento
com o término do deslocamento linear de um estímulo luminoso:
grupo LVC - simulação da rebatida de uma bola de tênis,
com visibilidade completa do deslocamento do estímulo; grupo CVC - acionamento
de um interruptor manual nas mesmas condições visuais; e grupo
LOC - executando o mesmo movimento do grupo LVC, mas com oclusão dos
últimos 302 ms do deslocamento do estímulo luminoso. Esses grupos
foram submetidos a testes de transferência que constaram de diferentes
condições visuais: (1) visibilidade completa, (2) oclusão
de 101 ms, (3) oclusão de 202 ms, e (4) oclusão de 302 ms da porção
final do deslocamento do estímulo. A Tabela 1 mostra os resultados relativos
à precisão de resposta antes (Pré-teste) e após
(Pós-teste) a prática da tarefa sincronizatória. O primeiro
ponto importante a ser notado é que antes da aquisição
de proficiência na tarefa a disponibilidade de informação
visual foi de pouca utilidade para os sujeitos, visto que a comparação
entre as 4 condições visuais não indicou diferenças
significativas de desempenho em nenhum dos grupos. Após prática
extensiva cada grupo mostrou ter desenvolvido uma integração visomotora
específica para lidar com as restrições de informação
visual que foram impostas. Os grupos praticando com visibilidade plena (LVC
e CVC) passaram por um progressivo declínio de desempenho conforme o
período de oclusão foi aumentado. O inverso ocorreu com o grupo
LOC, em que o melhor desempenho foi observado nas condições de
maior oclusão (repare que o nível de desempenho e o mesmo dos
grupos com visibilidade completa), enquanto um prejuízo de desempenho
equivalente ao dos outros grupos na condição de menor visibilidade
ocorreu na condição de máxima visibilidade.
TABELA 1 - Precisão da resposta antes e após a prática
ERRO ABSOLUTO
PRE-TESTE SD
VC OC-101 OC-201 OC-302 VC OC-101 OC-201 OC-302
71,5 67,4 78,8 84,7 CVC 30,3 32,4 40,5 50,1
57,6 68,8 45,7 85,3 LVC 30,4 39,2 17,3 57,6
76,4 80,2 70,9 91,3 LOC 30,9 42,6 38,4 56,
PÓS-TESTE 1
VC OC-101 OC-201 OC-302 VC OC-101 OC-201 OC-302
34,3 38,8 48 96,3 CVC 11,1 7,9 24,2 39,9
46,2 67,6 76,4 89,9 LVC 22,1 27,5 31,5 29,1
61,3 77,6 51,2 50,4 LOC 22,9 38,6 21,9 16,2
PÓS-TESTE 2
VC OC-101 OC-201 OC-302 VC OC-101 OC-201 OC-302
28,7 50,3 41,5 72,2 CVC 12,8 16,2 11 18,3
33,5 49,7 57,6 70,5 LVC 11,6 23,2 29,3 36,3
64,6 66,9 33,9 29,4 LOC 21 25 12,1 11,4
Esses achados indicam que a integração visomotora
promovida durante o processo de aprendizagem é especifica às condições
presentes durante a aquisição. Os grupos praticando com visibilidade
plena parecem ter se tornado "dependentes" de informação
visual, uma vez que na ausência dessa fonte sensorial, num momento crítico
da resposta, o nível de desempenho voltou aos patamares anteriores a
prática. Por sua vez, os sujeitos praticando com visibilidade parcial
parecem ter desenvolvido um mapa global conectando não apenas as unidades
de entrada as unidades de saída, mas integrando também grupos
neurais responsáveis por processos mais abstratos, tal como a simulação
do deslocamento do estímulo luminoso a partir da observação
de parte da trajetória. O nível de performance atingido nesta
condição ao final da prática mostra que a representação
do deslocamento do estímulo foi tão efetiva quando o próprio
sinal visual para aquisição do objetivo.
Outro ponto importante a ser destacado e que antes da prática a redução
de 302 ms da disponibilidade de informação visual não produziu
alteração de desempenho em relação à visibilidade
completa, ao passo que oclusão de 101 ms levou a um declínio significativo
de desempenho dos grupos praticando com visibilidade completa no pós-teste.
Esse resultado sugere que a latência para produção de ajustes
da resposta ao final da etapa de aquisição tornou-se inferior
a 101 ms, o que representa um aumento considerável da capacidade de integração
visomotora em relação ao início da prática. Desde
que este é um valor que está bem abaixo do tempo de reação
visual para este tipo de tarefa (cf. TEIXEIRA, 1995), esse achado indica que
um aspecto importante da constituição de um mapa sensório-motor
efetivo é selecionar os grupos neurais mais apropriados, de forma que
a função possa ser desempenhada com a precisão requerida
e mínima sobrecarga do sistema. O passo seguinte corresponde ao aumento
da força da sinalização reentrante entre as unidades selecionadas,
através do uso repetido daquele mapa global, gerando um repertório
secundário bem-definido que progressivamente assume o caráter
de uma unidade funcional. Assim, depois de uma grande quantidade de tentativas
o resultado final esperado é um mapa fortemente conectado, capaz de trabalhar
com um maior volume de processamento paralelo e de gerar uma alta coerência
entre sinais sensoriais e respostas motoras, que em linguagem comportamental
significa um aumento da capacidade de utilizar refinadamente informação
sensorial em um curto intervalo de tempo. Adicionalmente, como tem sido mostrado
que, dependendo de sua natureza, informação visual pode ser processada
em diferentes locos neurais (GOODALE & MILNER, 1992), pode-se conceber uma
transferência do loco principal de controle de um centro superior para
outro inferior na hierarquia de controle, resultando em um modo de controle
predominantemente paralelo e mais rápido e, consequentemente, uma redução
significativa da latência para se utilizar informação visual
de forma adaptativa (ver HOUK & BARTO, 1992).
Em conclusão, nossos resultados estão de acordo com o referencial
teórico preliminarmente exposto ao demonstrar uma especificidade de aprendizagem
após várias tentativas de prática em condições
visuais inalteradas, e uma redução no período de latência
para utilização de informação visual no controle
de ações sincronizatórias. Diversas questões, entretanto,
permanecem abertas a investigação: Quão capaz é
o sistema visomotor de detectar modificações no padrão
de deslocamento de um estímulo em curtos intervalos de tempo, tais como
este aqui observado para uso de informação visual, e ajustar a
resposta em conformidade? Quais os efeitos da manipulação de diferentes
tipos de restrição (ver MacKENZIE, 1992) sobre a integração
visomotora? Qual a persistência do efeito de especificidade? Em que extensão
a integração entre mapas sensoriais e motores pode ser transferida
para tarefas motoras envolvendo componentes sensoriais ou motores semelhantes?
A resposta a essas questões, e outras relacionadas, pode representar
um importante passo para esclarecer princípios básicos que regulam
a aprendizagem e controle de habilidades motoras.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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PONTO DE VISTA
CONHECIMENTO E HABILIDADE MOTORA
Luiz Eduardo P.B.T. Dantas
A relação entre cognição
e desempenho motor foi sempre tratada no sentido de identificar e demonstrar
as possíveis contribuições do desenvolvimento motor na
formação da inteligência da criança. Porém,
a relação inversa nem sempre é explicada e, em conseqüência,
sabemos muito pouco sobre a influência da cognição no desenvolvimento
motor e mais particularmente sobre a performance de habilidades motoras.
Recentemente estudos voltados para a compreensão do alto rendimento esportivo
tem levantado as seguintes questões: O que diferencia um atleta excepcional
de outro comum? O que caracteriza um atleta de alto nível em esportes
coletivos? É só uma questão de capacidades físicas
e motoras? Ou haveriam outros fatores envolvidos, como aspectos cognitivos (percepção,
atenção, tomada de decisão, conhecimento de base e etc)
e motores (seleção de reposta, parametrização, execução
de resposta e etc) e sua capacidade de utilizá-los na solução
de problemas? Estudos atuais indicam que o conhecimento e sua utilização
na solução de problemas são aspectos que diferenciam indivíduos
extremamente habilidosos de indivíduos iniciantes em muitos domínios
e particularmente no campo das habilidades esportivas. Estes resultados levam
a uma série de questões. Por exemplo, como a formação
do conhecimento é associada à aquisição da habilidade
motora? Qual a natureza da relação entre o conhecimento sobre
uma habilidade e o desempenho de uma tarefa que reflete a mesma habilidade?
E de que forma esta relação se apresenta ao longo do desenvolvimento?
Como podemos definir o conceito de conhecimento no âmbito do movimento?
No campo da ciência cognitiva o conhecimento tem sido visto como o conteúdo
representado nas estruturas de memória, estrutura esta vista como um
interprocessamento entre a memória de curto prazo e memória de
longo prazo. A memória de curto prazo ou memória de trabalho é
vista atualmente como uma estrutura ativa, de capacidade limitada, em constante
troca com a com a memória de longo prazo, ou base de conhecimento, de
capacidade ilimitada.
A relação entre conhecimento e a performance foi inicialmente
estudada por pesquisadores preocupados com o funcionamento da memória.
Wall (1990) revisou alguns destes trabalhos. Dentre eles, Wall destaca a investigação
de Groot publicada em 1965, que procurava entender porque mestres de xadrez
jogavam melhor do que praticantes menos experientes. Os resultados sugerem que
a diferença residia na capacidade da memória de trabalho. Os mestres
relembravam com grande precisão as posições das peças,
após uma exposição de 05 segundos. A seguir Wall aponta
para, talvez o mais influente trabalho desta abordagem, o de Chase e Simon publicado
em 1973. Neste trabalho eles replicaram o estudo de Groot, acrescentando uma
outra tarefa: relembrar o posicionamento de posições aleatórias,
ou seja, descontextualizadas do jogo. O resultado foi o mesmo obtido pôr
Groot, quanto ao relembrar as posições das peças em uma
situação de jogo. Entretanto não houve diferença
significativa entre os mestres, intermediários e novatos na tarefa de
memória em que o posicionamento das peças foi aleatório.
Esse resultado mostrou que a capacidade de processar informações
depende não só do número de itens a serem processados num
dado intervalo de tempo, mas também do conhecimento sobre esses itens
armazenados na memória. O delineamento utilizado por Chase e Simon passou
a ser amplamente utilizado nas investigações sobre diferenças
de processamento de informações entre crianças e adultos
Seguindo esta abordagem, Chi (1978) apresentou a crianças de 10 anos
de idade (especialistas em xadrez) e a estudantes universitários, alguns
dígitos e posicionamentos de peças de xadrez para serem lembrados.
Os resultados mostraram que os adultos lembravam mais dígitos que as
crianças. Entretanto as crianças eram superiores na tarefa do
posicionamento de peças, quando comparadas com adultos inexperientes
em xadrez.
Em um outro estudo Chi e Koeske (1983) investigaram o efeito do conhecimento
sobre o desempenho da memória em uma criança, em um domínio
específico, na qual a criança fosse especialista. Neste trabalho
os autores, geraram representações detalhadas do conhecimento
sobre dinossauros de uma única criança de 05 anos de idade, e
relacionaram estas estruturas (redes semânticas) com o desempenho do sujeito
em tarefa de retenção. Apesar desta criança ser especialista
neste domínio, foi possível distinguir e investigar subgrupos
de dinossauros (mais conhecidos e menos conhecidos), e então construir
representações semânticas para os dois grupos de dinossauros,
incluindo os conceitos (nome do dinossauro e suas características) e
suas inter-relações (características comuns). O grupo de
dinossauros mais conhecido ou estruturado, isto é, conceitos mais bem
definidos e mais inter-relações entre os conceitos, foi mais facilmente
lembrado e retido após um período de um ano. Este trabalho sugere
uma clara relação entre os detalhes de uma informação
dentro da base de conhecimento e o desempenho da memória (Naus &
Ornstein 1985), em oposição a visão tradicional de desenvolvimento
cognitivo. Estes estudos foram importantes por dois motivos: Em primeiro lugar
porque colocam o conhecimento (como conteúdo da memória de longo
prazo, isto é base de conhecimento) como uma variável importante
para explicar a natureza do comportamento proficiente. Em segundo lugar contribuíram
para criação de modelos experimentais (estudos comparativos entre
especialistas e iniciantes em um determinado domínio) e uma melhor categorização
da natureza do conhecimento, inclusive no domínio motor.
Chi (1981) dividiu o conhecimento, segundo sua função na ação,
em três tipos: Conhecimento DECLARATIVO, definido como conhecimento da
informação factual; Conhecimento PROCESSUAL, definido como o "saber
fazer uma determinada ação". Ambos são representações
específicas de um determinado domínio. Temos também o conhecimento
ESTRATÉGICO responsável pelo controle dos processos atuantes na
ação. Chi (1981), Chi e Rees (1983), e Anderson (1982) citados
pôr French, Thomas, Thomas & Gallagher (1988) sugerem que o conhecimento
DECLARATIVO precisa ser desenvolvido primeiro, para fornecer um arcabouço
para o desenvolvimento do conhecimento PROCESSUAL dentro de um determinado domínio.
O conhecimento PROCESSUAL é desenvolvido como um conhecimento específico
de como desempenhar determinadas tarefas dentro de um campo de Conhecimento.
O conhecimento DECLARATIVO no estudo de habilidades esportivas refere-se
ao conhecimento fatual armazenado na memória, representando o movimento,
o indivíduo, o ambiente e suas inter-relações. Regras,
definições e outros fatos do esporte são caracterizados
com conhecimento declarativo, assim como dimensões corporais, culturais,
psicológicas e físicas do movimento. Wall (1986) define o conhecimento
DECLARATIVO como a informação factual armazenada na memória
que pode influenciar o desenvolvimento e execução de ações
habilidosas. Um exemplo pode ser a contribuição dos conhecimento
sobre metabolismo ou ciclo energético (aeróbico, ATP-CP e anaeróbico)
que contribuem para a determinação do desempenho de corredores.
Como foi discutido acima, o conhecimento DECLARATIVO refere-se ao armazenamento
e manipulação de informações sobre alguma ação,
enquanto que o conhecimento PROCESSUAL refere-se a como fazer esta ação
ou habilidade. O conhecimento PROCESSUAL está relacionado especificamente
a solução de problema e tomada de decisão com relação
ao movimento a ser desempenhado, mas está suportado pelo conhecimento
declarativo (Gallagher, J; French, K; Thomas, K & Thomas, J; 1996). Na perspectiva
da abordagem de base de conhecimento, o conhecimento PROCESSUAL do movimento
é visto como algo que está por trás de todos os mecanismos
envolvidos na organização do movimento, isto é, o perceptivo,
o cognitivo (processamento de informações), iniciação
de resposta e execução (Wall, 1986). Podemos dizer que o conhecimento
PROCESSUAL manifesta-se na forma da própria ação motora.
Isto é, conhecer processualmente a habilidade de andar de bicicleta significa
ser capaz de andar de bicicleta. Já o conhecimento ESTRATÉGICO
refere-se ao uso de regras gerais ou processos de controle para facilitar o
processamento cognitivo (Gallagher et al, 1996). Podemos dizer que o conhecimento
estratégico é a síntese do que sabemos fazer e do que conhecemos
sobre este fazer. Os conhecimentos processual e declarativo são específicos
a uma tarefa ou habilidade dentro de um domínio específico de
conhecimento. O conhecimento estratégico refere-se a regras gerais que
podem ser generalizadas para todos os domínios (Gallagher et al, 1996).
Esta abordagem tem sido usada no estudo da performance habilidosa, principalmente
em habilidades esportivas, na busca de subsídios que expliquem a natureza
ou base da performance motora habilidosa. Um dos primeiros estudos que atacaram
o papel do conhecimento de base no desempenho de habilidades motoras foi French
& Thomas (1987). Eles hipotetizaram que, assim como em outros domínios,
uma sólida base de conhecimento DECLARATIVO relativo ao esporte específico
(basquete) é necessária para que o indivíduo tome decisões
apropriadas dentro do contexto do jogo (conhecimento processual, ou como executar
as ações dentro do contexto do jogo). Mas também é
necessário um nível proficiente de habilidades motoras para executar
as habilidades durante os jogo. Outros estudos também levantaram a relação
entre conhecimento e o desempenho no domínio motor. Gallagher et al (1996),
revisou uma série de experimentos que buscavam levantar as diferenças
de processamento cognitivo entre os expertos esportivos e os indivíduos
comuns. Nestes trabalhos os adultos expertos exibiram um desempenho perceptivo
superior na antecipação do vôo de objetos (Abernethy,1988;
Abernethy & Russel, 1987; badminton; Bard & Fleury, 1981, hóquei
no gelo; Jones & Miles, 1978, tênis), no uso de estratégias
de busca visual (Abernethy,1988; Abernethy & Russel, 1987, badminton; Bard
& Fleury, 1976, basquete; Helsen & Bard, 1989, futebol) na detecção
de estímulos relacionados com o jogo (Allard & Starkes, 1980, vôlei)
e no reconhecimento de seqüências de movimento (Vickers, 1986, ginástica
olímpica). Também foram detectadas várias diferenças
cognitivas, como pôr exemplo, expertos relembram mais informações
estruturadas com relação ao jogo (Allard & Burnett, 1985;
Allard, Graham & Paarsula, 1980; Garland, 1989; Starkes, 1987), tomam decisões
de jogo com maior rapidez e precisão (Bard & Fleury, 1973, basquete;
Helsen & Bard, 1989, futebol; Starkes, 1987, hóquei na grama) e empregam
diferentes processos cognitivos e representações de problema para
monitorar situações de jogo em tempo real, prevendo possíveis
desdobramentos do jogo e planejar ações antecipadamente (McPherson,
1993). A importância desta abordagem é que ela nos abre a perspectiva
de investigar em um outro nível a natureza das habilidades motoras, modificando
a visão clássica dos componentes cognitivos de uma habilidade
motora . O papel da cognição, mais particularmente a base de conhecimento,
atualmente restringe-se a fase inicial de aquisição ou fase cognitiva
de aquisição da habilidade. Porém os estudos revisados
nesta comunicação, principalmente Gallagher (1996), sugerem que
a base de conhecimento tem um papel muito mais abrangente no desempenho proficiente
de uma habilidade motora . E levantam que a natureza de um desempenho esperto
em uma habilidade motora, está suportado em aspectos cognitivos ainda
não incorporados no próprio conceito de habilidade, o que justifica
novas pesquisas nesta área. Os resultados da aplicação
deste referencial teórico, oriundo da psicologia cognitiva, no domínio
das habilidades esportivas, demonstram a utilidade de tal instrumental. Porém
precisamos entender inicialmente a história e limitações
deste conceitos quando os generalizamos para o domínio motor. Isto é
fundamental para avançarmos na investigação da natureza
das relações do domínio cognitivo e motor.
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Departamento de Pedagogia do Movimento do Corpo Humano
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Página disponibilizada em
28 de Maio de 1999
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