BOLETIM
LABORATÓRIO DE COMPORTAMENTO MOTOR
AGOSTO V. 4 No 2 1997
ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA & ESPORTE UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Editor: Edison de J. Manoel
ÍNDICE
Estados dinâmicos e mudanças no comportamento
Edison de J. Manoel........................................................................................................... 1
Estado de desenvolvimento motor e variação numa restrição da tarefa: dados preliminares sobre a análise da habilidade arremessar
Jorge Alberto de Oliveira & Edison J. Manoel........................................................................ 2
Processo adaptativo na aquisição
de habilidades motoras
Rodolfo Novellino Benda........................................................................................................
6
EDITORIAL
Estados dinâmicos e mudanças no comportamento motor
Desenvolvimento motor
e aprendizagem motora são objetos de estudo de áreas com metodologias
de pesquisa distintas e bem definidas. Entretanto, até que ponto esses
fenômenos são distintos? O desenvolvimento motor refere-se a mudanças
em classes gerais de comportamento (locomoção, estabilidade, manipulação)
associadas a períodos que compõem o ciclo da vida. A aprendizagem
motora também refere-se a mudanças no comportamento mas numa habilidade
específica e associadas a um período de prática sistemática
dessa tarefa. Ou seja, uma das principais distinções entre aprendizagem
e desenvolvimento refere-se à escala de tempo utilizada para verificar
as mudanças no comportamento. Quando se considera que indivíduos
são sistemas abertos (cf. Bertalanffy, 1977), não há muito
sentido em tratar o desenvolvimento dissociado da aprendizagem. O aspecto principal
é o processo que gera mudanças nos padrões de organização
ao longo do tempo. Nesse processo, o sistema passa por estados de complexidade
organizada crescentes. Denominar essas mudanças como sendo oriundas da
aprendizagem ou do desenvolvimento é apenas uma questão da escala
temporal adotada. Apesar disso, as implicações são cruciais
pois juntamente com a dimensão temporal encontra-se um conjunto de fatores
do ambiente, da tarefa e do organismo cuja relação nós
apenas começamos a compreender.
O presente boletim traz duas contribuições que nos fazem refletir
sobre os cuidados em distinguir aprendizagem do desenvolvimento enquanto fenômeno.
Ambas tem como preocupação, estudar processos ou mudanças
no comportamento numa perspectiva dinâmica. Na crônica científica,
Oliveira & Manoel trazem dados preliminares sobre a caracterização
do estado de desenvolvimento como sendo condicionado às variações
numa restrição da tarefa. Em se tratando de um estudo descritivo
o foco de atenção incide sobre restrições da tarefa
e do ambiente que interagem com as do indivíduo, condicionando seu desempenho
motor num dado instante. A forma como essa interação ocorre e
os efeitos que ela exerce no desempenho necessitam ser apurados em detalhe para
que se possa descrever com mais propriedade cada estado de desenvolvimento,
qualificando-o como mais ou menos avançado. O estado de desenvolvimento
refletiria o estado dinâmico do sistema ("steady-state") num
dado instante, ao longo do eixo temporal de vida desse sistema.
Na seção Ponto de Vista, Benda discorre sobre o impacto de mudanças
paradigmáticas na Ciência para o levantamento de um problema central
no estudo da aquisição de habilidades motoras: a tendência
para aumento da complexidade. Novamente a distinção aprendizagem
e desenvolvimento perde sentido pois o que importa é que o sistema esteja
num processo em busca de maior complexidade organizada. De fato, Benda ressalta
que as teorias tradicionais de aprendizagem motora são limitadas seja
para caracterizar os estados dinâmicos do comportamento, seja para compreender
as mudanças estruturais que geram novos estados. Benda ressalta vários
problemas que se originam da desconsideração de aspectos importantes
do indivíduo como um sistema aberto.
Assim, a Crônica Científica e o Ponto de Vista oferecem exemplos
de estudos e preocupações que não cabem sob o rótulo
de uma ou outra área. Em essência, os dois trabalhos apresentados
no Boletim apontam para duas necessidades básicas (a) é preciso
analisar o sistema de ação e as restrições atuantes
na definição de seu estado, e (b) abordar o processo de mudança
desses estados em direção ao aumento de complexidade.
REFRERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bertalantty, L. von (1977). Teoria geral dos sistemas. Petropólis: Editora Vozes.
Edison de Jesus Manoel
CRÔNICA CIENTÍFIC
Estado de desenvolvimento motor e variação numa restrição da tarefa: dados preliminares sobre a análise da habilidade arremessar
Jorge Alberto de Oliveira
Edison de J. Manoel
A tentativa de formular
questões que sejam mais relevantes para a compreensão do desenvolvimento
motor vem de longa data. Até os anos 70, os estudos eram voltados para
as questões do tipo "o que" e "quando" um dado comportamento
se modifica (abordagem orientada ao produto). Desde então, os estudos
voltaram-se para o processo com questões do tipo "como" um
dado comportamento se modifica. Na segunda perspectiva, o desenvolvimento motor
é visto como um processo onde há um progresso de movimentos simples
e desordenados para movimentos específicos, ordenados e crescentemente
mais complexos (Haywood, 1986). Do ponto de vista do processo, o desenvolvimento
resultaria de uma melhor capacidade para controlar movimentos (Keogh, 1977).
Entretanto, como as pesquisas tornam evidente, o processo de desenvolvimento
envolve uma ampla gama de mudanças ocorrendo em diferentes níveis
do organismo: biológico, psicológico e social (Connolly, 1986).
Com a orientação ao processo, houve uma revisão
dos estudos feitos sobre o que muda no comportamento e quando. Isto se fez sentir
principalmente no estudo do desenvolvimento dos padrões fundamentais
de movimento (Roberton, 1982). Esses padrões foram estudados com o intuito
de identificar a seqüência de estágios pelos quais elas passam
ao longo do tempo. Mostrou-se, por exemplo, que o andar, o correr, o saltar,
o arremessar, etc., segue uma seqüência de estágios que representam
níveis graduais de proficiência, isto é, de controle motor.
Por serem consideradas como as primeiras formas de controle motor voluntário,
o desenvolvimento desse padrões foi visto como sendo determinado pela
maturação neurológica. Entretanto não se pode esquecer
que ações habilidosas são criadas a partir de uma relação
dinâmica entre organismo, ambiente e a tarefa. Mudanças em qualquer
um desses elementos trarão conseqüências para a ação
(Manoel & Connolly, 1995; Newell, 1986). Portanto, para que o desenvolvimento
motor dos padrões fundamentais de movimento seja compreendido é
necessário que a interação entre esses fatores seja considerada.
Keogh & Sugden (1985), por exemplo, apresentam um modelo de descrição
do comportamento que leva em consideração as relações
entre o indivíduo e o ambiente. Numa mesma ação, o padrão
de movimento pode ser modificado, se: (a) o indivíduo estiver estático
ou em movimento e (b) se o ambiente for estável ou instável. As
várias combinações entre as condições do
indivíduo e do ambiente irão impor diferentes demandas espaciais
e temporais sobre o executante. A maneira com que os indivíduos respondem
a tais demandas indicará de forma mais válida e fidedigna o nível
de suas habilidades, permitindo, consequentemente, uma avaliação
mais real dos seus estados de desenvolvimento.
Tradicionalmente,
os estados de desenvolvimento motor foram descritos a partir de situações
onde houve pouca consideração dos efeitos da interação
entre o indivíduo, tarefa e o ambiente (Manoel, 1994). Num certo sentido
isto é reflexo da influência do modelo maturacional, que dava pouca
importância aos efeitos da experiência e do ambiente no comportamento
apresentado. Entretanto, a relação padrão de movimento
e condições ambientais não é unívoca. Isto
é exemplificado por Higgins & Spaeth (1972) num estudo onde crianças
praticavam o arremesso com uma mão por cima do ombro a um alvo móvel
ou estático. Nessas circunstâncias, o padrão de movimento
resultante era particular à estabilidade do ambiente. Os movimentos sempre
apresentavam variações de uma tentativa a outra, entretanto, quanto
mais instável o ambiente,
mais variado era o padrão, quanto mais estável o ambiente menos
variação no padrão. Com base nesses resultados, Higgins
(1978) propôs que não haveria um padrão fundamental de movimento,
como preconizado por pesquisadores do desenvolvimento motor. De acordo com Higgins
cada padrão de movimento refere-se a uma solução particular,
única, para um dado problema motor, numa dada situação,
onde as peculiaridades da interação indivíduo-ambiente
tem grande influência.
Nos últimos dez anos, uma série de estudos têm sido realizados
focalizando as relações entre ambiente, objetivo da tarefa e padrão
de movimento (Langendorfer, 1990; Manoel & Pellegrini, 1985; Nabeiro, Duarte
& Manoel, 1995; Roberton, 1987). Esses estudos demonstraram que, em geral,
as classificações tradicionais do padrão em termos de estágios
ou níveis de desenvolvimento dependem do objetivo da tarefa (p.e.: arremessar
à distância ou arremessar a um alvo) e das condições
do ambiente (p.e.: ambiente estável ou instável). Devido à
relevância das relações indivíduo-ambiente para a
compreensão do desenvolvimento motor é necessário que novos
estudos sejam conduzidos.
Com essa preocupação temos investigado o arremesso e em situações
cujo objetivo da tarefa é alterado (Oliveira, 1997; Oliveira, 1994; Oliveira,
Manoel & Amadio, 1995). Com o propósito de obter dados mais abrangentes
sobre os ajustes motores realizados frente às variações
do objetivo buscou-se aliar a descrição qualitativa (categorização
do comportamento em vários níveis de desenvolvimento) com uma
descrição quantitativa (mensuração de parâmetros
cinemáticos do comportamento).
A combinação desses modos de descrição permite que
se façam relações entre um dado nível de desenvolvimento
e seu correspondente parâmetro cinemático. Além disso, o
conjunto de medidas qualitativas e quantitativas possibilitam uma descrição
mais abrangente sobre como o comportamento motor é modificado face as
restrições da tarefa. As medidas qualitativas possibilitam analisar
se os ajustes face aos objetivos da tarefa que foram feitos a nível do
sequenciamento do programa de ação. Supõe-se que os níveis
de desenvolvimento que cada componente do padrão fundamental de movimento
refletem mudanças na programação motora. Já as medidas
quantitativas contribuem para a interpretação sobre até
que ponto os ajustes efetuados foram de natureza paramétrica. Tempo de
movimento e velocidade, por exemplo, são parâmetros especificados
no programa de ação. Dessa forma, é possível identificar
o tipo de ajuste motor efetuado (a nível do programa, dos parâmetros
do programa ou de ambos) associado ao estado de desenvolvimento motor dos indivíduos.
O projeto de pesquisa visa investigar os efeitos da variação de
uma restrição da tarefa - objetivo - no padrão fundamental
de movimento arremessar. A nossa preocupação é; (a) verificar
se os efeitos da mudança de objetivo na tarefa arremessar causam alterações
a nível do programa de ação e/ou ao nível de parâmetros
do programa; (b) verificar se os efeitos serão diferenciados em função
do estado de desenvolvimento motor dos indivíduos.
O estudo contou com a participação de 19 crianças de ambos
os sexos na faixa etária de 4 a 10 anos de idade. A tarefa consistia
na execução de dez arremessos à distância (com força).
Os arremessos foram efetuados com uma pelota de diâmetro similar à
bola de tênis de campo, com peso de 200 gramas. Nessa condição
foi registrada a distância alcançada pelo arremesso. No arremesso
à distância a instrução foi projetar a pelota o mais
longe possível. O alvo foi dividido em zonas com pontuações,
onde 50 eqüivalia a acertar o centro do alvo. Para o arremesso ao alvo
foi computado os escores em pontos. A distância entre a área de
arremesso e o alvo correspondia a 50% da maior distância obtida nos arremessos
à distância. No arremesso ao alvo, as crianças foram instruídas
e motivadas a acertarem o centro do alvo. Foram utilizadas duas filmadoras de
vídeo e um aparelho de ultra-som. Através de um dispositivo eletrônico
foi possível sincronizar o funcionamento desses equipamentos.
A determinação da velocidade e do tempo de movimento foi obtida
pela medição direta através do processamento e gerenciamento
por conversor analógico-digital do sinal de um emissor de ultra-som (ver
para maiores detalhes Oliveira, Amadio e Manoel, 1995). Esse emissor estava
fixado no punho do executante. Os dados obtidos referem-se ao deslocamento do
punho durante a ação do arremesso. O período considerado
para análise foi do momento em que a magnitude da velocidade chegava
a zero até o momento de soltura da bolsa, definido com base na análise
de vídeo.
Resultados preliminares
A análise inicial dos resultados sugere efeitos interessantes da variação da restrição da tarefa no desempenho motor. Com referência ao desempenho global, quanto mais avançado maior foi a distância arremessada (ver. Figura 1). Entretanto, maior precisão não corresponde a um estágio mais avançado de desenvolvimento. Esse resultado corrobora os achados anteriores nos quais a classificação e categorização dos estágios de desenvolvimento no arremesso está condicionada ao objetivo com que essa tarefa é executada (Langendofer, 1990; Manoel & Pellegrini, 1984, 1985).
FIGURA 1 - Escores médios
dos arremessos à distância (em metros) e ao alvo (em pontos).
Pode-se dizer que a caracterização de um estágio maduro
de desenvolvimento motor não se baseia apenas na observação
do desempenho numa única situação. Torna-se necessário
considerar um conjunto de situações em que a atividade em foco
é observada. Nesse caso, o mais importante não é a apresentação
de um padrão de movimento particular, mas a capacidade de responder de
forma apropriada a cada situação. As crianças no estágio
maduro restringiram seus movimentos no arremesso alvo, mas talvez não
o suficiente para estarem de acordo com as demandas de precisão dessa
tarefa (ver Tabela 1). Ou seja, foram efetuados ajustes no programa de ação
(seqüenciamento), mas não o suficiente para apresentar um programa
voltado para garantir maior precisão no arremesso. Isto implicaria o
bom desempenho das crianças nos estágios elementar e maduro.
TABELA 1 - Valores médios para os níveis de desenvolvimento dos componentes nas duas tarefas do grupo Maduro.

1 Os números
entre parênteses indicam os números dos níveis de desenvolvimento
dentro da seqüência dos componentes.
p<0,05
Para dar continuidade ao presente estudo, será preciso considerar em
mais detalhe o padrão de movimento das crianças em cada grupo
nas duas tarefas, principalmente para verificar quais ajustes paramétricos
foram efetuados. A inspeção das curvas de velocidade de uma criança
do estágio maduro indica que nem sempre há mudanças importantes
em função do objetivo (ver Figura 2).

FIGURA 2 - Curvas
de velocidade (m/s) da articulação do pulso em função
do tempo de execução da tarefa(s) no arremesso à distância
(AD) e ao alvo (AL), de uma criança classificada no grupo de estágio
Maduro de desenvolvimento motor.
A análise dos padrões fundamentais de movimento foi feita extensivamente
entre os anos 40 e 70. A caracterização do desenvolvimento motor
não se mostrou satisfatória, mesmo do ponto de vista descritivo.
É necessário considerar os ajustes mostrados no desempenho motor
num conjunto de situações. O grande desafio será definir
esse conjunto de situações de forma que ele se refira à
interrelação ótima de várias restrições
na ação motora que condiciona os estados de desenvolvimento motor
ao longo do ciclo de vida.
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(p. 269-279)
ponto de vista
Processo adaptativo na aquisição de habilidades motoras
Rodolfo Novellino Benda
As atuais
teorias de aprendizagem motora caracterizam um modelo de equilíbrio preocupado
apenas com a explicação do processo de estabilização
da performance (Adams, 1971; Schmidt, 1975). Essas teorias buscam compreender
como um indivíduo evolui de um estágio inicial que apresenta um
número elevado de erros, inconsistência e alta demanda de atenção
para um estágio final, consistente, com poucos erros e pouca demanda
de atenção (Fitts, 1964; Fitts & Posner, 1967). Contudo, essas
teorias não explicam o que ocorre após este estágio final.
Reconhecidamente, modelos de equilíbrio são capazes de explicar
a aquisição e manutenção de estrutura mas são
incapazes de explicar a formação de novas estruturas, isto é,
um sistema com aumento contínuo de complexidade.
Para entender a aprendizagem motora em uma perspectiva de não equilíbrio,
faz-se necessário recorrer a meta-teorias de ciência. De acordo
com Kuhn (1991), o progresso na ciência ocorre através de revoluções.
Nestas revoluções surgem os novos paradigmas, que direciona o
modo com que o ser humano vê a natureza e busca compreender os fenômenos,
a vida, as pessoas e suas relações. "E, quando mudam os paradigmas,
muda com eles o próprio mundo" (Kuhn, 1991: 145).
Para Morin (1990), o atual paradigma vem se tornando desde o final do século
passado, quando alguns dos princípios da ciência clássica
(reducionismo, determinismo, linearidade e reversibilidade, dentre outros) começaram
a ser questionados. A nova tendência científica se preocupa com
fenômenos complexos, aparentemente irredutíveis e com uma forte
relação com o acaso e a desordem (Dupuy, 1993). Nas palavras de
Prigogine (1996:14), "assistimos ao surgimento de uma ciência que
não mais se limita a situações simplificadas, idealizadas,
mas nos põe diante da complexidade do mundo real, uma ciência que
permite que se viva a criatividade humana como a expressão singular de
um traço fundamental comum a todos os níveis da natureza".
Esta nova ciência ou ciência atual é caracterizada pelo paradigma
sistêmico.
Um sistema é um complexo de elementos em interação em que
as partes não são compreendidas como componentes isolados. A interação
dos elementos resulta em uma organização na qual o comportamento
das partes é diferente quando estão isoladas do que quando compõe
o todo (Bertalanffy, 1977). Essa organização pode distinguir os
sistemas, principalmente no que se refere ao aumento de sua diferenciação
e complexidade. Com essa distinção, é possível classificar
os sistemas em fechados e abertos. Sistemas fechados são aqueles considerados
isolados do ambiente. Nestes se aplica a 2a lei da termodinâmica
em que a entropia cresce até o máximo e o sistema pára
em um estado de equilíbrio onde não há capacidade do sistema
em importar energia livre do meio ambiente. Sendo a entropia também uma
medida de probabilidade, o sistema tende a apresentar-se na situação
mais provável, ou seja em uma distribuição altamente desordenada.
Esta desordem corresponde a uma distribuição aleatória,
que leva a uma disposição estatisticamente homogênea (Atlan,
1992).
Os sistemas abertos, por sua vez, são sistemas em não equilíbrio
que mudam, evoluem e evitam o aumento de entropia, através da troca constante
de matéria/energia e informação com meio ambiente (Bertalanffy,
1977). Esta troca tem como conseqüência perturbações
no sistema, já que o ambiente é incerto. A perturbação
pode desempenhar um papel fundamental na organização do sistema,
pois a partir dela o sistema, considerado como uma estrutura dissipativa, pode
evoluir para um estado superior de complexidade Prigogine & Stengers, 1984;
Prigogine, 1996). Contudo, o grau de perturbação parece ser importante
nesse processo. Para uma pequena perturbação, pequenos ajustes
são necessários e com uma grande perturbação, o
limite do sistema pode ser ultrapassado e apresentar-se a desordem.
Mas, para uma perturbação entre pequena e grande, deve ocorrer
um salto qualitativo e o sistema se reorganiza num nível mais complexo.
(Morin. 1990; Gleick, 1990; Lewin, 1994; Lorenz, 1996). "Um universo que
fosse apenas ordem seria um universo onde não haveria nada de novo, nem
criação. Já um universo que fosse apenas desordem não
chegaria a constituir uma organização, e seria inapto ao desenvolvimento
e à inovação" (Morin, 1993: 87). O próprio
nascimento do universo, defendido pela teoria do Big-bang, vem sendo atribuído
a capacidade de auto-organização dos sistemas, em que a perturbação,
a instabilidade, e o acaso são considerados fatores decisivos para a
criação da ordem (Jantsch, 1980; Prigogine, 1996).
Porém, não é somente a perturbação que indica
a capacidade do sistema evoluir, mas sim o sistema que deve se encontrar em
um certo nível de organização no qual aquela perturbação
pode elicitar alguma resposta adaptativa. Assim, não basta uma perturbação
adequada para que o sistema seja capaz de se estabelecer em um estado superior
de complexidade, ou seja, uma nova ordem. É preciso que o sistema esteja
pronto para mudar, em constante interação com o meio e principalmente,
se encontre no limite do caos. Neste, o sistema está no ponto de transição
entre a ordem e a desordem, permitindo ocorrer, para um pequeno estímulo,
uma grande mudança. Um regime totalmente desordenado ou muito flexível
não é capaz de se adaptar. O primeiro por se encontrar em equilíbrio
e o segundo por não apresentar um padrão podendo ser alterado
a qualquer momento. Na realidade, os sistemas se adaptam quando estão
no limite do caos (Preigogine & Stengers, 1984; Packard, 1988; Kauffman,
1991; 1993; Lewin, 1994; Capra, 1996). No limite do caos, entre a ordem e a
desordem, o sistema se encontra próximo de uma bifurcação,
onde ocorre a transição de fase e o sistema se reorganiza em um
nível superior de complexidade. Estar no limite do caos implica em criatividade,
em novidade. É o ponto no qual o sistema apresenta simultaneamente consistência
e flexibilidade, estando apto a reproduzir aquele padrão e pronto para
se adaptar às perturbações através de um salto qualitativo
( Li & Yorke, 1975; Packard, 1988; Gleick, 1990; Kauffman, 1991; 1993; Lewin,
1994; Capra, 1996). Kauffman (1991), ainda propõe que na fronteira do
caos as redes artificiais podem ter a flexibilidade para adaptar rapidamente
e com sucesso. Conforme Morin (1990) quanto mais complexo é o comportamento
dos sistemas, maior a flexibilidade adaptativa em relação ao ambiente.
Uma outra questão interessante refere-se a um grau de redundância,
que varia entre rigidez, certeza e flexibilidade, incerteza, como se uma parcela
de flexibilidade fosse fundamental, para permitir o sistema se adaptar às
perturbações (Atlan, 1992). Assim, para que o sistema possa se
adaptar a certa perturbação, é necessário que seja
flexível o suficiente, no limite do caos.
Observa-se, atualmente, uma tendência do paradigma sistêmico com
todas as suas ramificações teóricas em influenciar várias
áreas de conhecimento. No que diz respeito à Aprendizagem Motora,
há uma forte relação entre vários conceitos já
difundidos em algumas áreas, como a física, química, biologia,
engenharia, matemática e o estudo da aquisição de habilidades
motoras. Termos como ruído, transição de fase, turbulência,
flutuação e redundância já são utilizados
no estudo do comportamento motor humano quando é considerado como um
sistema em não-equilíbrio, ou seja, um processo dinâmico.
Na aprendizagem motora, na perspectiva de um modelo de não-equilibrio
(Tani, 1995), a estabilização representa apenas um estágio
dentro de um processo contínuo de evolução. A adaptação
ou processo adaptativo ocorre como uma etapa posterior à estabilização.
Tani et alii (1992:17) propuseram que "a formação de novas
estruturas a partir de estruturas existentes implica na desestabilização
para posterior estabilização num nível superior de complexidade,
ou seja, a adaptação". O ser humano procura sempre se adequar
às incertezas no ambiente ou no próprio sistema. No processo adaptativo,
a perturbação no ambiente "exige do executante modificações
na estrutura da habilidade já adquirida e uma reorganização
dessa estrutura. Com esta reorganização, o sistema como um todo
adquire maior complexidade e organização, ou seja, ocorre uma
evolução qualitativa" (Tani, 1989: 6). Forma-se, deste modo
um ciclo de estabilidade-instabilidade-estabilidade, no qual o ser humano continua
a aprender uma habilidade que já domina, ampliando o seu nível
de qualidade.
Alguns estudos recentes propõem que a aprendizagem motora seja compreendida
como um processo de formação de padrão, baseados na auto-organização
de sistemas em não-equilíbrio que implica em estabilidade e mudança
(Schöner & Kelso, 1994; Kelso, 1995; Kelso & Haken, 1997). Estes
se aproximam muito do modelo de não-equilíbrio em aprendizagem
motora que tem sido apresentado por Tani (1982; 1989; 1995) e Manoel (1992;1993).
Em contrapartida, se distanciam muito no que se refere ao controle das habilidades
motoras, ou seja, o nível de organização de uma estrutura
interna.
No modelo de não-equilíbrio em aprendizagem motora, o sujeito
não encerra a aprendizagem em uma fase autônoma. Esta aprendizagem
é contínua, com um aumento constante no seu grau de complexidade.
Nesta visão, considera-se duas fases de aprendizagem: a fase de estabilização
e a fase adaptação (Tani, 1982). A fase de estabilização
não é um processo cumulativo, linear, no qual o sistema vai se
tornando gradativamente mais capaz. Após uma quantidade de prática,
em um determinado momento, o comportamento esperado, ou seja, a execução
correta da habilidade motora emerge como num salto qualitativo. Isso parece
ocorrer devido às várias interações dos componentes
do sistema, até que em certo momento chega-se à interação
desejada para aquela habilidade (Bertalanffy, 1977). A emergência do comportamento
não é linear.
Na fase de adaptação, a flexibilidade inerente para se ajustar
às perturbações caracteriza uma redundância do sistema
(Tani, 1995; Tani, Connolly & Manoel, 1996). Um sistema extremamente rígido
tem dificuldades para se adaptar às perturbações. Para
tal, a flexibilidade parece ser fundamental ( Koestler, 1969; Morin, 1990; Tani
et al, 1992). Assim, é importante que o sistema se esteja no limite do
caos, apresentando ao mesmo tempo, consistência e flexibilidade. De fato,
essa é uma característica já reconhecida há muito
tempo (Bartlett, 1932). Por isso, a variabilidade pode ter uma importante função
no processo adaptativo. É preciso destacar que a variabilidade ocorrerá
em diferentes momentos com efeitos distintos (Manoel & Connolly, 1995).
No início da aprendizagem, antes da estabilização, a variabilidade
observada parece estar relacionada à inconsistência. Com a estabilização,
a variabilidade reduz. Ao ampliar a quantidade de prática após
a estabilização, parece haver novamente, um aumento da flutuação
da variabilidade. Esse aumento pode indicar redundância do sistema, que
representa uma flexibilidade necessária para se adaptar às perturbações.
Sugere-se que a redundância ocorreria após a estabilização
da habilidade motora em questão (Benda, Tani & Corrêa, 1997).
Assim, seria interessante também, manipular o grau de perturbação
para observar se o sistema redundante se adapta às instabilidades em
melhores condições ou de forma mais rápida que os não
redundantes. Espera-se que para uma perturbação maior, maior deve
ser a redundância do sistema para se adaptar. Ao passo que, em perturbações
menores, o sistema não necessitaria de tal redundância.
Lançar idéias e realizar associações da aprendizagem
motora com teorias que ainda não estão sedimentadas na sua própria
área de conhecimento pode parecer um projeto bem ambicioso. Contudo,
o objetivo deste pequeno ensaio não é apresentar um relatório
final ou uma conclusão de um estudo, mas sim funcionar como um ponto
de partida de uma linha de pesquisa. Para isso, foi exposto uma questão
central com uma série de ramificações que conduzirão
a um posicionamento menos especulativo. Assim, existe um vasto campo a ser investigado
e uma série de experimentos a serem realizados. Oxalá possamos
apresentar nos próximos números os primeiros resultados dessa
busca.
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NOTÍCIAS
Endereço:
Laboratório de Comportamento Motor
Departamento de Pedagogia do Movimento do Corpo Humano
Escola de Educação Física e Esporte
Universidade de São Paulo
Av. Prof. Mello Moraes, 65
CEP 05508-900
São Paulo – SP
E-mail: ejmanoel@usp.br

Página disponibilizada em
28 de Maio de 1999
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