BOLETIM

LABORATÓRIO DE COMPORTAMENTO MOTOR

AGOSTO V. 4 No 2 1997

ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA & ESPORTE UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Editor: Edison de J. Manoel

ÍNDICE

Estados dinâmicos e mudanças no comportamento

Edison de J. Manoel........................................................................................................... 1

Estado de desenvolvimento motor e variação numa restrição da tarefa: dados preliminares sobre a análise da habilidade arremessar

Jorge Alberto de Oliveira & Edison J. Manoel........................................................................ 2

Processo adaptativo na aquisição de habilidades motoras
Rodolfo Novellino Benda........................................................................................................ 6

EDITORIAL

Estados dinâmicos e mudanças no comportamento motor

Desenvolvimento motor e aprendizagem motora são objetos de estudo de áreas com metodologias de pesquisa distintas e bem definidas. Entretanto, até que ponto esses fenômenos são distintos? O desenvolvimento motor refere-se a mudanças em classes gerais de comportamento (locomoção, estabilidade, manipulação) associadas a períodos que compõem o ciclo da vida. A aprendizagem motora também refere-se a mudanças no comportamento mas numa habilidade específica e associadas a um período de prática sistemática dessa tarefa. Ou seja, uma das principais distinções entre aprendizagem e desenvolvimento refere-se à escala de tempo utilizada para verificar as mudanças no comportamento. Quando se considera que indivíduos são sistemas abertos (cf. Bertalanffy, 1977), não há muito sentido em tratar o desenvolvimento dissociado da aprendizagem. O aspecto principal é o processo que gera mudanças nos padrões de organização ao longo do tempo. Nesse processo, o sistema passa por estados de complexidade organizada crescentes. Denominar essas mudanças como sendo oriundas da aprendizagem ou do desenvolvimento é apenas uma questão da escala temporal adotada. Apesar disso, as implicações são cruciais pois juntamente com a dimensão temporal encontra-se um conjunto de fatores do ambiente, da tarefa e do organismo cuja relação nós apenas começamos a compreender.
O presente boletim traz duas contribuições que nos fazem refletir sobre os cuidados em distinguir aprendizagem do desenvolvimento enquanto fenômeno. Ambas tem como preocupação, estudar processos ou mudanças no comportamento numa perspectiva dinâmica. Na crônica científica, Oliveira & Manoel trazem dados preliminares sobre a caracterização do estado de desenvolvimento como sendo condicionado às variações numa restrição da tarefa. Em se tratando de um estudo descritivo o foco de atenção incide sobre restrições da tarefa e do ambiente que interagem com as do indivíduo, condicionando seu desempenho motor num dado instante. A forma como essa interação ocorre e os efeitos que ela exerce no desempenho necessitam ser apurados em detalhe para que se possa descrever com mais propriedade cada estado de desenvolvimento, qualificando-o como mais ou menos avançado. O estado de desenvolvimento refletiria o estado dinâmico do sistema ("steady-state") num dado instante, ao longo do eixo temporal de vida desse sistema.
Na seção Ponto de Vista, Benda discorre sobre o impacto de mudanças paradigmáticas na Ciência para o levantamento de um problema central no estudo da aquisição de habilidades motoras: a tendência para aumento da complexidade. Novamente a distinção aprendizagem e desenvolvimento perde sentido pois o que importa é que o sistema esteja num processo em busca de maior complexidade organizada. De fato, Benda ressalta que as teorias tradicionais de aprendizagem motora são limitadas seja para caracterizar os estados dinâmicos do comportamento, seja para compreender as mudanças estruturais que geram novos estados. Benda ressalta vários problemas que se originam da desconsideração de aspectos importantes do indivíduo como um sistema aberto.
Assim, a Crônica Científica e o Ponto de Vista oferecem exemplos de estudos e preocupações que não cabem sob o rótulo de uma ou outra área. Em essência, os dois trabalhos apresentados no Boletim apontam para duas necessidades básicas (a) é preciso analisar o sistema de ação e as restrições atuantes na definição de seu estado, e (b) abordar o processo de mudança desses estados em direção ao aumento de complexidade.

REFRERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Bertalantty, L. von (1977). Teoria geral dos sistemas. Petropólis: Editora Vozes.

Edison de Jesus Manoel

CRÔNICA CIENTÍFIC

Estado de desenvolvimento motor e variação numa restrição da tarefa: dados preliminares sobre a análise da habilidade arremessar

Jorge Alberto de Oliveira

Edison de J. Manoel

A tentativa de formular questões que sejam mais relevantes para a compreensão do desenvolvimento motor vem de longa data. Até os anos 70, os estudos eram voltados para as questões do tipo "o que" e "quando" um dado comportamento se modifica (abordagem orientada ao produto). Desde então, os estudos voltaram-se para o processo com questões do tipo "como" um dado comportamento se modifica. Na segunda perspectiva, o desenvolvimento motor é visto como um processo onde há um progresso de movimentos simples e desordenados para movimentos específicos, ordenados e crescentemente mais complexos (Haywood, 1986). Do ponto de vista do processo, o desenvolvimento resultaria de uma melhor capacidade para controlar movimentos (Keogh, 1977). Entretanto, como as pesquisas tornam evidente, o processo de desenvolvimento envolve uma ampla gama de mudanças ocorrendo em diferentes níveis do organismo: biológico, psicológico e social (Connolly, 1986).
Com a orientação ao processo, houve uma revisão dos estudos feitos sobre o que muda no comportamento e quando. Isto se fez sentir principalmente no estudo do desenvolvimento dos padrões fundamentais de movimento (Roberton, 1982). Esses padrões foram estudados com o intuito de identificar a seqüência de estágios pelos quais elas passam ao longo do tempo. Mostrou-se, por exemplo, que o andar, o correr, o saltar, o arremessar, etc., segue uma seqüência de estágios que representam níveis graduais de proficiência, isto é, de controle motor. Por serem consideradas como as primeiras formas de controle motor voluntário, o desenvolvimento desse padrões foi visto como sendo determinado pela maturação neurológica. Entretanto não se pode esquecer que ações habilidosas são criadas a partir de uma relação dinâmica entre organismo, ambiente e a tarefa. Mudanças em qualquer um desses elementos trarão conseqüências para a ação (Manoel & Connolly, 1995; Newell, 1986). Portanto, para que o desenvolvimento motor dos padrões fundamentais de movimento seja compreendido é necessário que a interação entre esses fatores seja considerada. Keogh & Sugden (1985), por exemplo, apresentam um modelo de descrição do comportamento que leva em consideração as relações entre o indivíduo e o ambiente. Numa mesma ação, o padrão de movimento pode ser modificado, se: (a) o indivíduo estiver estático ou em movimento e (b) se o ambiente for estável ou instável. As várias combinações entre as condições do indivíduo e do ambiente irão impor diferentes demandas espaciais e temporais sobre o executante. A maneira com que os indivíduos respondem a tais demandas indicará de forma mais válida e fidedigna o nível de suas habilidades, permitindo, consequentemente, uma avaliação mais real dos seus estados de desenvolvimento.
Tradicionalmente, os estados de desenvolvimento motor foram descritos a partir de situações onde houve pouca consideração dos efeitos da interação entre o indivíduo, tarefa e o ambiente (Manoel, 1994). Num certo sentido isto é reflexo da influência do modelo maturacional, que dava pouca importância aos efeitos da experiência e do ambiente no comportamento apresentado. Entretanto, a relação padrão de movimento e condições ambientais não é unívoca. Isto é exemplificado por Higgins & Spaeth (1972) num estudo onde crianças praticavam o arremesso com uma mão por cima do ombro a um alvo móvel ou estático. Nessas circunstâncias, o padrão de movimento resultante era particular à estabilidade do ambiente. Os movimentos sempre apresentavam variações de uma tentativa a outra, entretanto, quanto mais instável o ambiente, mais variado era o padrão, quanto mais estável o ambiente menos variação no padrão. Com base nesses resultados, Higgins (1978) propôs que não haveria um padrão fundamental de movimento, como preconizado por pesquisadores do desenvolvimento motor. De acordo com Higgins cada padrão de movimento refere-se a uma solução particular, única, para um dado problema motor, numa dada situação, onde as peculiaridades da interação indivíduo-ambiente tem grande influência.
Nos últimos dez anos, uma série de estudos têm sido realizados focalizando as relações entre ambiente, objetivo da tarefa e padrão de movimento (Langendorfer, 1990; Manoel & Pellegrini, 1985; Nabeiro, Duarte & Manoel, 1995; Roberton, 1987). Esses estudos demonstraram que, em geral, as classificações tradicionais do padrão em termos de estágios ou níveis de desenvolvimento dependem do objetivo da tarefa (p.e.: arremessar à distância ou arremessar a um alvo) e das condições do ambiente (p.e.: ambiente estável ou instável). Devido à relevância das relações indivíduo-ambiente para a compreensão do desenvolvimento motor é necessário que novos estudos sejam conduzidos.
Com essa preocupação temos investigado o arremesso e em situações cujo objetivo da tarefa é alterado (Oliveira, 1997; Oliveira, 1994; Oliveira, Manoel & Amadio, 1995). Com o propósito de obter dados mais abrangentes sobre os ajustes motores realizados frente às variações do objetivo buscou-se aliar a descrição qualitativa (categorização do comportamento em vários níveis de desenvolvimento) com uma descrição quantitativa (mensuração de parâmetros cinemáticos do comportamento).
A combinação desses modos de descrição permite que se façam relações entre um dado nível de desenvolvimento e seu correspondente parâmetro cinemático. Além disso, o conjunto de medidas qualitativas e quantitativas possibilitam uma descrição mais abrangente sobre como o comportamento motor é modificado face as restrições da tarefa. As medidas qualitativas possibilitam analisar se os ajustes face aos objetivos da tarefa que foram feitos a nível do sequenciamento do programa de ação. Supõe-se que os níveis de desenvolvimento que cada componente do padrão fundamental de movimento refletem mudanças na programação motora. Já as medidas quantitativas contribuem para a interpretação sobre até que ponto os ajustes efetuados foram de natureza paramétrica. Tempo de movimento e velocidade, por exemplo, são parâmetros especificados no programa de ação. Dessa forma, é possível identificar o tipo de ajuste motor efetuado (a nível do programa, dos parâmetros do programa ou de ambos) associado ao estado de desenvolvimento motor dos indivíduos.
O projeto de pesquisa visa investigar os efeitos da variação de uma restrição da tarefa - objetivo - no padrão fundamental de movimento arremessar. A nossa preocupação é; (a) verificar se os efeitos da mudança de objetivo na tarefa arremessar causam alterações a nível do programa de ação e/ou ao nível de parâmetros do programa; (b) verificar se os efeitos serão diferenciados em função do estado de desenvolvimento motor dos indivíduos.
O estudo contou com a participação de 19 crianças de ambos os sexos na faixa etária de 4 a 10 anos de idade. A tarefa consistia na execução de dez arremessos à distância (com força). Os arremessos foram efetuados com uma pelota de diâmetro similar à bola de tênis de campo, com peso de 200 gramas. Nessa condição foi registrada a distância alcançada pelo arremesso. No arremesso à distância a instrução foi projetar a pelota o mais longe possível. O alvo foi dividido em zonas com pontuações, onde 50 eqüivalia a acertar o centro do alvo. Para o arremesso ao alvo foi computado os escores em pontos. A distância entre a área de arremesso e o alvo correspondia a 50% da maior distância obtida nos arremessos à distância. No arremesso ao alvo, as crianças foram instruídas e motivadas a acertarem o centro do alvo. Foram utilizadas duas filmadoras de vídeo e um aparelho de ultra-som. Através de um dispositivo eletrônico foi possível sincronizar o funcionamento desses equipamentos.
A determinação da velocidade e do tempo de movimento foi obtida pela medição direta através do processamento e gerenciamento por conversor analógico-digital do sinal de um emissor de ultra-som (ver para maiores detalhes Oliveira, Amadio e Manoel, 1995). Esse emissor estava fixado no punho do executante. Os dados obtidos referem-se ao deslocamento do punho durante a ação do arremesso. O período considerado para análise foi do momento em que a magnitude da velocidade chegava a zero até o momento de soltura da bolsa, definido com base na análise de vídeo.

Resultados preliminares

A análise inicial dos resultados sugere efeitos interessantes da variação da restrição da tarefa no desempenho motor. Com referência ao desempenho global, quanto mais avançado maior foi a distância arremessada (ver. Figura 1). Entretanto, maior precisão não corresponde a um estágio mais avançado de desenvolvimento. Esse resultado corrobora os achados anteriores nos quais a classificação e categorização dos estágios de desenvolvimento no arremesso está condicionada ao objetivo com que essa tarefa é executada (Langendofer, 1990; Manoel & Pellegrini, 1984, 1985).

FIGURA 1 - Escores médios dos arremessos à distância (em metros) e ao alvo (em pontos).
Pode-se dizer que a caracterização de um estágio maduro de desenvolvimento motor não se baseia apenas na observação do desempenho numa única situação. Torna-se necessário considerar um conjunto de situações em que a atividade em foco é observada. Nesse caso, o mais importante não é a apresentação de um padrão de movimento particular, mas a capacidade de responder de forma apropriada a cada situação. As crianças no estágio maduro restringiram seus movimentos no arremesso alvo, mas talvez não o suficiente para estarem de acordo com as demandas de precisão dessa tarefa (ver Tabela 1). Ou seja, foram efetuados ajustes no programa de ação (seqüenciamento), mas não o suficiente para apresentar um programa voltado para garantir maior precisão no arremesso. Isto implicaria o bom desempenho das crianças nos estágios elementar e maduro.

TABELA 1 - Valores médios para os níveis de desenvolvimento dos componentes nas duas tarefas do grupo Maduro.

 

 

1 Os números entre parênteses indicam os números dos níveis de desenvolvimento dentro da seqüência dos componentes.
p<0,05
Para dar continuidade ao presente estudo, será preciso considerar em mais detalhe o padrão de movimento das crianças em cada grupo nas duas tarefas, principalmente para verificar quais ajustes paramétricos foram efetuados. A inspeção das curvas de velocidade de uma criança do estágio maduro indica que nem sempre há mudanças importantes em função do objetivo (ver Figura 2).

FIGURA 2 - Curvas de velocidade (m/s) da articulação do pulso em função do tempo de execução da tarefa(s) no arremesso à distância (AD) e ao alvo (AL), de uma criança classificada no grupo de estágio Maduro de desenvolvimento motor.
A análise dos padrões fundamentais de movimento foi feita extensivamente entre os anos 40 e 70. A caracterização do desenvolvimento motor não se mostrou satisfatória, mesmo do ponto de vista descritivo. É necessário considerar os ajustes mostrados no desempenho motor num conjunto de situações. O grande desafio será definir esse conjunto de situações de forma que ele se refira à interrelação ótima de várias restrições na ação motora que condiciona os estados de desenvolvimento motor ao longo do ciclo de vida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ponto de vista

Processo adaptativo na aquisição de habilidades motoras

Rodolfo Novellino Benda

As atuais teorias de aprendizagem motora caracterizam um modelo de equilíbrio preocupado apenas com a explicação do processo de estabilização da performance (Adams, 1971; Schmidt, 1975). Essas teorias buscam compreender como um indivíduo evolui de um estágio inicial que apresenta um número elevado de erros, inconsistência e alta demanda de atenção para um estágio final, consistente, com poucos erros e pouca demanda de atenção (Fitts, 1964; Fitts & Posner, 1967). Contudo, essas teorias não explicam o que ocorre após este estágio final. Reconhecidamente, modelos de equilíbrio são capazes de explicar a aquisição e manutenção de estrutura mas são incapazes de explicar a formação de novas estruturas, isto é, um sistema com aumento contínuo de complexidade.
Para entender a aprendizagem motora em uma perspectiva de não equilíbrio, faz-se necessário recorrer a meta-teorias de ciência. De acordo com Kuhn (1991), o progresso na ciência ocorre através de revoluções. Nestas revoluções surgem os novos paradigmas, que direciona o modo com que o ser humano vê a natureza e busca compreender os fenômenos, a vida, as pessoas e suas relações. "E, quando mudam os paradigmas, muda com eles o próprio mundo" (Kuhn, 1991: 145).
Para Morin (1990), o atual paradigma vem se tornando desde o final do século passado, quando alguns dos princípios da ciência clássica (reducionismo, determinismo, linearidade e reversibilidade, dentre outros) começaram a ser questionados. A nova tendência científica se preocupa com fenômenos complexos, aparentemente irredutíveis e com uma forte relação com o acaso e a desordem (Dupuy, 1993). Nas palavras de Prigogine (1996:14), "assistimos ao surgimento de uma ciência que não mais se limita a situações simplificadas, idealizadas, mas nos põe diante da complexidade do mundo real, uma ciência que permite que se viva a criatividade humana como a expressão singular de um traço fundamental comum a todos os níveis da natureza". Esta nova ciência ou ciência atual é caracterizada pelo paradigma sistêmico.
Um sistema é um complexo de elementos em interação em que as partes não são compreendidas como componentes isolados. A interação dos elementos resulta em uma organização na qual o comportamento das partes é diferente quando estão isoladas do que quando compõe o todo (Bertalanffy, 1977). Essa organização pode distinguir os sistemas, principalmente no que se refere ao aumento de sua diferenciação e complexidade. Com essa distinção, é possível classificar os sistemas em fechados e abertos. Sistemas fechados são aqueles considerados isolados do ambiente. Nestes se aplica a 2a lei da termodinâmica em que a entropia cresce até o máximo e o sistema pára em um estado de equilíbrio onde não há capacidade do sistema em importar energia livre do meio ambiente. Sendo a entropia também uma medida de probabilidade, o sistema tende a apresentar-se na situação mais provável, ou seja em uma distribuição altamente desordenada. Esta desordem corresponde a uma distribuição aleatória, que leva a uma disposição estatisticamente homogênea (Atlan, 1992).
Os sistemas abertos, por sua vez, são sistemas em não equilíbrio que mudam, evoluem e evitam o aumento de entropia, através da troca constante de matéria/energia e informação com meio ambiente (Bertalanffy, 1977). Esta troca tem como conseqüência perturbações no sistema, já que o ambiente é incerto. A perturbação pode desempenhar um papel fundamental na organização do sistema, pois a partir dela o sistema, considerado como uma estrutura dissipativa, pode evoluir para um estado superior de complexidade Prigogine & Stengers, 1984; Prigogine, 1996). Contudo, o grau de perturbação parece ser importante nesse processo. Para uma pequena perturbação, pequenos ajustes são necessários e com uma grande perturbação, o limite do sistema pode ser ultrapassado e apresentar-se a desordem.
Mas, para uma perturbação entre pequena e grande, deve ocorrer um salto qualitativo e o sistema se reorganiza num nível mais complexo. (Morin. 1990; Gleick, 1990; Lewin, 1994; Lorenz, 1996). "Um universo que fosse apenas ordem seria um universo onde não haveria nada de novo, nem criação. Já um universo que fosse apenas desordem não chegaria a constituir uma organização, e seria inapto ao desenvolvimento e à inovação" (Morin, 1993: 87). O próprio nascimento do universo, defendido pela teoria do Big-bang, vem sendo atribuído a capacidade de auto-organização dos sistemas, em que a perturbação, a instabilidade, e o acaso são considerados fatores decisivos para a criação da ordem (Jantsch, 1980; Prigogine, 1996).
Porém, não é somente a perturbação que indica a capacidade do sistema evoluir, mas sim o sistema que deve se encontrar em um certo nível de organização no qual aquela perturbação pode elicitar alguma resposta adaptativa. Assim, não basta uma perturbação adequada para que o sistema seja capaz de se estabelecer em um estado superior de complexidade, ou seja, uma nova ordem. É preciso que o sistema esteja pronto para mudar, em constante interação com o meio e principalmente, se encontre no limite do caos. Neste, o sistema está no ponto de transição entre a ordem e a desordem, permitindo ocorrer, para um pequeno estímulo, uma grande mudança. Um regime totalmente desordenado ou muito flexível não é capaz de se adaptar. O primeiro por se encontrar em equilíbrio e o segundo por não apresentar um padrão podendo ser alterado a qualquer momento. Na realidade, os sistemas se adaptam quando estão no limite do caos (Preigogine & Stengers, 1984; Packard, 1988; Kauffman, 1991; 1993; Lewin, 1994; Capra, 1996). No limite do caos, entre a ordem e a desordem, o sistema se encontra próximo de uma bifurcação, onde ocorre a transição de fase e o sistema se reorganiza em um nível superior de complexidade. Estar no limite do caos implica em criatividade, em novidade. É o ponto no qual o sistema apresenta simultaneamente consistência e flexibilidade, estando apto a reproduzir aquele padrão e pronto para se adaptar às perturbações através de um salto qualitativo ( Li & Yorke, 1975; Packard, 1988; Gleick, 1990; Kauffman, 1991; 1993; Lewin, 1994; Capra, 1996). Kauffman (1991), ainda propõe que na fronteira do caos as redes artificiais podem ter a flexibilidade para adaptar rapidamente e com sucesso. Conforme Morin (1990) quanto mais complexo é o comportamento dos sistemas, maior a flexibilidade adaptativa em relação ao ambiente. Uma outra questão interessante refere-se a um grau de redundância, que varia entre rigidez, certeza e flexibilidade, incerteza, como se uma parcela de flexibilidade fosse fundamental, para permitir o sistema se adaptar às perturbações (Atlan, 1992). Assim, para que o sistema possa se adaptar a certa perturbação, é necessário que seja flexível o suficiente, no limite do caos.
Observa-se, atualmente, uma tendência do paradigma sistêmico com todas as suas ramificações teóricas em influenciar várias áreas de conhecimento. No que diz respeito à Aprendizagem Motora, há uma forte relação entre vários conceitos já difundidos em algumas áreas, como a física, química, biologia, engenharia, matemática e o estudo da aquisição de habilidades motoras. Termos como ruído, transição de fase, turbulência, flutuação e redundância já são utilizados no estudo do comportamento motor humano quando é considerado como um sistema em não-equilíbrio, ou seja, um processo dinâmico.
Na aprendizagem motora, na perspectiva de um modelo de não-equilibrio (Tani, 1995), a estabilização representa apenas um estágio dentro de um processo contínuo de evolução. A adaptação ou processo adaptativo ocorre como uma etapa posterior à estabilização. Tani et alii (1992:17) propuseram que "a formação de novas estruturas a partir de estruturas existentes implica na desestabilização para posterior estabilização num nível superior de complexidade, ou seja, a adaptação". O ser humano procura sempre se adequar às incertezas no ambiente ou no próprio sistema. No processo adaptativo, a perturbação no ambiente "exige do executante modificações na estrutura da habilidade já adquirida e uma reorganização dessa estrutura. Com esta reorganização, o sistema como um todo adquire maior complexidade e organização, ou seja, ocorre uma evolução qualitativa" (Tani, 1989: 6). Forma-se, deste modo um ciclo de estabilidade-instabilidade-estabilidade, no qual o ser humano continua a aprender uma habilidade que já domina, ampliando o seu nível de qualidade.
Alguns estudos recentes propõem que a aprendizagem motora seja compreendida como um processo de formação de padrão, baseados na auto-organização de sistemas em não-equilíbrio que implica em estabilidade e mudança (Schöner & Kelso, 1994; Kelso, 1995; Kelso & Haken, 1997). Estes se aproximam muito do modelo de não-equilíbrio em aprendizagem motora que tem sido apresentado por Tani (1982; 1989; 1995) e Manoel (1992;1993). Em contrapartida, se distanciam muito no que se refere ao controle das habilidades motoras, ou seja, o nível de organização de uma estrutura interna.
No modelo de não-equilíbrio em aprendizagem motora, o sujeito não encerra a aprendizagem em uma fase autônoma. Esta aprendizagem é contínua, com um aumento constante no seu grau de complexidade. Nesta visão, considera-se duas fases de aprendizagem: a fase de estabilização e a fase adaptação (Tani, 1982). A fase de estabilização não é um processo cumulativo, linear, no qual o sistema vai se tornando gradativamente mais capaz. Após uma quantidade de prática, em um determinado momento, o comportamento esperado, ou seja, a execução correta da habilidade motora emerge como num salto qualitativo. Isso parece ocorrer devido às várias interações dos componentes do sistema, até que em certo momento chega-se à interação desejada para aquela habilidade (Bertalanffy, 1977). A emergência do comportamento não é linear.
Na fase de adaptação, a flexibilidade inerente para se ajustar às perturbações caracteriza uma redundância do sistema (Tani, 1995; Tani, Connolly & Manoel, 1996). Um sistema extremamente rígido tem dificuldades para se adaptar às perturbações. Para tal, a flexibilidade parece ser fundamental ( Koestler, 1969; Morin, 1990; Tani et al, 1992). Assim, é importante que o sistema se esteja no limite do caos, apresentando ao mesmo tempo, consistência e flexibilidade. De fato, essa é uma característica já reconhecida há muito tempo (Bartlett, 1932). Por isso, a variabilidade pode ter uma importante função no processo adaptativo. É preciso destacar que a variabilidade ocorrerá em diferentes momentos com efeitos distintos (Manoel & Connolly, 1995). No início da aprendizagem, antes da estabilização, a variabilidade observada parece estar relacionada à inconsistência. Com a estabilização, a variabilidade reduz. Ao ampliar a quantidade de prática após a estabilização, parece haver novamente, um aumento da flutuação da variabilidade. Esse aumento pode indicar redundância do sistema, que representa uma flexibilidade necessária para se adaptar às perturbações. Sugere-se que a redundância ocorreria após a estabilização da habilidade motora em questão (Benda, Tani & Corrêa, 1997).
Assim, seria interessante também, manipular o grau de perturbação para observar se o sistema redundante se adapta às instabilidades em melhores condições ou de forma mais rápida que os não redundantes. Espera-se que para uma perturbação maior, maior deve ser a redundância do sistema para se adaptar. Ao passo que, em perturbações menores, o sistema não necessitaria de tal redundância.
Lançar idéias e realizar associações da aprendizagem motora com teorias que ainda não estão sedimentadas na sua própria área de conhecimento pode parecer um projeto bem ambicioso. Contudo, o objetivo deste pequeno ensaio não é apresentar um relatório final ou uma conclusão de um estudo, mas sim funcionar como um ponto de partida de uma linha de pesquisa. Para isso, foi exposto uma questão central com uma série de ramificações que conduzirão a um posicionamento menos especulativo. Assim, existe um vasto campo a ser investigado e uma série de experimentos a serem realizados. Oxalá possamos apresentar nos próximos números os primeiros resultados dessa busca.

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Página disponibilizada em 28 de Maio de 1999
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