BOLETIM
LABORATÓRIO DE COMPORTAMENTO MOTOR
DEZEMBRO V. 5 No 3 1998
ESCOLA DE EDUCAÇÃO FÍSICA & ESPORTE UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Editor: Edison de J. Manoel
ÍNDICE
Sobre processos cognitivos e ações motoras
Umberto C. Corrêa..................................................................................................................... 1
Planejamento de uma habilidade manipulativa em indivíduos portadores de síndrome de Down: Dados preliminares
Cássia Regina P. Moreira e Edison de J. Manoel.................................................................. 2
Problemas para o estudo do perito motor
Luiz Eduardo P. B. T. Dantas ........................................................................................................... 6
EDITORIAL
Sobre processos cognitivos e ações motoras
Umberto Cesar Corrêa
Apesar de ter sofrido
muitas críticas ao longo dos anos, a suposição do envolvimento
de processos cognitivos na execução de habilidades motoras, mais
especificamente precedendo a execução de tarefas complexa, tem
sido defendida em vários campos da ciência. Nesse contexto, duas
questões são abordadas neste Boletim: a) sobre o planejamento
na execução de habilidades motoras, e b) sobre a relação
da base de conhecimento-expertise. Os estudos sobre o planejamento de
ações motoras foram influenciados principalmente pelos trabalhos
de Glencross (1970; 1973), sobre a regulação do timing
em habilidades seriadas no processo de aquisição, e sobre a variação
do tempo de reação de acordo com a complexidade da tarefa.
Esses estudos deram margem à hipótese de que algumas ações
motoras são precedidas por preparação (i.e. planejamento).
Na Crônica Científica, Moreira e Manoel apresentam uma verificação
desse pressuposto. Em seu estudo, estes autores utilizam a tarefa de apreender,
encaixar e inserir um objeto em um alvo, diferentemente daquelas habilidades
verificadas mais frequentemente na literatura. Moreira e Manoel utilizam-se,
também, de indivíduos com certas especificidades no planejamento
de ações motoras (portadores de Síndrome de Down). Uma
análise preliminar de seus resultados é apresentada. Uma das questões
fundamentais no campo da cognição diz respeito a "como o
conhecimento é organizado" (Pick Jr., van den Broek & Knill,
1992). As especulações acerca desta questão têm envolvido,
entre outros aspectos, as distinções entre os conhecimentos declarativo
e de procedimento. Pode-se dizer que tais especulações foram primeiramente
influenciadas pelo tabalho de Anderson (1978). Atualmente, esse tipo de trabalho
(também conhecido como Base de Conhecimento) tem sido desenvolvido juntamente
com uma outra linha de pesquisa denominada de expertise (Johnson, Kochevar
e Zualkernan, 1992). A base de conhecimento refere-se à toda informação
acumulada na memória de longo prazo, caracterizada pela possibilidade
de relacionar informações já existentes àquelas
novas (Campos, 1993). Expertise é a denominação
que se dá para indivíduos peritos, ou habilidosos, ou com grande
nível de conhecimento em determinadas tarefas (Hodge & Deakin, 1998).
Recentemente, estes aspectos têm sido foco de muitas discussões
e controversas. No Ponto de Vista, Dantas procura fazer uma síntese
relacionando conhecimento e habilidade motora. Dantas aborda as questões
de base de conhecimento, conhecimentos declarativo e de procedimento, expertise,
e prática deliberada.
Referências Bibliográficas
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Pick Jr., H.L., van den Broek, P. & Knill, D.C. (Eds.) Cognition: Conceptual
and metodological issues. Washington, DC: American Psychological Association,
1992.
CRÔNICA CIENTÍFICA
Planejamento de uma habilidade manipulativa em indivíduos portadores de síndrome de Down: Dados preliminares
Cássia Regina P. Moreira
Edison de J. Manoel
O desenvolvimento
de habilidades manipulativas, além de desempenhar um papel fundamental
na evolução e ontogênese dos diversos gêneros de primatas
(Connolly & Elliott, 1972), representa para o ser humano uma enorme capacidade
de interação com seu ambiente, devido à considerável
variedade de atividades do cotidiano que requerem a utilização
das mãos para atingir metas determinadas. Contudo, a literatura a respeito
da função manual tem se preocupado mais com os processos de alcançar
e apreender objetos (Newell & McDonald, 1997), do que com a exploração
(identificação das características físicas do objeto)
e a manipulação (Manoel & Connolly, 1998). A manipulação
compreende o manuseio de objetos para se atingir finalidades específicas
requerendo portanto muita destreza (Connolly, 1973). No exercício dessa
função deverá haver a combinação da anatomia
da mão com estruturas abstratas, a partir das quais são definidas
a função do objeto a ser manipulado e o modo pelo qual ocorrerá
a manipulação. O meio de solução motora refere-se
à elaboração de um programa de ação o qual
se caracteriza pela definição da seqüência de eventos
direcionados para alcançar algum objetivo no meio ambiente. Como é
formado esse programa de ação ? Sabe-se muito pouco isso, apesar
dos inúmeros estudos descrevendo os fatores que influenciam as trajetórias
de mão em direção a um objeto. Rosenbaum, Vaughan, Barnes,
Marchack, Slotta & Jorgensen (1990) destacam a importância de se pesquisar
aspectos macroscópicos do movimento, ou mais especificamente o planejamento
envolvido na realização de ações motoras. Assim,
com a finalidade de investigar como o indivíduo seleciona estratégias
para a realização de metas específicas, esses autores julgaram
ser conveniente identificar restrições que, no momento do planejamento,
acabam por excluir a possibilidade de execução de certos movimentos.
De acordo com essa noção, Rosenbaum et al. (1990) realizaram um
experimento com indivíduos adultos, que consistia de segurar uma barra
cilíndrica (apoiada sobre um cavalete) de extremidades cinza e preta
e transportá-la a um dos dois discos situados um à sua esquerda
(azul) e outro à sua direita (vermelho), conforme a instrução
dos experimentadores. O indivíduo podia escolher entre dois diferentes
tipos de preensão, denominadas "por cima" (isto é, com
a região palmar voltada para baixo) e "por baixo" (com a região
palmar voltada para cima). A instrução determinava qual a extremidade
a ser colocada e em qual dos discos, num total de quatro diferentes possibilidades.
Os resultados mostraram que os indivíduos procuraram minimizar o desconforto
ao final do primeiro movimento de transporte da barra, ainda que o tipo de preensão
escolhido resultasse, inicialmente, num movimento desconfortável, ao
que chamaram de "ângulos extremos das articulações".
De acordo com os autores, isso indica que o indivíduo ajusta seu padrão
de preensão em função da sua meta, isto é, do que
ele pretende fazer com o objeto apreendido ao final do movimento, numa tentativa
de criar melhores condições para atender às demandas de
precisão nessa etapa da execução. momento. Há, nesse
sentido, uma interação entre restrições biomecânicas
e propriedades cognitivas do sistema de ação motora quando do
planejamento de uma ação motora. O indivíduo adota ações
que antecipam o estado final de seu corpo em relação ao objeto
a ser manipulado. Indivíduos portadores de síndrome de Down são
geralmente caracterizados como tendo dificuldades na definição
de aspectos macroscópicos da ação como os envolvidos no
planejamento (Pedrinelli-Junghahnel, 1990). Entretanto, informações
a esse respeito ainda são escassas. Por exemplo, Block (1991) realizou
uma ampla revisão de literatura sobre o desenvolvimento motor dessa população
e aspectos associados, donde destacou a necessidade de se descrever também
o comportamento motor do adulto, com o intuito de verificar se as limitações
e desvios apresentados por esses indivíduos quando crianças persistem
até a fase madura. O autor acrescentou a importância de se observar
a variabilidade intra e interindividual e seu significado. Apesar de Block (1991)
abranger desde as várias disfunções organísmicas
relacionadas à síndrome até as características motoras
em função do nível de desenvolvimento, ao tratar de adolescência
e idade adulta (dos dez aos quarenta anos de idade), o autor aponta apenas para
os problemas no tônus muscular e nas capacidades de força e flexibilidade,
de modo que as maiores limitações parecem estar associadas mais
ao controle motor do que à coordenação de um modo geral.
Não obstante a importância dessas constatações, os
aspectos macroscópicos do movimento não foram relatados nessa
revisão. No que se refere ao desenvolvimento das habilidades manuais
em portadores de síndrome de Down, Thombs e Sugden (1991) investigaram
quarenta crianças e adolescentes de seis a dezesseis anos de idade e
de ambos os sexos, na realização de sete diferentes tarefas, inclusive
manipulativas. Os resultados mostraram que com o aumento da idade há
uma preferência dos indivíduos utilizarem preensões de precisão
em detrimento das preensões de força, além de manterem
durante toda a tarefa o tipo de preensão que adotaram inicialmente. Todavia,
as crianças mais novas foram mais consistentes na tarefa que considerava
maior liberdade de escolha para a preensão. Esses autores consideram
que a consistência na preensão pode tanto ser indicativo de rigidez
como de um planejamento avançado, e a inconsistência, por sua vez,
pode indicar tanto flexibilidade na seleção das respostas como
um planejamento mais rudimentar. Thombs e Sugden (1991) acreditam que a combinação
desses resultados com as mudanças quantitativas da idade sugerem que
o aumento da consistência em certas tarefas apresentado por crianças
mais velhas (adolescentes) indicam um aumento na capacidade de planejar. Esses
autores apontam a necessidade de investigações mais específicas
a respeito do planejamento envolvido na realização de ações
motoras com indivíduos em idades mais avançadas portadores de
síndrome de Down. Portanto, foi objetivo deste estudo investigar como
os indivíduos portadores de síndrome de Down, adolescentes e adultos,
planejam suas ações motoras numa tarefa manipulativa envolvendo
encaixe. Participaram do experimento dez indivíduos (entre treze e vinte
e sete anos de idade), divididos em dois grupos quanto ao nível de deficiência:
grupo leve (GL; n=6); grupo moderado (GM; n=4) Buscou-se, então, uma
combinação dos protocolos desenvolvidos por Manoel (1993), Manoel
e Connolly (1994, 1997, 1998) e o de Rosenbaum et al. (1990), de modo que o
indivíduo deveria apreender uma barra cilíndrica (apoiada num
cavalete) com duas extremidades distintas pela cor – uma verde e outra vermelha
- transportá-la e encaixá-la num orifício situado na tampa
de uma caixa. O aparelho ficava sobre uma mesa à qual o indivíduo
se sentava para executar a tarefa. As sessões foram filmadas por uma
filmadora Panasonic SVH-S cujo registro permitiu a análise posterior
do comportamento. Numa primeira condição, considerada de baixa
restrição – LC – foi manipulada uma barra de extremidades circulares,
cujo encaixe no orifício de mesmo formato demandava localização
e posicionamento adequados. Numa segunda condição, a barra tinha
extremidades semicirculares, o que requeria, além de localização,
posicionamento e ainda, a orientação correta da barra para o encaixe
num orifício também semicircular, de modo que essa condição
foi considerada de alta restrição – HC. Deveriam ser realizadas
cinco tentativas por extremidade, num total de vinte tentativas. A instrução
ressaltou algumas exigências: (a) a tarefa deveria ser realizada com apenas
uma das mãos, sem que a outra auxiliasse; (b) a barra, uma vez apreendida,
não podia ser trocada de mão; (c) a manipulação
da barra deveria ser feita somente através de movimentos extrínsecos
(ou seja, das articulações do punho, antebraço, cotovelo,
ombro e quadris), e portanto, sem auxílio de movimentos dos dígitos.
Na verdade, essas exigências tiveram por finalidade permitir uma identificação
mais clara dos componentes da ação, os quais correspondem às
fases de preensão, transporte e inserção.
Para fins de análise, foram registrados os comportamentos nas fases de
preensão e inserção, de acordo com certos parâmetros,
como segue:
1) Fase de Preensão
A princípio, a tarefa permitia quatro combinações diferentes quanto ao tipo de preensão (P) adotado, em função da dominância – direita (d) X esquerda (e) - e da posição da mão – superior (S) X inferior (I) (ou respectivamente "por cima" e "por baixo", de acordo com Rosenbaum et al.,1990)
2) Fase de Inserção
Foi registrado se
ao final da execução os indivíduos realizaram o movimento
de modo confortável (isto é, sem a ocorrência de "ângulos
extremos das articulações") ou de modo desconfortável.
Finalmente, pretendeu-se observar se houve acoplamento entre essas duas fases,
ou seja, se o indivíduo adotou um tipo de preensão que favorecesse
um posicionamento confortável das articulações ao final
do movimento, caracterizando o que Rosenbaum et al. (1990) denominaram de hipótese
do "conforto do estado final". De acordo com esses autores, um aumento
na restrição de execução da tarefa - condição
HC - provocaria uma preocupação ainda maior em finalizar o movimento
de maneira confortável, uma vez que a demanda de precisão da inserção
seria maior.
Os resultados foram calculados de acordo com a moda das cinco tentativas para
cada extremidade (5 LC verde; 5 LC vermelha; 5 HC verde; 5 HC vermelha) como
passamos a descrever para cada condição:
Condição LC
1) Fase de preensão
· extremidade verde
GL: dois indivíduos apreenderam a barra com a mão direita inferior (Pd-I), dois com a mão esquerda superior (Pe-S), e os outros dois com a mão direita superior (Pd-S).
GM: um indivíduo realizou preensão do tipo Pd-I, enquanto os outros três realizaram a preensão Pd-S.
· extremidade vermelha
GL: três indivíduos apreenderam a barra com o tipo Pd-S, enquanto um único indivíduo apreendeu com Pe-I e os outros dois indivíduos apreenderam a barra com o tipo Pe-S.
GM: um indivíduo apreendeu a barra com o tipo Pd-S, um outro indivíduo com o tipo Pe-I, e os outros dois com o tipo Pe-S.
2) Fase de inserção
A finalização do movimento de modo confortável ou desconfortável teve relação direta com o tipo de preensão adotado. Assim, para a extremidade verde, os indivíduos que apreenderam a barra com a mão direita inferior (Pd-I) – dois em GL e um em GM - ou com a mão esquerda superior (Pe-S) – apenas um indivíduo de GL -finalizaram a tarefa de modo confortável. Para a extremidade vermelha, os indivíduos que adotaram preensão com a mão direita superior (Pd-S) – três em GL e um em GM – finalizaram a tarefa confortavelmente, bem como os indivíduos que apreenderam a barra com a mão esquerda inferior (Pe-I) – um em GL e um em GM. Os demais indivíduos não realizaram o movimento de modo confortável no momento da inserção.
Um outro resultado interessante apresentado na fase de inserção é que a barra foi inserida diretamente por todos os indivíduos de ambos os grupos, ou seja, não houve contato da barra com a superfície da caixa antes do momento de inserção (encaixe).
Condição HC
1) Fase de preensão
· extremidade verde
GL: dois indivíduos realizaram preensão do tipo Pe-S, três indivíduos adotaram preensão Pd-S e um indivíduo adotou preensão do tipo Pd-I.
GM: um único indivíduo realizou preensão do tipo Pe-S, dois indivíduos realizaram preensão Pd-S e o outro indivíduo adotou preensão Pd-I.
· extremidade vermelha
GL: cinco indivíduos adotaram preensão do tipo Pd-S e um indivíduo adotou a preensão do tipo Pe-S.
GM: um único indivíduo adotou a preensão Pd-S, enquanto os outros três adotaram preensão do tipo Pe-S.
2) Fase de Inserção
Assim como na condição LC, certos tipos de preensões favoreciam o conforto ao final da execução. No entanto, na condição de alta restrição, havia apenas um tipo de preensão que favorecia o conforto do estado final cada extremidade, qual seja: com a mão esquerda superior (Pe-S) para a extremidade verde e com a mão direita superior (Pd-S) para a extremidade vermelha. Portanto, embora fosse esperado para a extremidade verde que três indivíduos finalizassem a tarefa de modo confortável, sendo dois de GL e um de GM, este último não conseguuiu inserir a barra no orifício, ou seja, não finalizou a tarefa. Conseqüentemente, pode-se dizer que apenas metade dos indivíduos de GL finalizam a tarefa confortavelmente quando tentam inserir a extremidade verde.Para a extremidade vermelha, no entanto, a maior parte dos indivíduos de GL (cinco) finalizou a tarefa de modo confortável, uma vez que apreenderam a barra com a mão direita superior (Pd-S). Já em GM, apenas um indivíduo finaliza o movimento de modo confortável, também de acordo com a preensão adotada. Quanto ao tipo de inserção apresentado nesta condição, todos os indivíduos de GL, assim como na condição LC, inserem diretamente a barra. Todavia, em GM, para ambas as extremidades, apenas um indivíduo realiza a inserção da barra diretamente, enquanto outros dois inserem a barra de modo indireto (isto é, inserção da barra após duas ou mais modificações de posicionamento e/ou orientação), e um único indivíduo não conseguiu realizar a tarefa (o mesmo citado anteriormente quanto ao conforto do estado final - extremidade verde nesta condição). De acordo com os resultados apresentados neste estudo, pode-se dizer que os indivíduos considerados como "leves" (GL) demonstraram um planejamento melhor elaborado do que os indivíduos ditos "moderados" (GM), o que pode ser verificado pela quantidade de indivíduos de GL que apreendeu a barra de modo a favorecer conforto ao final do movimento (50% para a extremidade verde e 66% para a extremidade vermelha) em comparação com GM (25% para a extremidade verde e 50% para a extremidade vermelha). Essa diferença é verificada novamente na condição de alta restrição (HC), onde há também necessidade de uma orientação adequada da barra para que possa ocorrer o encaixe. Nesta condição apenas um único tipo de preensão favorece o conforto do estado final para cada uma das extremidades. Os resultados mostraram que, para a extremidade verde, 33% dos indivíduos de GL adotam uma preensão que favorece o conforto ao final do movimento (Pe-S), enquanto em GM, o único indivíduo que adota esse tipo de preensão não consegue realizar a tarefa, ou seja, não insere a barra. Quanto à extremidade vermelha, cerca de 83% dos indivíduos de GL apreendem a barra de modo a finalizar o movimento de modo confortável (Pd-S), sendo que em GM, apenas um indivíduo (25%) apreende a barra de modo a promover conforto no estado final e, ainda assim, não consegue inserir a barra diretamente. O fato de todos os indivíduos de GL inserirem a barra diretamente, mesmo na condição de alta restrição (HC), pode ser um indicativo que, de alguma maneira, eles se preocupam em obter uma certa precisão ao final do movimento, ainda que isso não se manifeste a partir de uma escolha adequada no tipo de precisão. Isso porque, embora os indivíduos "leves" tenham apresentado maior quantidade de preensões que favoreçam conforto ao final do movimento quando comparados aos indivíduos "moderados", esses resultados não indicam com certeza a ocorrência de um acoplamento entre o tipo de preensão adotado e o conforto do estado final, principalmente para a extremidade verde na condição HC, onde apenas dois indivíduos adotaram a preensão esquerda superior (Pe-S). As implicações desses resultados para a compreensão do planejamento em indivíduos portadores de síndrome de Down é objeto de nossas atenções no momento.
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Problemas para o estudo do perito motor
Luiz Eduardo Pinto Basto Tourinho Dantas
No domínio motor pode-se conhecer sem ser capaz de fazer e pode-se fazer sem ser capaz de conhecer. Conhecer aqui refere-se a representações simbólicas (proposições) relacionadas a produção da ação. O estudo comparativos entre perito e iniciantes de uma forma indireta, tem fornecido alguns subsídios importantes acerca do problema da interação do conhecimento e a ação. Este programa de pesquisa surgiu dentro do campo da psicologia cognitiva, preocupada em compreender os aspectos que possam diferenciar indivíduos peritos de indivíduos iniciantes em um determinado domínio, campo de conhecimento ou ação, procurando discriminar variáveis que expliquem a natureza singular do comportamento perito. A preocupação destes estudos tem sido de levantar os aspectos cognitivas responsáveis pela natureza singular do comportamento perito. A evidências levantadas nesta linha de pesquisa, serviram como ponto de partida para a construção de uma abordagem chamada de base de conhecimento. ABERNETHY ET ALL (1993) coloca como pressuposto básico desta abordagem a afirmação que peritos e iniciantes, em um domínio específico qualquer, possuem a mesma arquitetura cognitiva (hardware), porém se diferenciam em termos do que conhecem e como utilizam o conhecimento. Esta abordagem provocou dentro da psicologia cognitiva um debate clássico acerca da natureza do desenvolvimento cognitivo, ou sobre "o que" se desenvolve na dimensão cognitiva humana. Uma visão seria que as crianças "pensam melhor" a medida que os anos passam, isto é, os processos cognitivos tornam-se mais poderosos (melhor computação). A explicação proposta pelos adeptos teoria da base de conhecimento é que as crianças, com o passar dos anos "conhecem melhor", isto é aprendem mais e mais fatos e métodos (mais programas). Não parece haver dúvida que estas duas proposições são complementares para a explicação do desenvolvimento cognitivo, porém nem sempre esta complementaridade foi aceita. Até meados da década de 60, a explicação predominante era a primeira alternativa. A abordagem da base de conhecimento surgiu em parte como crítica a exclusividade da perspectiva do "pensar melhor". As evidências (muitas advindas dos trabalhos comparativos perito-novato no campo da memória) mostravam que muitas funções cognitivas (memória, raciocínio lógico, categorização entre elas) eram influenciadas pela base de conhecimento do indivíduo. A base de conhecimento representa o conhecimento específico ao domínio em que as funções cognitivas estão sendo operadas (conhecer melhor). O constructo de base de conhecimento é formado por dois conceitos principais: o de conhecimento declarativo (CD) e o de conhecimento de procedimentos (CP). O primeiro refere-se ao conhecimento analítico, abstrato que compõe a representação de alguma coisa e é passível de ser declarado pela linguagem. Já o conhecimento de procedimento representa procedimentos e habilidades para fazer coisas ou resolver problemas (muitas vezes de natureza não declarável). Este modelo tem sido utilizado também para o estudo de habilidades motoras, notadamente aqueles ditas abertas, caracterizadas por um ambiente em constante mudança, com uma grande demanda cognitiva. E indiretamente este modelo tem fornecido informações sobre o paradoxo introduzido na introdução deste ensaio. No domínio motor, como em outros campos, a base de conhecimento (dimensão cognitiva) mostrou-se uma variável singular do comportamento motor habilidoso (perito). Sendo encontradas amplas evidências que demonstram que as diferenças entre estes dois níveis de habilidade (perito e iniciante)não se encontram apenas na sua dimensão física ou motora (sistema efetor), mas também, e quem sabe principalmente, na sua dimensão cognitiva. As dimensões cognitivas que tem sido exploradas e que distinguem ou acompanham singularmente o comportamento motor do indivíduo altamente abilidoso tem sido principalmente:
O CD no domínio motor, diferente do que no domínio cognitivo, pode estar desvinculado da ação, representando-a em formas de símbolos mas não relacionando-se diretamente com ela. Em outras palavras podemos conhecer declarativamente uma ação motora e porém não sermos capazes de produzi-la. DEL NERO (1997) sugere a existência de dois tipos de proposição na relação do indivíduo com a sua própria ação motora: falsas e verdadeiras. Seriam verdadeiras apenas aquelas capazes de afetar a execução da própria ação motora. Infelizmente as diferenças encontradas nos aspectos cognitivos (CD e CP) nos trabalhos com a abordagem do perito motor, nos dizem pouco sobre o paradoxo entre o conhecer e o fazer. Salmoni (1989) citado por Allard 1993 sugere a possibilidade que o conhecimento conceitual declarado (nos experimentos), pode ser um subproduto da experiência com um domínio esportivo particular, e não um componente da qualidade da execução de habilidades motoras dentro de um jogo. Uma das formas de abordar o problema seria através da manipulação da variável nível de habilidade e estudando as implicações na base de conhecimento do sujeito. O estudo emerge da seguinte questão: como se desenvolve comparativamente em indivíduos de um alto nível de habilidade (peritos)e indivíduos com um baixo nível de habilidade, porém ambos com o mesmo nível de experiência, o conhecimento declarativo(semântico, conceitual ou simbólico)e de procedimentos (tomada de decisão). Ou como se constrói esta relação entre uma dimensão semântica ou declarativa e a construção e execução da resposta motora (movimento). Este problema não tem sido atacado diretamente pela abordagem do perito motor, em razão desenho experimental clássico. Que tem comparado sujeitos com níveis de experiência muito díspares, não esclarecendo se os resultados encontrados são devido aos diferentes níveis de experiência ou diferentes níveis de performance. Uma possibilidade de investigar mais profundamente esta questão (conhecer e fazer), seria através de um maior controle sobre a variável experiência (prática deliberada) e qualidade da prática (contexto). Elegendo como referência para classificação dos sujeitos em peritos e pessoas comuns, exclusivamente o seu nível de performance de jogo. A comparação de indivíduos similares, isto é, com a mesma quantidade de prática, que porém, demonstrem níveis de performance diferentes (por exemplo, jogadores de um mesmo time esportivo divididos em dois grupos, em função da sua performance no jogo), pode ser um designe interessante para esclarecer se a base de conhecimento é realmente um componente do desempenho de habilidades motoras. E em um segundo momento investigar se, as medidas clássicas (reconhecimento, lembrança, tomada de decisão e conhecimento) utilizadas nos estudos da abordagem do perito, são capazes de representar as diferenças observadas entre indivíduos altamente habilidosos (perito) e indivíduos habilidosos.
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CHI, M & KOESKE, R.D. (1983). Network representation of a child’s dinosaur
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Equipe de edição:
Edison de J. Manoel
Andrea C.
Ximenes
Endereço: Laboratório de Comportamento Motor
Departamento de Pedagogia do Movimento
do Corpo Humano
Escola de Educação Física e Esporte
Universidade de São Paulo
Av. Prof. Mello Moraes, 65
CEP 05508-900
São Paulo – SP
E-mail: ejmanoel@usp.br
O Boletim é uma publicação quadrimestral que visa divulgar as atividades do LACOM. Os pedidos para aquisição de seus números devem ser encaminhados para a secretária do departamento acima citado através de carta ou e-mail no seguinte endereço: pedagogi@usp.br

Página disponibilizada em
28 de Maio de 1999
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